Matérias / Segunda Guerra

Na Segunda Guerra, Natal (RN) se tornou a “Nova York” do Nordeste

Conheça a era em que o dólar ditava o ritmo da cidade, trazendo modernidades, astros de cinema e mudando os costumes da sociedade potiguar

Soldados norte-americanos em Natal durante a Segunda Guerra Mundial - Crédito: Getty Images

Enquanto os brasileiros da FEB iam para a guerra, já fazia dois anos que – segundo os meses e as exigências dos momentos beligerantes – entre 10 mil e quase 30 mil soldados norte-americanos se “assentaram de passagem” em Natal, cidade que na época tinha 55 mil moradores (ao fim da guerra, sua população tinha aumentado cerca de 88% – 38.237 habitantes –, beirando os 100 mil; pois a presença dos americanos “endinheirados” atraiu, entre outros, muitas meretrizes e comerciantes que queriam vender qualquer coisa para eles).

Pela primeira vez, havia tantos comerciantes quanto funcionários públicos, a casta predominante em quase todo o Nordeste. Nesse período, nenhuma outra cidade brasileira e, talvez, no mundo, cresceu tanto, proporcionalmente, quanto Natal.

++ Durante a 2ª Guerra existiram 42 mil campos de concentração — inclusive no Brasil

Progresso e modernidade

Os ianques não deixaram apenas as fantásticas obras das bases aéreas e seus hangares desenvolvidos pela então incipientemente exitosa companhia aérea Pan Am, hoje desaparecida, mediante sua subsidiária Airport Development Program.

Deixaram muito mais do que isso e do que a nova Estação Central de comunicações, da Rua 13 de Maio, de discagem direta, sem necessidade do enlace manual de uma telefonista, inaugurada com 500 aparelhos fixos e administrada pela Companhia Força e Luz Nordeste do Brasil.

Em quase todos os aspectos, Natal levou vantagem comparativa em relação a qualquer cidade nordestina e à maioria do Brasil, graças às “consequências positivas da negativa guerra” e às heranças da presença americana.

Os gringos animaram a região de um modo tão insólito que não refletia o mundo de perseguições e mortes que havia “do outro lado do oceano”; aqui tinha cara de festa. Porém, deve-se entender que o clima festivo em Natal se dividia em dois segmentos: o da sociedade alfabetizada (20% em 1940) e o da população analfabeta (80%).

Assim era a capital do Rio Grande do Norte quando começou a guerra e assim era quase todo o Nordeste. Enquanto a maioria não se inteirava de nada além dos falecimentos em seu bairro, a alta sociedade lia pelo menos um dos três jornais existentes na cidade, todos de cunho político: o tradicionalíssimo A República, o mais novo A Ordem e aquele que nasceu precisamente para contar a guerra, O Diário, propriedade do fundador da revista A Cigarra, a primeira a tratar de “assuntos de sociedade”.

Status e entretenimento

Comprar um aparelho radiofônico era algo fora do pensamento dos pobres, que nem sequer podiam escutar rádio antes da guerra, pois a primeira emissora do Estado do Rio Grande do Norte acabara de ser fundada, em 1941, graças à base americana e ao conflito armado: foi a REN, Rádio Educadora de Natal.

Momento no qual a Casa Comercial Carlos Lemos começou a vender aparelhos RCA Victor e vitrolas. Ter um “aparato de rádio” dava status, e ter uma vitrola consagrava o dono com o título de “bacana da praça”.

O povo reunia-se em locais públicos ao som dos recém-instalados alto-falantes, quase a toda hora conectados à BBC de Londres; esses lugares serviam de ponto de encontro, como eram os casos da Sorveteria do Centro e também da Praça Pedro Velho.

Soldados norte-americanos em Natal durante a Segunda Guerra Mundial – Crédito: Getty Images

A base de Parnamirim Field, como a batizaram os norte-americanos, representava a sofisticação para os ricos e o inalcançável para os desfavorecidos. Nela se imprimia o jornal Foreign Ferry News, em idioma inglês, distribuído entre os militares e de grande atrativo na sociedade potiguar.

Para os soldados também existia a WSMS, a estação de rádio própria da base. Na cidade, abriram-se salas de cinema que estavam sempre lotadas, exibindo filmes de Hollywood, pela primeira vez com dublagem em português.

