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Há 7 mil anos, humanos já introduziam peixes em lagos

Estruturas encontradas no leito de um lago indicam que povos mesolíticos transportavam peixes para regiões onde a espécie não existia

Armadilhas peixes
Local onde foram encontradas as armadilhas de peixes - Mjærum et al., Antiquity (2026)

A descoberta de quatro armadilhas de pesca de madeira no lago Tesse, no sul da Noruega, está mudando a compreensão sobre a relação entre os primeiros habitantes da Escandinávia e o meio ambiente. Datadas de cerca de 5000 a.C., as estruturas indicam que comunidades do Mesolítico transportavam trutas para lagos de montanha onde o peixe jamais chegaria naturalmente, modificando ecossistemas milhares de anos antes da introdução da agricultura na região.

O lago Tesse está localizado em uma área montanhosa do interior do país. Após o recuo da camada de gelo da Fenoescândia, por volta de 8000 a.C., grupos humanos passaram a ocupar essas terras. No entanto, barreiras naturais, como cachoeiras e rios íngremes, impediram que trutas-marrons alcançassem diversos lagos de altitude, que permaneceram sem populações de peixes.

Há mais de um século, pesquisadores suspeitavam que a presença de trutas nesses ambientes fosse resultado da ação humana. Faltavam, porém, evidências capazes de determinar quando isso teria ocorrido. As armadilhas encontradas no leito exposto do lago ajudaram a preencher essa lacuna.

A datação por radiocarbono revelou que a mais antiga das estruturas foi construída por volta de 5000 a.C. Como as trutas não poderiam alcançar o lago por meios naturais, os pesquisadores concluíram que elas já haviam sido introduzidas pelos próprios habitantes antes da construção das armadilhas. Isso estabelece uma ligação direta entre o transporte deliberado dos peixes e sua posterior captura.

Segundo o estudo, a truta-marron representava uma fonte valiosa de alimento por crescer até grandes dimensões, fornecer elevado valor calórico e ser relativamente fácil de capturar. Ao povoarem lagos vazios com esses peixes, os grupos mesolíticos criavam novos locais de pesca próximos de acampamentos e rotas de deslocamento, garantindo estoques mais previsíveis de alimento.

A prática chama atenção por anteceder em séculos a chegada da agricultura à Escandinávia. Na época, essas populações sobreviviam da caça, da pesca e da coleta de plantas silvestres. Ainda assim, demonstravam capacidade de planejar intervenções ambientais para tornar o abastecimento alimentar mais confiável. O transporte de peixes vivos por terrenos montanhosos exigia organização, tempo e esforço, evidenciando uma estratégia deliberada de manejo dos recursos naturais.

Os efeitos dessa iniciativa perduraram por milênios. As trutas introduzidas durante o Mesolítico continuaram se reproduzindo ao longo das gerações, e os peixes capturados atualmente no lago Tesse descendem dessas primeiras populações. Além disso, a excepcional preservação das armadilhas de madeira — um material que raramente sobrevive por tanto tempo — oferece uma das evidências físicas mais sólidas de que caçadores-coletores já eram capazes de transformar a paisagem muito antes da expansão da agricultura pelo norte da Europa.

Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero e nerd desde o berço, sou dono de uma mente inquieta que sempre tem mais perguntas que respostas. Vez ou outra, você pode ler textos meus sobre curiosidades históricas, música, ciência e cultura pop.