Notícias / Arqueologia

Ferramentas revelam vida cotidiana de caçadores na Morávia

Descoberta na Morávia revela kit de ferramentas de caçador pré-histórico, oferecendo um vislumbre único da vida na Idade da Pedra

Kit de ferramentas de caçador-coletor - Divulgação/Dr. Martin Novák

Na região das colinas do sul da Morávia, na República Tcheca, uma equipe de arqueólogos fez uma descoberta significativa que lança luz sobre a vida cotidiana de caçadores pré-históricos que viveram há cerca de 30.000 anos. Em meio aos vestígios dispersos do passado, como ossos de animais e pontas de lanças quebradas, eles encontraram um conjunto íntimo de ferramentas que pertenceram a um caçador da Idade da Pedra.

A coleção, composta por 29 lâminas e pontas meticulosamente organizadas, sugere que essas ferramentas foram uma vez armazenadas em um recipiente feito de couro ou pele. Embora o saco original tenha se deteriorado ao longo do tempo, as ferramentas permaneceram intactas até que uma queda de terra em 2009 expôs antigas cavernas sob a vila de Milovice.

Visão rara

Os pesquisadores, liderados por Dominik Chlachula, publicaram suas descobertas na revista Journal of Paleolithic Archaeology, afirmando que “esse conjunto parece representar um kit pessoal que foi perdido ou descartado”. Ao contrário da maioria das descobertas paleolíticas, que são frequentemente uma confusão de camadas ocupacionais misturadas ao longo dos séculos, este contexto se revelou excepcionalmente claro. O carvão datado daquela camada específica indica uma faixa temporal entre 29.550 e 30.250 anos atrás, enquanto os restos de um fogo, junto a ossos de cavalo e rena e o kit organizado, sugerem uma cena de acampamento preservada por acidente geológico.

Essa descoberta fornece uma visão detalhada sobre a vida diária de um caçador-coletor gravetense, parte de uma cultura humana que prosperou na Europa durante a Idade do Gelo entre 33.000 e 22.000 anos atrás.

Embora o kit não estivesse em perfeitas condições, muitas lâminas apresentavam desgaste significativo, resultado do uso em atividades como cortar peles e raspar madeira. Algumas mostravam vestígios microscópicos de impacto, indicando seu uso como projéteis. Entretanto, alguns itens mantinham o polimento característico deixado pelo processo de fixação nas hastes de madeira.

Seis artefatos apresentavam fraturas que “são comumente interpretadas como diagnósticas do uso em projéteis”, segundo o estudo, sugerindo que eram pontas de lanças ou flechas. Outros objetos funcionavam como facas multifuncionais ou raspadores.

A reutilização era uma prática comum para o proprietário do kit. Vários fragmentos eram lascas obtidas a partir de ferramentas maiores, reaproveitadas para novos usos. Um pedaço especialmente pequeno exibia polimento relacionado ao trabalho com peles, demonstrando que até mesmo pequenos fragmentos podiam ser úteis.

Os autores argumentam que o kit “apoia a interpretação… como parte do equipamento pessoal utilizado durante expedições de caça ou migrações em áreas onde os materiais brutos eram escassos”.

Materiais

O material das ferramentas é valioso para entender as interações sociais e geográficas da época. Aproximadamente dois terços das lâminas foram feitas a partir de seixos de sílex encontrados em depósitos glaciares a pelo menos 130 quilômetros ao norte. Outros provieram de radiolaritas localizadas no oeste da Eslováquia, a 100 quilômetros ao sudeste. Um dos itens era feito de opala proveniente de até 135 quilômetros de distância.

Como um caçador na Morávia conseguiu tal diversidade geológica? Uma possibilidade é o deslocamento direto para essas regiões. No entanto, uma explicação mais plausível envolve comércio ou troca com outros grupos humanos. De qualquer forma, o kit reflete uma rede social e geográfica que se estendia por toda a Europa Central.

Segundo a ‘Archaeology Magazine’, a presença dos fragmentos quebrados pode ser explicada pela necessidade prática; em expedições por paisagens com poucos recursos materiais, até mesmo pequenos pedaços podiam ser transformados em ferramentas funcionais. Durante períodos escassos, cada lâmina utilizável contava. Outra hipótese levantada é que esses fragmentos podiam ter valor sentimental para o caçador.