Matérias / A Odisseia

A Odisseia: a história real por trás do poema épico de Homero

Uma das obras mais influentes da cultura ocidental, "A Odisseia" sobreviveu por séculos cercada por história e lendas

Representação de Odisseu e Circe / Crédito: Getty Images

A proximidade da estreia de “A Odisseia”, novo filme de Christopher Nolan, recoloca em evidência uma das perguntas mais persistentes da tradição clássica: até que ponto a jornada narrada por Homero pertence ao campo da história e até que ponto permanece no domínio do mito?

Composta entre os séculos 8 e 7 a.C., a epopeia atribuída ao poeta grego ocupa um lugar central na cultura ocidental e segue mobilizando pesquisadores interessados em entender o que, por trás de deuses, monstros e viagens impossíveis, pode remeter ao mundo real da Grécia antiga.

Ao longo de 24 livros e mais de 12 mil versos em hexâmetro, o poema relata o retorno de Odisseu, rei de Ítaca, após a Guerra de Troia. A travessia dura dez anos e é marcada por provações que transformaram o herói em um dos personagens mais duradouros da literatura ocidental.

Ambientada em meados da Idade do Bronze, entre 1600 e 1200 a.C., a narrativa preserva traços do universo micênico e, ao mesmo tempo, reflete costumes, estruturas sociais e memórias coletivas do período em que Homero viveu.

Em busca de Ítaca

Não há, até hoje, evidências concretas de que tenha existido um rei chamado Odisseu, e a figura histórica do herói permanece sem comprovação. Em relação a Ítaca, porém, a situação é mais complexa.

Pesquisadores concordam que um reino micênico com esse nome existiu, embora a localização exata continue em debate. Uma das hipóteses mais discutidas associa a Ítaca homérica à ilha jônica de Cefalônia, mais especificamente à península de Paliki, que durante a Idade do Bronze teria sido uma pequena ilha separada.

A própria linguagem do poema fornece pistas sobre esse cruzamento entre tempos históricos distintos. Odisseu é descrito ora como anax, termo associado ao vocabulário micênico para “rei”, ora como basileu, palavra de uso posterior. A oscilação sugere que a obra conserva elementos de uma tradição muito antiga, mas também incorpora marcas do mundo em que foi registrada.

Odisseu amarrado ao mastro sendo atacado pelas sereias / Crédito: Getty Images

Período Micênico

A riqueza dos reis micênicos estava fortemente ligada à criação de rebanhos, e a Odisseia faz dessa lógica um componente central do enredo.

Personagens como o criador de porcos Eumeu, o pastor de cabras Melâncio e o vaqueiro Filétio mostram a importância da pecuária no universo do herói. No fim da narrativa, o próprio pai de Odisseu, Laertes, aparece trabalhando em vinhas, numa imagem que remete ao temenos, território reservado a reis ou divindades e conhecido em fontes históricas da região de Pilos.

Outro traço que aproxima o poema do ambiente micênico é a presença constante de servos e escravizados no palácio de Ítaca. A ama Euricleia, que cuidou de Odisseu quando ele era criança, desempenha um dos papéis mais decisivos da trama ao reconhecer o herói por uma cicatriz enquanto o banhava, sem revelar sua identidade.

Ao mesmo tempo, a casa de Odisseu não corresponde exatamente ao funcionamento dos palácios micênicos conhecidos pela arqueologia. Na prática, esses centros eram espaços de produção, onde artesãos transformavam matérias-primas em cerâmica, vidro e objetos de metal, recebendo rações como pagamento. Na Odisseia, esse aspecto fabril praticamente desaparece, e o palácio é retratado sobretudo como residência familiar e centro de administração das propriedades reais.

Rotas geográficas e confronto com Polifemo

O pano de fundo geopolítico da narrativa também dialoga com uma realidade mais ampla do mundo micênico. Segundo o mito, a guerra contra Troia reuniu uma grande coalizão de reinos gregos que juraram defender o marido escolhido por Helena caso ela fosse raptada. Quando Páris a leva para Troia, o juramento é acionado.

Fora da literatura, documentos hititas e egípcios registram a existência de uma confederação micênica real, conhecida como Ahhiyawa em textos hititas e Tanaja em registros egípcios do século 15 a.C., o que reforça a ideia de que a epopeia absorveu memórias de uma articulação política efetiva.

Se a base histórica da guerra segue sendo objeto de disputa, a rota percorrida por Odisseu também alimenta especulações. O historiador Mauricio Obregón, no século 20, tentou refazer trajetos antigos e propôs que a ilha dos Ciclopes poderia corresponder a uma das Ilhas Baleares.

Para ele, Menorca talvez tenha inspirado o cenário em que o herói encontra Polifemo, o gigante de um olho só. No poema, Polifemo é filho de Poseidon com uma ninfa marinha e aprisiona Odisseu e doze companheiros em uma caverna, após o grupo desembarcar vindo da terra dos Lotófagos.

Representação de Odisseu e seus homens sendo atacados por Polifemo / Crédito: Getty Images

Alguns marinheiros são devorados, e a fuga só se torna possível quando Odisseu embriaga o monstro, apresenta-se como Outis — “Ninguém” — e perfura seu único olho com uma estaca. Quando Polifemo pede socorro aos demais ciclopes, afirma que “Ninguém” o está atacando, o que o condena ao abandono.

A vitória, porém, transforma-se em erro. Já a bordo do navio, Odisseu revela o próprio nome ao gigante. A provocação leva Polifemo a pedir vingança ao pai, Poseidon, que passa a perseguir o herói por mar. É esse gesto de arrogância que desencadeia a longa sucessão de perigos da epopeia: os canibais Lestrigões, o estreito de Cila e Caríbdis, a feiticeira Circe, que transforma homens em porcos, e o episódio das Sereias, em que Odisseu, amarrado ao mastro, escuta o canto mortal.

Retorno a Ítaca e legado

O retorno a Ítaca é narrada em retrospecto aos feácios, depois que o herói consegue escapar da ilha de Ogígia, onde permaneceu retido por sete anos pela ninfa Calipso. Enquanto isso, em Ítaca, Penélope resiste à pressão dos pretendentes usando um estratagema célebre: promete escolher um novo marido quando terminar de tecer a mortalha de Laertes, mas desfaz o trabalho todas as noites.

O retorno a Ítaca concentra alguns dos momentos mais conhecidos da obra. Ao rever a terra natal, Odisseu se emociona: “Após tanta espera e tanta dor, finalmente se encheu de felicidade. Em júbilo, beijou a terra fértil de sua terra natal, ergueu os braços e orou…”

No palácio, o primeiro a reconhecê-lo é Argos, o velho cão deixado para trás duas décadas antes: “Vinte anos haviam se passado desde que Argos vira Odisseu, e agora ele o vira pela última vez — então, subitamente, a morte negra o dominou”. Em seguida, o herói vence a prova do arco, dispara através de doze cabeças de machado, mata os pretendentes e reassume o trono, repercute o National Geographic.

Ao longo dos séculos, essa combinação de memória histórica, aventura sobrenatural e drama familiar fez da Odisseia uma matriz para inúmeras obras posteriores, alimentando tragédias gregas e influenciando escritores modernos. A permanência da epopeia talvez esteja justamente nesse equilíbrio entre o concreto e o imaginário: ao mesmo tempo em que preserva ecos da Idade do Bronze e do mundo micênico, ela também se sustenta como uma narrativa universal sobre perda, astúcia, poder e o desejo de voltar para casa.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.