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O que dizem os textos que sobreviveram ao Vesúvio?

Inteligência Artificial conseguiu decifrar o conteúdo escrito de um documento carbonizado em Herculano, que resistiu ao Vesúvio

Texto Pompeia capa
Fragmento de papiro encontrado em Herculano - Vesuvius Challenge 2026

Durante quase dois milênios, um conjunto de pergaminhos permaneceu escondido sob as cinzas da erupção do Monte Vesúvio, que destruiu cidades romanas no ano 79 d.C. Entre eles estava um manuscrito que, apesar de ter sobrevivido ao desastre natural, parecia condenado ao silêncio: qualquer tentativa de desenrolá-lo fazia o papiro carbonizado se desfazer em fragmentos.

Agora, graças à combinação de tomografia computadorizada, inteligência artificial e técnicas avançadas de processamento de imagens, pesquisadores conseguiram recuperar todo o texto ainda preservado em um desses pergaminhos sem precisar abri-lo fisicamente.

Resistiu ao Vesúvio

O feito representa um marco para os estudos da Antiguidade. Pela primeira vez, especialistas conseguiram reconstruir integralmente o conteúdo remanescente de um único rolo da biblioteca de Herculano, cidade romana soterrada durante a erupção do Vesúvio. O documento, identificado como PHerc. 1667, possui cerca de um metro e meio de comprimento e reúne aproximadamente 20 colunas de texto em grego antigo, permanecendo ilegível desde a época do Império Romano.

A chamada Biblioteca de Herculano foi descoberta na década de 1750, durante escavações em uma luxuosa residência que muitos estudiosos acreditam ter pertencido ao sogro de Júlio César. O local continha aproximadamente 1.800 fragmentos de papiro, considerados a única biblioteca completa da tradição greco-romana que sobreviveu ao Vesúvio até os dias atuais.

Desde sua descoberta, estudiosos enfrentaram um dilema. Abrir os manuscritos significava correr o risco de destruí-los, enquanto esperar por novas tecnologias adiava indefinidamente a possibilidade de conhecer seu conteúdo. Tentativas realizadas nos séculos XIX e XX acabaram comprometendo boa parte do material, reduzindo significativamente o tamanho de alguns pergaminhos e eliminando camadas inteiras de texto.

Fragmentos do papiro PHerc.1103, um dos manuscritos carbonizados de Herculano – Foto: CC BY 4.0

Nos últimos anos, porém, uma nova abordagem mudou esse cenário. O projeto internacional Vesuvius Challenge passou a utilizar exames semelhantes à tomografia computadorizada para registrar o interior dos pergaminhos. Em seguida, algoritmos de inteligência artificial identificam diferenças quase imperceptíveis entre as fibras do papiro e a tinta utilizada pelos antigos escribas, permitindo reconstruir digitalmente cada camada do documento sem que ele seja aberto.

O desafio também estimulou a participação de pesquisadores independentes ao redor do mundo por meio de uma competição com premiações em dinheiro. Em 2023, um estudante recebeu US$ 40 mil após conseguir identificar a palavra “roxo” em um manuscrito ainda fechado. Posteriormente, outras equipes conquistaram prêmios ao decifrar milhares de caracteres gregos e descobrir o título de outro pergaminho.

O manuscrito PHerc. 1667 trata de questões filosóficas relacionadas à natureza do conhecimento humano, à capacidade de distinguir o bem do mal e à importância de agir com base na razão em vez dos impulsos. O texto também menciona Aristocreonte, sobrinho do filósofo estoico Crisipo, considerado uma das figuras centrais do Estoicismo.

Embora muitos pergaminhos encontrados em Herculano contenham obras do filósofo epicurista Filodemo, os especialistas acreditam que esse texto tenha outro autor. Pela análise da escrita, os pesquisadores estimam que o documento tenha sido produzido entre os séculos III e II a.C., tornando-o um dos mais antigos exemplares preservados na coleção. Como o início do manuscrito foi destruído em tentativas anteriores de abertura, tanto o título quanto a autoria permanecem desconhecidos, embora exista a hipótese de que Crisipo seja seu autor.

Os trechos recuperados reforçam princípios característicos da filosofia estoica. O texto alerta contra o excesso das paixões, defende o exercício da prudência e argumenta que o ser humano deve recorrer à racionalidade para alcançar conhecimento e virtude. Em uma das passagens preservadas, o autor afirma que a busca pelo saber fracassa quando as pessoas se afastam de sua própria natureza, entendida como a capacidade racional inerente aos seres humanos.

Além desse avanço, os pesquisadores anunciaram outras descobertas importantes. Um segundo manuscrito revelou o título Sobre os Deuses, Livro 8, de Filodemo, indicando que a obra possuía mais volumes do que os historiadores imaginavam. Outro pergaminho permitiu recuperar mais de 70 colunas de Sobre os Vícios, também atribuído ao filósofo.

Os responsáveis pelo projeto acreditam que a tecnologia inaugurou uma nova etapa para os estudos clássicos. Depois de décadas em que o maior desafio era desenvolver métodos capazes de ler os papiros carbonizados, a expectativa agora é concentrar esforços na interpretação dos textos recuperados. Enquanto isso, o Vesuvius Challenge mantém aberta uma recompensa de US$ 1 milhão para a primeira equipe que conseguir decifrar completamente outro pergaminho até o próximo ano. Para os pesquisadores, trata-se apenas do começo de um processo que poderá devolver à humanidade centenas de obras perdidas desde a erupção do Vesúvio.

Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero e nerd desde o berço, sou dono de uma mente inquieta que sempre tem mais perguntas que respostas. Vez ou outra, você pode ler textos meus sobre curiosidades históricas, música, ciência e cultura pop.