Estudo diz que barcos e turistas atrapalham comunicação entre peixes
Poluição sonora de banhistas e dos motores de barcos nas praias e oceanos atrapalha a comunicação entre peixes, argumentam especialistas brasileiros

Um estudo publicado nesta segunda-feira, 20 de julho, na revista Neotropical Ichthyology revelou que o ruído de motores de embarcações e de banhistas pode afetar diretamente a comunicação entre peixes e as relações ecológicas.
Entre os impactos está a queda na alimentação, reprodução, defesa de território e até manutenção dos ambientes. O estudo realizado por pesquisadores da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) mostrou que há uma “redução clara na ocorrência dos sons produzidos pelos peixes”, diz Túlio Freire Xavier, coautor do estudo.
Acontece que muitos peixes que moram em zonas de corais utilizam de pequenos sons para poderem encontrar parceiros, defender seu território e até mesmo para se alimentarem. Se esses processos forem afetados, todo o recife pode ser atingido. O professor adiciona:
Isso pode acontecer porque os sons ficam mascarados pelo barulho das embarcações, tornando-se mais difíceis de detectar, ou porque alguns peixes realmente reduzem ou alteram sua produção sonora em resposta ao ruído”.
A comunicação entre peixes em áreas turísticas
De acordo com a Agência Brasil, o estudo monitorou ruídos produzidos pela atividade humana, como de motores de embarcações, de parapentes e da própria movimentação de banhistas no mar nas praias de Carneiros, na Área de Proteção Ambiental (APA) de Guadalupe; e Tamandaré, na APA Costa dos Corais.
Duas praias populares para visitantes em períodos diferentes do ano, mas que possuem estruturas de recifes, que servem como barreiras para o som. De qualquer modo, os pesquisadores instalaram pontos de monitoramento que capturaram cerca de 80 horas de dados acústicos cada. Assim, registraram a comunicação entre peixes durante a alta temporada, entre janeiro e fevereiro de 2022, e em abril, quando há baixa das visitações, de 2023. Dessa maneira, descobriram que, dos 9 tipos de sons, 3 deixaram de ser produzidos durante a presença de pessoas e motores.
Nesse sentido, o “mascaramento acústico” pode levar à supressão de comportamentos ricos ao convívio e desenvolvimento de diversas espécies. Possivelmente, afetando toda a cadeia alimentar e a manutenção dos corais ao longo do tempo.
Embora existam leis de preservação para zonas de recifes de corais, a poluição sonora ainda é muito pouco comentada e trabalhada. Túlio Xavier destaca que “O ruído subaquático é uma forma de poluição que normalmente passa despercebida”, e que pode ser facilmente diminuída.
A simples reorganização de rotas e redução da velocidade de embarcações sobre as zonas de conservação já seria o suficiente para diminuir os impactos humanos.
Proteger a paisagem sonora significa também ajudar a preservar o funcionamento ecológico desses ecossistemas e os benefícios que eles oferecem à sociedade.”
*Sob supervisão de Giovanna Gomes