Artistas famosos visitavam as tropas mensalmente e passeavam pelas ruas como poderiam fazê-lo na Rodeo Drive. Bette Davis, Tyrone Power, Al Jolson, Jack Benny, Humphrey Bogart, Carole Landis, Ann Lee, Marlene Dietrich, Martha Raye, Kay Francis, Larry Adler, Winnie Shaw, Nelson Eddy e Bruce Cabot: todos eles estiveram lá.

Hollywood em Natal

A propósito dessas ilustres visitas, conta a lenda que Bette Davis andou pelas ruas de Natal usando calça comprida, algo insólito para o universo machista tupiniquim. No segundo dia, outras mulheres da cidade também saíram de calça comprida.

Natal foi a “Ilha de Caras” antecipada em meio século. Tyrone Power era piloto e chegou à base comandando o avião que a companhia 20th Century Fox lhe emprestou por um ano.

Por esses dias, não faltaram festas onde tocaram orquestras ianques famosíssimas, como as de Glenn Miller e Tommy Dorsey – também atuaram as populares bandas brasileiras Icaraí, do Rio de Janeiro, e Os Artistas do Cassino da Urca, também carioca.

Todos eles se apresentavam no teatro ao ar livre Trampolim da Vitória e no Cine Drive-In da base, além de atuarem na cidade, ora no Teatro Carlos Gomes, ora nos cinemas Rio Grande e Rex.

Soldados norte-americanos em Natal durante a Segunda Guerra Mundial – Crédito: Getty Images

Diariamente, milhares de soldados frequentavam os bares do Grande Ponto, na Rua João Pessoa. Ali andavam eles, percorrendo o Café da Cidade Alta ou o Cova de Onça, na Ribeira.

A Confeitaria Delícia, dos mesmos donos do Grande Hotel, foi um sucesso, concentrando em suas mesas a intelectualidade local. Sem falar nos visitadíssimos cabarés, entre os quais se sobressaía o de Maria Boa, sempre lotado até as 21h, hora na qual os soldados rasos regressavam à base.

A dona da boate, a charmosa Maria Oliveira de Barros, oriunda de Campina Grande, definia seu lupanar como “casa de luxo”. Era o espaço mais chique de todos, onde se congregavam os natalenses poderosos e os “coronéis” da política.

Noites de luxo

Impossível esquecer a Pensão Ideal, o Bar Quitandinha do Alecrim, o Arpege, o Beco da Quarentena e o Wonder Bar. Os que não tinham acesso ao lupanar de Maria Boa “namoravam” na região da Ribeira ou, então, no bairro da Luz Vermelha.

Foi por isso que se institucionalizou o “love card”, para evitar a transmissão de doenças venéreas. Claro que nem todo amor era em troca de dólares, mas apenas 32 natalenses casaram-se com americanos nesse ciclo.

Parte da alta sociedade não aprovava o exercício da “profissão mais antiga do mundo”; as que mais reclamavam eram as damas da Ação Católica, as mesmas que melhoraram sua visão sobre os americanos quando na base começou-se a celebrar a missa católica.

A maioria dos oficiais pagava com suas notas “verdes” que tinham a imagem de George Washington. Os conscritos promoviam o escambo com enlatados que trocavam a preço de ouro. Os mais gastadores compravam na Rua Dr. Barata, artéria urbana por onde circulava o bonde.

O que compravam? Especialmente as Natal boots, botas artesanais que faziam sucesso nos EUA. Também compravam animais exóticos do Zé Areia, um personagem famoso em Natal pelos “golpes” que aplicou nos soldadinhos ingênuos.

O fim da era

Esse dinheiro todo fez com que se abrisse o Cassino Natal. Também multiplicou os clubes, surgindo o Aero Clube, o Círculo Militar, o Clube da Redinha e o Clube Hípico.

No antigo Cine Politeama, inaugurou-se o USO Town Club, exclusivo para militares. Em todas as pistas, dançava-se rock, twist e jazz. E o “forró”, um mal pronunciado foxtrot que se abrasileirou, incluindo o xote, o baião e o xaxado.

Soldados norte-americanos em Natal durante a Segunda Guerra Mundial – Crédito: Getty Images

Farra não faltava, ainda menos no Grande Hotel, em frente à Praça José da Penha, a da Igreja do Bom Jesus das Dores. Ali dormiu o rei Faisal Al Saud, da Arábia Saudita, em 1943. Diariamente se hospedavam militares de alta patente e os famosos de Hollywood (o Grande Hotel fechou em 1987; não havia mais guerra, acabaram os dólares e os gringos tinham partido havia décadas).


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