A enigmática fotografia que registrou um dos últimos momentos de Tancredo Neves
Caso da fotografia do presidente que não chegou a governar é abordado no longa 'O Paciente: o caso Tancredo Neves', que chega à Netflix nesta quarta

A morte de Tancredo Neves, pouco antes de assumir o cargo de presidente, em 1985, foi certamente um dos episódios mais chocantes da história da política brasileira. Isto porque, depois de mais de duas décadas de ditadura, ele seria o primeiro chefe do Executivo eleito pelo povo. Ainda hoje, mais de quarenta anos após os fatos, o fim trágico do político segue envolto em teorias. Algumas delas envolvem uma famosa fotografia, tirada nos momentos finais de Tancredo. Agora o caso volta à tona com a chegada ao catálogo da Netflix do filme “O Paciente: O Caso Tancredo Neves“, dirigido por Sérgio Rezende, no próximo dia 15 de julho. O longa resgata os últimos momentos do homem que construiu uma das carreiras políticas mais sólidas do Brasil no século 20.
Ao longo de décadas, Tancredo ocupou cargos como deputado estadual, deputado federal, senador, governador de Minas Gerais e mesmo primeiro-ministro. Além disso, durante a Ditadura Militar foi uma das principais lideranças da oposição ao participar da fundação do Movimento Democrático Brasileiro (MDB), a legenda que reunia os opositores permitidos pelo regime.
O início da redemocratização
A eleição indireta de Tancredo para a Presidência da República, em janeiro de 1985, foi um passo importante para o início da redemocratização brasileira, pois representava a esperança de uma nova fase política para o país depois de 21 anos sob governos militares. Mas essa expectativa foi interrompida antes mesmo da posse, já que o país foi surpreendido pela internação repentina do político.
Entretanto, os problemas de saúde de Tancredo Neves não começaram naquele momento. Na verdade, o político já sofria havia meses com fortes dores abdominais, desde junho do ano anterior, mas, por causa da eleição, optou por manter o quadro em sigilo. Sua grande preocupação era de que uma notícia sobre sua saúde pudesse alimentar resistências dentro das Forças Armadas e, assim, comprometer o delicado processo de transição do regime militar para a democracia.

Na véspera da cerimônia de posse marcada para 15 de março de 1985, Tancredo passou mal e precisou ser internado às pressas. Diagnosticado com um grave problema abdominal, ele foi submetido a uma cirurgia considerada delicada. Mas, em vez da recuperação esperada, seu estado de saúde piorou progressivamente, obrigando-o a enfrentar uma sequência de procedimentos médicos. O país acompanhava cada boletim com ansiedade, enquanto o vice-presidente eleito, José Sarney, assumia interinamente a chefia do governo. Tancredo Neves passou mais de um mês internado. Faleceu em 21 de abril de 1985, sem jamais tomar posse como presidente da República.
Durante todo esse período, a falta de informações claras sobre seu verdadeiro estado de saúde alimentou rumores e teorias. Atônita, a população acompanhava diariamente os comunicados oficiais, mas muitos desconfiavam que a gravidade do quadro estava sendo escondida.
A desconfiança aumentava porque as informações divulgadas mudavam constantemente. Inicialmente, foi informado que Tancredo sofria de apendicite. Depois, os médicos anunciaram a retirada de um divertículo de Meckel. Anos mais tarde, veio à tona que o laudo divulgado não correspondia ao diagnóstico verdadeiro: a peça retirada durante a cirurgia era, na realidade, um tumor benigno — e um dos médicos envolvidos admitiu posteriormente ter autorizado a divulgação de um diagnóstico falso para evitar pânico na população. Contudo, familiares do presidente contestaram essa versão e afirmaram nunca terem sido informados da decisão.
Foi nesse contexto conturbado que surgiu uma das fotografias mais famosas da história recente do Brasil.
Um misterioso registro
Na época, o fotógrafo Gervásio Baptista foi chamado para registrar uma imagem de Tancredo ainda internado. O objetivo, explica o portal Exame, era transmitir confiança e demonstrar que o presidente eleito seguia reagindo ao tratamento. Mas Tancredo aparecia visivelmente abatido na fotografia, praticamente de olhos fechados, e isso resultou em um efeito oposto. No fim, a foto reforçou a impressão de que sua situação era muito mais grave do que os boletins oficiais admitiam. Rapidamente, o registro ganhou destaque na imprensa.

Vale destacar que tudo isso se deu em meio a uma sucessão de boletins excessivamente otimistas, que descreviam uma recuperação gradual. A verdade, porém, era que o estado clínico de Tancredo se agravava continuamente, tanto que o político teve de ser submetido a sucessivas cirurgias. Posteriormente, foi transferido para o Instituto do Coração (InCor), em São Paulo.
No dia seguinte à divulgação da foto, revistas e jornais passaram a questionar a versão divulgada pelo governo. Algumas publicações destacaram que Tancredo estava ligado a sondas e equipamentos médicos durante o registro. Outras chegaram a sugerir que ele sequer teria condições de posar para a fotografia. Foi assim que surgiram rumores de que a imagem teria sido produzida apenas para conter a crescente preocupação entre os eleitores. Em razão dessas especulações, a fotografia acabou se transformando em um icônico registro da crise que antecedeu a morte do presidente eleito.
A fotografia, porém, foi apenas uma das muitas controvérsias que cercaram os últimos dias de Tancredo Neves. Ao longo dos anos, surgiram especulações sobre um suposto atentado, bem como hipóteses de envenenamento. Houve ainda rumores de que sua morte teria ocorrido um dia antes da data oficialmente anunciada, e que o dia 21 teria sido escolhido para que coincidisse simbolicamente com o feriado de Tiradentes. Nada disso jamais foi confirmado.