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Enterros de mulheres e crianças da Idade da Pedra desafiam estereótipos de gênero

Enterro em sítio funerário da Idade da Pedra no norte da Letônia revela mulheres e crianças enterradas com ferramentas, desafiando os estereótipos de gênero

Reconstrução dos sepultamentos coletivos 263, 264 e 264a / Crédito: Divulgação/Plos One/A. Petrović et al.

Uma investigação recente no cemitério de Zvejnieki, localizado no norte da Letônia, um dos mais significativos locais de sepultamento da Idade da Pedra na Europa, trouxe à luz informações surpreendentes sobre o uso de ferramentas de pedra durante os rituais funerários. A pesquisa, parte do projeto Stone Dead, coordenada pela Dra. Aimée Little da Universidade de York, desmistificou a crença anterior de que tais ferramentas eram predominantemente associadas a homens, demonstrando que elas também eram frequentemente enterradas com mulheres, crianças e idosos.

O cemitério de Zvejnieki, que esteve ativo por mais de 5.000 anos, abriga mais de 330 sepulturas com um total superior a 350 indivíduos. Estudos anteriores focaram principalmente nos restos esqueléticos ou em objetos funerários, como pendentes feitos de dentes de animais, enquanto as ferramentas líticas – geralmente vistas como utilitárias – não haviam sido objeto de análise detalhada até agora.

Através de uma abordagem multiproxy que considerou dados geológicos, tecnológicos, funcionais, espaciais e deposicionais, os pesquisadores conseguiram rastrear o processo de confecção, utilização e até mesmo a quebra intencional das ferramentas como parte dos rituais funerários.

A análise indicou que algumas ferramentas líticas foram utilizadas na preparação de peles de animais; entretanto, outras parecem ter sido criadas especificamente para serem depositadas nas sepulturas, muitas vezes quebradas antes do enterro.

Desmistificando papéis de gênero

As crianças foram identificadas como os principais destinatários desses objetos líticos funerários, sugerindo que as ferramentas tinham um significado simbólico além da mera utilidade prática. Mulheres também foram frequentemente enterradas com essas ferramentas, desafiando as concepções anteriores sobre os papéis de gênero nas sociedades pré-históricas e a ideia de que as mulheres estivessem predominantemente envolvidas em atividades domésticas.

A Dra. Little disse em comunicado: “Esta pesquisa derruba o antigo estereótipo do ‘Homem Caçador’, que tem sido um tema dominante nos estudos da Idade da Pedra e até influenciou, em algumas ocasiões, a maneira como alguns bebês eram sexados, com base no fato de terem recebido ferramentas líticas.”

O estudo, publicado na Plos One, também enfatiza a relevância da rigorosidade metodológica nas investigações arqueológicas. Por meio do exame detalhado dos conjuntos líticos juntamente com dados funerários, os cientistas podem avançar na compreensão do significado simbólico e prático desses artefatos.

Os pesquisadores sugerem que estudos futuros devem se concentrar em comparações entre as ferramentas dos cemitérios e artefatos de assentamentos modernos, além de integrar dados líticos com outras categorias de bens funerários para construir um entendimento mais abrangente das práticas mortuárias na Idade da Pedra.

Essas descobertas revelam que as ferramentas de pedra estavam longe de ser meramente utilitárias – elas eram elementos centrais nos rituais e homenagens relacionados à morte.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.