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Irlanda do Norte: a resistência ao esforço militar dos Aliados

Mesmo atingida pelos bombardeios da Luftwaffe e transformada em polo industrial, a Irlanda do Norte não aceitou o recrutamento obrigatório

Irlanda do Norte Segunda Guerra capa
Soldados afro-americanos em agrupamento militar na Irlanda do Norte (1941) - Getty Images

A Segunda Guerra Mundial encontrou a Irlanda do Norte dividida não apenas pelas ameaças externas, mas também por um profundo conflito político interno. Embora integrasse o Reino Unido, a região jamais adotou o recrutamento militar obrigatório exigido pelo governo britânico. A resistência refletia uma antiga oposição ao domínio de Londres, liderada principalmente por setores nacionalistas e republicanos, entre eles o Exército Republicano Irlandês (IRA), que já havia combatido medidas semelhantes durante a Primeira Guerra Mundial.

A rejeição ao alistamento estava ligada ao fato de que uma parcela significativa da população não se identificava com o Reino Unido e, por consequência, não via motivos para lutar em seu nome. Na tentativa de estimular o voluntariado, o governo britânico concedeu um benefício incomum: durante o conflito, os norte-irlandeses foram dispensados do pagamento de impostos. Apesar da recepção positiva da medida, ela não produziu o resultado esperado e o recrutamento continuou sendo amplamente rejeitado.

A relação conturbada entre Belfast e Londres também afetou os preparativos defensivos da região. O governo britânico informou que as obras de proteção deveriam ser custeadas pelo próprio governo norte-irlandês, e não pelo Tesouro britânico. Sem recursos suficientes, diversos projetos foram interrompidos, deixando o território vulnerável caso fosse atacado.

A situação da Irlanda do Norte

Às vésperas da guerra, a infraestrutura de defesa era precária. O número de holofotes e sinalizações noturnas era insuficiente, existiam apenas 25 armas antiaéreas para todo o território, dois balões de barragem e menos de 15% das residências possuíam abrigos adequados contra bombardeios. Para uma população próxima de dois milhões de habitantes, havia somente quatro abrigos privados, todos localizados em Belfast, sem qualquer estrutura pública semelhante.

A confiança das autoridades locais de que a Irlanda do Norte não seria alvo de ataques alemães contribuiu para esse cenário. A própria população compartilhou dessa percepção durante boa parte do conflito, mesmo após o avanço das tropas nazistas pela Europa Ocidental. Apenas depois da queda da França, em 1940, o governo regional passou a rever sua estratégia.

Com recursos de aproximadamente seis milhões de libras enviados por Londres, foram construídos abrigos públicos e ampliadas as estruturas de defesa. Os investimentos também impulsionaram a economia, principalmente por meio da construção de instalações militares e fábricas, reduzindo significativamente o desemprego na região.

Apesar desse avanço, a indústria norte-irlandesa enfrentava dificuldades para acompanhar o ritmo da produção britânica. A fabricação de aeronaves era consideravelmente mais lenta que na Inglaterra, enquanto paralisações organizadas por trabalhadores republicanos, nem sempre ligados ao IRA, provocavam atrasos frequentes e irritavam o governo de Winston Churchill.

Nos estaleiros, porém, a situação era diferente. A Harland and Wolff, em Belfast — conhecida mundialmente por ter construído o RMS Titanic três décadas antes — tornou-se um dos principais centros navais do esforço de guerra britânico. Entre 1939 e 1945, produziu 140 navios militares, 123 embarcações mercantes e ainda realizou reparos em diversos navios danificados por submarinos alemães.

À medida que a ameaça se tornava mais concreta, a produção industrial cresceu rapidamente. A Irlanda do Norte fabricou centenas de tanques, milhões de componentes para aeronaves militares, hidroaviões Sunderland, peças de artilharia, além de milhões de camisas de linho para soldados e cerca de dois milhões de paraquedas. Embora permanecesse abaixo da média britânica em velocidade de produção, a contribuição industrial tornou-se relevante para o esforço aliado.

O ponto de virada

A mudança de postura foi impulsionada pelos próprios ataques alemães. Em outubro de 1939, bombas lançadas pela Luftwaffe atingiram uma base aérea em Belfast. O episódio foi relativamente limitado, mas serviu como um alerta. Em março de 1941, novos bombardeios provocaram danos leves à capital.

O momento mais dramático ocorreu nas noites de 15 e 16 de abril de 1941, durante a chamada Belfast Blitz. Cerca de mil bombas incendiárias e explosivas devastaram a cidade, destruindo ou danificando aproximadamente 56 mil edifícios. O saldo foi devastador: cerca de 1.100 mortos, 2.500 feridos e mais de 100 mil pessoas ficaram desabrigadas. Nas semanas seguintes, outras cidades, como Londonderry (Derry) e Bangor, também sofreram ataques aéreos.

Depois desses episódios, a produção agrícola e industrial acelerou ainda mais. A área destinada ao cultivo aumentou, a colheita de linho foi multiplicada, a produção de ovos passou a atender parte importante da demanda britânica e as exportações de carne cresceram. O setor agropecuário também abasteceu tropas estacionadas na Escócia e contribuiu para elevar a arrecadação da região durante o restante da guerra.

Mesmo diante desse envolvimento econômico e industrial, uma posição permaneceu inalterada: o recrutamento obrigatório nunca foi implantado. Lideranças nacionalistas argumentavam que a medida representava uma forma de opressão política. A resistência também era apoiada por importantes autoridades religiosas católicas, que consideravam o serviço militar compulsório moralmente injustificável.

O governo britânico jamais descartou a possibilidade de que parte dessa oposição estivesse ligada à histórica simpatia de alguns setores nacionalistas pela Alemanha, consequência do apoio alemão ao Levante da Páscoa de 1916. Ainda assim, a guerra terminou sem alterar a postura norte-irlandesa em relação ao recrutamento, consolidando um capítulo singular da participação da região no maior conflito do século XX.


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