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Segunda Guerra: O ‘suplente’ de Churchill não era britânico?

De gênio da Teoria da Relatividade a arquiteto da RAF, Jan Smuts foi o único estadista a assinar os tratados de paz das duas Grandes Guerras

Jan Smuts e Winston Churchill - Getty Images

Tal engajamento sul-africano na Segunda Guerra Mundial tem muito a ver com o filósofo e Marechal de Campo do Império Britânico, Jan Smuts, o único general não britânico no qual o primeiro-ministro do Reino Unido, Winston Churchill, confiava e consultava permanentemente. O também duas vezes primeiro-ministro de sua pátria, Smuts é um dos nomes mais importantes do conflito bélico global e figura-chave dos Aliados, funcionando como convidado do Gabinete de Guerra Imperial em 1939.

Segundo seu biógrafo Roots Waverley, como hábil político, líder militar e estadista sul-africano – país que ajudou a fundar junto a Louis Botha – ele foi mais influente na inglesa Commonwealth do que a maioria dos próprios políticos britânicos. Talvez, por isso, resultasse uma peça importante na criação da prestigiosa Força Aérea Real (RAF) do Reino Unido, moldando a defesa aérea que seria vital anos depois.

Sua visão estratégica não se limitava apenas ao campo de batalha, mas também à geopolítica de longo prazo. Jan Smuts via o Império como uma rede de cooperação essencial para a preservação da civilização ocidental frente à ameaça nazista. Ele acreditava que a África do Sul não poderia se manter neutra diante da agressividade alemã, enfrentando uma oposição interna feroz para garantir que seu país marchasse ao lado da Grã-Bretanha.

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Respeito e intelecto

Como cérebro dos bôeres sul-africanos, Smuts havia ganhado o respeito dos europeus, especialmente do inglês Churchill. Em plano aprovado pelo rei George VI, Smuts assumiria como primeiro-ministro do Reino Unido se Churchill morresse ou ficasse incapacitado durante a guerra.

Essa confiança era baseada em uma admiração mútua que transcendia a política oficial. De mente brilhante, Albert Einstein falou que Smuts era “um dos apenas onze homens no mundo” que, conceitualmente, entenderam sua Teoria da Relatividade. Smuts – era autista na infância – aprovou o apartheid, mas nunca concordou com sua perversidade.

Essa dualidade intelectual o tornava um conselheiro versátil, capaz de discutir desde táticas de infantaria até conceitos abstratos de física e botânica. Sua habilidade em sintetizar problemas complexos em soluções práticas o transformou em um oráculo para os líderes aliados. Enquanto muitos generais se perdiam na burocracia do conflito, Smuts mantinha o foco no objetivo macroscópico, equilibrando o pragmatismo militar com uma profunda erudição filosófica.

Estrategista do Holismo

Durante a Primeira Guerra Mundial, ele liderou tropas sul-africanas ao lado dos britânicos contra o império germânico, capturando o Sudoeste Africano Alemão (Namíbia) e comandando regimentos na África Oriental.

Condecorado com as ordens de Mérito e dos Companheiros de Honra, distinguido como Conselheiro do Rei e membro da Sociedade Real, foi um grande estrategista bélico, ajudado nessa tarefa por seus conhecimentos do “holismo”, no qual tinha se especializado. O conceito de que o “todo é maior que a soma das partes” servia de base para suas decisões no campo de batalha e na diplomacia.

Sua aplicação do holismo na guerra significava integrar recursos econômicos, militares e morais em uma força única e coesa. Smuts argumentava que a vitória não dependia apenas de canhões, mas da integração de todas as facetas da sociedade em prol de um propósito comum.

Ele via o mundo como um organismo vivo em constante evolução para formas mais complexas de organização, o que o levava a defender a criação de blocos internacionais de cooperação para evitar futuros colapsos da ordem mundial.

Exclusividade universal única

E só ele e ninguém mais foi signatário dos tratados que encerraram ambas as Guerras Mundiais, a Primeira e a Segunda; essa é a sua distinguida “exclusividade universal”. Além de ter assinado o Tratado de Versalhes, ele foi um dos arquitetos fundamentais da Liga das Nações e, posteriormente, ajudou a redigir o preâmbulo da Carta das Nações Unidas.

Smuts buscou, através desses documentos, estabelecer uma ética global que pudesse mediar os interesses das grandes potências, sempre com um olhar atento à posição da África do Sul no novo cenário internacional.

Seu legado é o de um homem que habitou múltiplos mundos: o deserto africano, os corredores de Londres e os gabinetes de ciência. Mesmo com as contradições morais de sua política interna, o impacto de Jan Smuts na estrutura do mundo moderno é inegável.

Ele foi, simultaneamente, o guerreiro das savanas e o filósofo da paz, marcando seu nome na história como o elo insubstituível que uniu o destino de seu continente ao triunfo dos Aliados no maior conflito da humanidade.


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