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Expedição recria naufrágios de Shackleton e Scott em modelos digitais 3D

Cientistas usam tecnologia para preservar virtualmente os destroços das embarcações polares Quest e Terra Nova em expedição no mar do Canadá

Cientistas canadenses exploram os destroços dos navios de exploração polar Quest e Terra Nova durante expedição no Atlântico Norte. Foto: Reprodução/Vídeo/Canadian Geographic

Uma expedição liderada pela Real Sociedade Geográfica Canadense (RCGS) alcançou um marco histórico ao criar “gêmeos digitais” em alta definição dos últimos navios utilizados pelos aclamados exploradores polares britânicos Ernest Shackleton e Robert Falcon Scott. A missão de 21 dias, realizada no Mar do Labrador, ao largo da costa do Canadá, explorou as profundezas para mapear os destroços do Quest e do Terra Nova. Utilizando o famoso submersível Alvin, os cientistas conseguiram registrar detalhes minuciosos das embarcações, garantindo sua preservação virtual antes que o oceano as reclame definitivamente.

Da esquerda para a direita: o Quest, último navio utilizado por Ernest Shackleton, e o Terra Nova, embarcação que levou Robert Falcon Scott à Antártida. Fotos: Domínio Público e Getty Images

Era de ouro tecnológica

A equipe da RCGS utilizou uma tecnologia de imagem subaquática avançada, desenvolvida pela empresa canadense Voyis, para construir modelos tridimensionais detalhados dos destroços. Essa iniciativa foi motivada pela consciência científica de que o Terra Nova e o Quest um dia serão completamente engolidos pelo oceano devido à deterioração natural e às forças da natureza. Conforme detalhado em reportagem do veículo The Guardian, milhares de fotografias de alta resolução foram capturadas e unidas instantaneamente para formar os modelos 3D.

“Estamos vendo esses navios aparecerem magicamente à nossa frente na tela por meio desse processo,” afirmou John Geiger, líder da expedição, ao descrever o impacto visual do mapeamento. Para o pesquisador, o projeto representa uma “era de ouro para a caça e investigação de naufrágios” impulsionada por saltos tecnológicos que permitem enxergar o que antes estava perdido na escuridão do abismo.

Exploradores e seus legados

Os navios recriados digitalmente carregam o peso de grandes tragédias e triunfos da chamada “Era Heroica” da exploração antártica. Ernest Shackleton faleceu de um ataque cardíaco em 1922 a bordo do Quest, enquanto o Terra Nova foi a embarcação que levou Robert Falcon Scott em sua jornada de 1910 para o Polo Sul, onde ele e sua equipe morreram no retorno. O piloto do mergulho ao Terra Nova, Benen ElShakhs, relatou ao The Guardian a sensação de proximidade física com a história: “Se não houvesse um casco de titânio e muita água do mar entre o Alvin e o naufrágio, você sentiria que poderia simplesmente esticar a mão e tocá-lo”.

Inspirando novas gerações

Além da preservação histórica, o objetivo fundamental da expedição é inspirar uma nova geração de exploradores a mapear as vastas áreas desconhecidas dos oceanos. John Geiger destacou que grande parte das águas territoriais, especialmente no Ártico, permanece um mistério absoluto para a ciência. A equipe também aproveitou o mergulho para observar a vida marinha que agora coloniza os cascos e documentar os danos causados por redes de pesca de arrasto que cobrem partes das estruturas.

Embora o futuro da exploração oceânica aponte para o uso crescente de robótica e veículos automatizados, os cientistas defendem que a presença humana direta é insubstituível. Para os membros da RCGS, o papel humano é essencial para manter vivos elementos como a poesia, o romance e o maravilhamento que conectam a sociedade ao passado. Os modelos digitais servem não apenas como registros técnicos, mas como pontes permanentes para histórias que o mar, eventualmente, irá apagar.


*Sob supervisão de Éric Moreira

Meu propósito é dar voz a narrativas.