Mais de 60 anos após afundar, navio de Shackleton é registrado por submersível
Expedição internacional utiliza tecnologia 3D para mapear os destroços do Quest no Mar do Labrador e cria modelo virtual para estudos científicos

Mais de seis décadas após desaparecer nas águas geladas do Mar do Labrador, o Quest, último navio utilizado pelo lendário explorador polar britânico Ernest Shackleton, foi finalmente registrado em imagens inéditas de alta resolução. A operação histórica contou com a participação do submersível tripulado Alvin, o mesmo veículo que se tornou mundialmente famoso por realizar as primeiras visitas aos destroços do Titanic há cerca de 40 anos.
Conforme publicado pela Revista Galileu, a missão utilizou recursos de imagem modernos para detalhar a estrutura que repousa no fundo do mar desde 1962, preservada a 390 metros de profundidade.
Tecnologia reconstrói a história
Para documentar o naufrágio com precisão milimétrica, a equipe utilizou câmeras de vídeo em resolução 5.2K e técnicas de fotogrametria subaquática, que combinam milhares de fotografias para reconstruir o objeto em três dimensões. O cientista-chefe da Instituição Oceanográfica Woods Hole na expedição, Dwight Coleman, explica que o objetivo é criar um “gêmeo digital” do navio para pesquisas e divulgação pública.
Em comunicado oficial divulgado pelo veículo de imprensa, Dwight Coleman afirmou: “Mais do que só usar o Alvin para mostrar o Quest aos olhos humanos pela primeira vez em mais de 60 anos, usaremos a melhor tecnologia de imagem disponível para criar um gêmeo digital do navio”. O especialista destaca que essa modelagem 3D oferece maneiras totalmente novas de explorar naufrágios históricos. Durante os mergulhos, a técnica em imagens Zoe Daheron monitorou cada detalhe capturado pelas lentes a partir de um laboratório no navio de pesquisa Atlantis.

Consequências da ação humana
As imagens revelam que boa parte da estrutura original, como a proa, o convés e as vigias, segue preservada, servindo hoje de abrigo para diversas espécies marinhas. No entanto, a equipe constatou danos provocados pela atividade pesqueira, com grandes redes presas ao casco que dificultam a documentação.
O pesquisador Geiger fez um alerta contundente sobre o estado do sítio arqueológico: “O navio sofreu muitos danos. As redes são uma triste realidade, limitando nossa capacidade de examinar os destroços. Acho que precisamos assumir a responsabilidade pelo que estamos fazendo com nossos oceanos; esse é um problema enorme”.
O piloto do submersível Alvin, Bruce Strickrott, reforça que operar em ambientes tão hostis exige extrema habilidade técnica. De acordo com Bruce, o sucesso da missão é resultado direto de um grupo de profissionais de mergulho em grandes profundidades com vasta experiência em ambientes complexos.
Legado da era heróica
O Quest é uma peça fundamental da história polar por ter sido o cenário da morte de Ernest Shackleton em 1922. O explorador é amplamente admirado por ter liderado a sobrevivência de sua tripulação após o naufrágio do Endurance em 1915. Após a morte de seu líder, o Quest atuou na caça às focas no Ártico antes de ser esmagado por blocos de gelo em 1962.
Para o especialista-chefe da missão, Mark Pathy, o registro dessas imagens deve servir como fonte de inspiração:“Espero que isso inspire as pessoas a explorar o planeta e a entender que existem maravilhas ainda por descobrir e vivenciar por aí. Nosso planeta é realmente um lugar mágico”, afirmou Mark. Agora, a expedição segue para a Groenlândia para investigar o Terra Nova, navio de Robert Falcon Scott, outro ícone que morreu em 1912 após ser superado pelo norueguês Roald Amundsen na corrida ao Polo Sul.
*Sob supervisão de Éric Moreira