Nova pesquisa revela como a varíola chegou à Austrália colonial no século 18
Estudos indicam que britânicos levaram a varíola em 1788 à Austrália colonial, e que impacto foi mais devastador do que se estimava sobre a população aborígene

A varíola provocou uma das maiores tragédias demográficas da história da Austrália logo após a chegada dos colonizadores britânicos, no fim do século 18. Embora a doença tenha dizimado comunidades aborígenes, historiadores ainda discutiam de que forma ela alcançou o continente e qual teria sido a real dimensão de seu impacto.
Dois novos estudos, conduzidos pelos mesmos pesquisadores, apresentam evidências que reforçam a hipótese de que o vírus foi levado pelos britânicos da Primeira Frota e indicam que o número de vítimas pode ter sido muito superior às estimativas anteriores.
Os trabalhos, publicados inicialmente como pré-prints — um deles já aceito para publicação em periódico científico — analisaram registros históricos, estimativas populacionais, rotas de migração e modelos computacionais para reavaliar um dos episódios mais controversos da colonização australiana.
Surto de varíola
A primeira pesquisa concentrou-se na origem do surto de varíola. Até então, duas hipóteses predominavam entre os historiadores: a de que a doença teria chegado com a Primeira Frota, formada por 11 navios britânicos que estabeleceram uma colônia penal em Sydney em janeiro de 1788, ou a de que teria sido introduzida por pescadores indonésios que frequentavam o norte da Austrália.
Segundo os pesquisadores, as simulações descartam a segunda possibilidade e apontam que o vírus chegou efetivamente com os colonizadores britânicos.
A principal dúvida, porém, sempre foi como a varíola teria sobrevivido durante a longa travessia marítima até a Austrália. A viagem durou vários meses, tempo suficiente para que pessoas infectadas morressem ou desenvolvessem imunidade. Além disso, os registros históricos da expedição não mencionam surtos da doença a bordo.
Para explicar esse aparente paradoxo, os pesquisadores propõem que o vírus tenha permanecido ativo em crostas de varíola transportadas pelos médicos da expedição. Antes do desenvolvimento da primeira vacina, em 1796, médicos utilizavam esse material para realizar a chamada inoculação: retiravam crostas de pessoas em recuperação, reduziam-nas a pó e aplicavam o material contaminado em pequenos cortes feitos na pele de pacientes saudáveis.
“Embora os navios da Marinha Real Britânica não transportassem rotineiramente material contaminado com varíola, é provável que pelo menos um dos cirurgiões o tenha trazido consigo ou o tenha adquirido durante a viagem no Rio de Janeiro ou na Cidade do Cabo”, escrevem os pesquisadores.
A hipótese também reacende um debate histórico sobre a possibilidade de disseminação deliberada da doença entre os povos indígenas, semelhante ao que ocorreu em alguns episódios da colonização da América do Norte.
Os autores afirmam que não encontraram registros formais indicando uma ação intencional dos colonizadores. Segundo eles, caso tenha existido algum plano desse tipo, dificilmente teria partido de Arthur Phillip, comandante da Primeira Frota e primeiro governador da colônia, descrito como alguém que buscava estabelecer relações amistosas com os grupos indígenas locais.
Ainda assim, os pesquisadores ressaltam que o estudo não permite descartar completamente essa possibilidade. No entanto, os pesquisadores também reconhecem que seu modelo “não pode fornecer nenhuma evidência direta da intenção dos colonizadores durante esse período”.
Devastação de nativos
A segunda pesquisa aborda outra questão histórica: o tamanho da população aborígine antes da colonização europeia.
Durante décadas, estimativas apontavam que a Austrália abrigava entre 200 mil e 800 mil habitantes indígenas antes da chegada dos britânicos. A nova análise, baseada em evidências arqueológicas e modelos demográficos, sugere que esse número era muito maior, situando-se entre dois e três milhões de pessoas.
“Havia uma suposição de que as populações aborígenes eram bastante pequenas e que suas atividades eram efêmeras e transitórias”, afirmou o arqueólogo Alan Williams, coautor dos dois estudos.
Caso essa estimativa esteja correta, as consequências da colonização e da disseminação da varíola teriam sido muito mais devastadoras do que se imaginava.
“Estimamos que uma média de 2,4 milhões de pessoas adicionais podem ter morrido direta ou indiretamente por doenças, devido a impactos sociais mais amplos, e/ou foram mortas em atos de violência na fronteira no início e meados do século 19”, escrevem os pesquisadores no artigo. “Tais mudanças teriam sido catastróficas para os povos indígenas, seus costumes tradicionais e modos de vida.”
Os estudos também recuperam um dos relatos mais conhecidos sobre o impacto imediato da epidemia. Segundo o Museu Nacional da Austrália, o funcionário colonial David Collins registrou, em abril de 1789, o momento em que um homem aborígine retornou à sua comunidade após o avanço da doença.
“Ao levá-lo ao porto para procurar seus antigos companheiros, aqueles que testemunharam sua expressão e agonia jamais poderão esquecê-la. […] Não havia uma única pessoa viva em lugar nenhum. Parecia que, fugindo da doença, haviam deixado os mortos para enterrar os mortos. Ele ergueu as mãos e os olhos em silenciosa agonia por algum tempo; por fim, exclamou: ‘Todos mortos! Todos mortos!’ E então baixou a cabeça em silêncio pesaroso.”
Atualmente, a população aborígine australiana permanece muito inferior à existente antes da chegada da Primeira Frota. Para os autores, esse contexto histórico deve ser levado em consideração nas políticas públicas e nas discussões sobre reparação histórica.
“É nesse contexto que a reconciliação, o engajamento e a formulação de políticas futuras com os povos indígenas devem ser priorizados”, concluem os pesquisadores.