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Como Charles De Gaulle desafiou a rendição à Alemanha nazista?

Pronunciamento de De Gaulle transmitido pela BBC em 18 de junho de 1940 conclamou franceses a continuarem a luta contra o Terceiro Reich

Charles de Gaulle
Fotografia do general Charles de Gaulle / Crédito: Domínio Público/ Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos

Poucos dias após a rápida derrota militar da França diante da ofensiva alemã, um pronunciamento de pouco mais de quatro minutos mudaria o rumo da história do país. Na noite de 18 de junho de 1940, dos estúdios da BBC, em Londres, o então general Charles de Gaulle fez um apelo para que os franceses rejeitassem a capitulação diante da Alemanha nazista e mantivessem viva a luta contra o Terceiro Reich. Conhecido como Appel du 18 Juin (“Apelo de 18 de Junho”), o discurso é considerado o marco fundador da Resistência Francesa.

A mensagem foi transmitida apenas um dia depois de o marechal Philippe Pétain anunciar, em cadeia de rádio, que buscaria um armistício com a Alemanha. Herói da Primeira Guerra Mundial, Pétain havia assumido a chefia do governo francês em meio ao colapso militar e defendia o fim dos combates. Dias depois, seu governo assinaria oficialmente o armistício que dividiria a França entre a ocupação alemã e a chamada França de Vichy, regime colaboracionista que permaneceu no poder até 1944.

De Gaulle, por sua vez, recusou-se a aceitar a rendição. Refugiado em Londres com o apoio do primeiro-ministro britânico Winston Churchill, utilizou a rádio da BBC para dirigir-se aos militares e civis franceses. Embora sua voz tenha alcançado relativamente poucas pessoas naquele momento — já que a transmissão ocorreu em um contexto de desorganização e êxodo da população francesa —, o conteúdo do pronunciamento foi reproduzido por jornais e emissoras internacionais, ganhando enorme repercussão nos dias seguintes.

O incentivo de De Gaulle

Em seu discurso, De Gaulle procurou demonstrar que a derrota militar sofrida pela França não significava o fim da guerra. Segundo ele, o país havia sido superado pela superioridade dos tanques, aviões e da estratégia alemã, mas possuía condições de retomar a luta ao lado de seus aliados. O general ressaltou que a França ainda contava com o apoio do Império Britânico, de seu vasto império colonial e do enorme potencial industrial dos Estados Unidos, cuja capacidade produtiva poderia alterar o equilíbrio do conflito.

Outra ideia central da mensagem era a percepção de que o conflito não se restringia ao território francês. Em um momento em que a guerra ainda se concentrava na Europa Ocidental, De Gaulle afirmou que o confronto assumiria proporções globais e que os recursos das grandes potências acabariam determinando o resultado final. A avaliação mostrou-se correta: nos anos seguintes, o conflito se expandiria para diversos continentes, envolvendo países da Europa, Ásia, África e América.

O general também dirigiu um chamado direto aos militares franceses, engenheiros, técnicos e trabalhadores da indústria bélica que estivessem em território britânico ou conseguissem chegar ao Reino Unido. O objetivo era formar uma força capaz de continuar combatendo ao lado dos Aliados, iniciativa que daria origem às chamadas Forças Francesas Livres.

A frase final do pronunciamento tornou-se um dos maiores símbolos da resistência ao nazismo: “Aconteça o que acontecer, a chama da resistência francesa não deve se apagar e não se apagará”. A declaração passou a representar a recusa de parte da sociedade francesa em aceitar a ocupação alemã e inspirou grupos clandestinos que atuariam durante os anos seguintes.

Curiosamente, não existe uma única versão do famoso discurso. Historiadores apontam que o texto sofreu alterações ao longo de sua preparação. De Gaulle escreveu o primeiro rascunho na noite de 17 de junho, em seu apartamento em Londres. Posteriormente, o documento foi revisado por auxiliares e apresentado a Winston Churchill, além de passar pela análise de autoridades britânicas preocupadas com as repercussões diplomáticas do pronunciamento, já que o governo de Pétain ainda negociava o armistício com a Alemanha.

Essas revisões deram origem a versões ligeiramente diferentes do texto, publicadas posteriormente em jornais, documentos oficiais e memórias dos envolvidos. Ainda assim, os pesquisadores consideram todas elas historicamente relevantes por refletirem diferentes etapas da elaboração da mensagem. A gravação preservada pela BBC, entretanto, corresponde ao pronunciamento efetivamente transmitido ao vivo em 18 de junho de 1940.

Mais de oito décadas depois, o Apelo de 18 de Junho permanece como um dos discursos políticos mais importantes do século XX. Além de simbolizar o nascimento da Resistência Francesa, o pronunciamento consolidou a liderança de Charles de Gaulle e lançou as bases de sua trajetória como principal representante da França Livre durante a Segunda Guerra Mundial e, posteriormente, como presidente da República Francesa.


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