O que explica os supostos dinossauros em quadro de 1562?
Teoria que se popularizou nas redes sociais diz que 'dinossauros' em quadro renascentista são prova de que esses animais conviveram com os seres humanos

Teriam os seres humanos convivido com os dinossauros? A ideia parece absurda — e de fato, qualquer afirmação do tipo é falsa — mas essa teoria jamais desapareceu por completo da cultura popular, seja em livros, filmes, ou mesmo nas redes sociais.
Os primeiros fósseis de grandes répteis começaram a ser encontrados ainda no século 17. No entanto, foi só no início do século 20 que os cientistas conseguiram estabelecer com clareza que esses animais viveram e desapareceram muitos milhões de anos antes do surgimento da espécie humana. Até então, muitos estudiosos acreditavam que aqueles enormes ossos pertenciam a criaturas mencionadas na Bíblia.
Em 2023, pesquisadores de universidades do Reino Unido e da Suíça publicaram um estudo sugerindo que os primeiros mamíferos placentários podem ter surgido ainda durante o período Cretáceo, quando os dinossauros ainda dominavam a Terra. Esses pequenos animais estariam entre os ancestrais muito distantes dos seres humanos, mas também de baleias, morcegos, elefantes e diversos outros mamíferos modernos. A descoberta, por mais interessante que seja, não altera em nada o consenso científico, já que não indica que pessoas conviveram com dinossauros, apenas que a linhagem dos mamíferos placentários começou antes da extinção desses répteis gigantes.
Apesar disso, teorias que tentam aproximar humanos e dinossauros continuam circulando na internet. A mais recente delas ganhou força após um perfil do Instagram publicar uma imagem que reuniu mais de 15 mil curtidas. A postagem apresentava o que seria supostamente uma “prova” de que dinossauros ainda existiam no século 16.
O detalhe na pintura
Como destaca uma matéria do portal UOL, o argumento se baseava em um detalhe presente ao fundo de uma pintura renascentista. Segundo a publicação, a obra mostraria enormes saurópodes — os famosos dinossauros de pescoço comprido — caminhando ao lado de pessoas, o que serviria como evidência de que esses animais teriam sobrevivido até tempos relativamente recentes. Contudo, basta uma análise mais cuidadosa para que toda a teoria desmorone.
Em primeiro lugar, o autor da pintura sequer foi identificado corretamente. O perfil atribuiu a obra, uma tela concluída em 1562 chamada “O Suicídio de Saul”, a um artista chamado “Peter Bruce Gale”, quando, na verdade, ela foi produzida por Pieter Bruegel, o Velho, um dos principais nomes do Renascimento Flamengo.
A peça, que atualmente integra o acervo do Museu de História da Arte de Viena, na Áustria, representa um episódio narrado no Primeiro Livro de Samuel, no Antigo Testamento. Após ser derrotado pelos filisteus na batalha do Monte Gilboa, o rei Saul fica gravemente ferido. Temendo ser capturado pelos inimigos, decide tirar a própria vida lançando-se sobre sua espada.

Como era comum entre artistas do Renascimento, Bruegel transportou a história antiga para o contexto de sua própria época. Assim, em vez de representar soldados com roupas típicas do Oriente Médio antigo, ele retratou guerreiros usando armaduras e equipamentos militares como os do século 16. Algumas formações do exército, inclusive, lembram tropas do Império Otomano. Mas o que explicaria as supostas criaturas vistas ao fundo da composição?
A explicação
Especialistas em história da arte apontam que elas não representam dinossauros, mas provavelmente camelos desenhados de maneira imprecisa. Hoje isso pode parecer estranho, mas fazia bastante sentido no contexto da época. Como durante a Idade Média e o Renascimento artistas raramente tinham contato direto com animais exóticos, muitos trabalhavam apenas com descrições feitas por viajantes, comerciantes ou mesmo por textos, o que frequentemente resultava em representações um tanto fantasiosas.
Leões, por exemplo, haviam desaparecido da maior parte da Europa havia séculos, e muitos ilustradores jamais tinham visto um exemplar vivo. O mesmo acontecia com diversos animais vindos da África e da Ásia. No caso dos camelos, eles eram conhecidos pelos europeus, mas relativamente raros em regiões como Antuérpia, onde Bruegel viveu. Assim, era comum que fossem retratados com proporções incomuns e características bastante distorcidas.
A editora Elizabeth Morrison, responsável pelo livro “Book of Beasts – The Bestiary in the Medieval World”, observa que o conhecimento sobre animais era limitado naquele contexto e muito baseado em tradições e relatos. Por isso, criaturas lendárias, como unicórnios, eram consideradas perfeitamente plausíveis, enquanto animais reais, mas pouco conhecidos, podiam parecer quase fantásticos.
Além disso, existe um fator psicológico que ajuda a entender por que tantas pessoas enxergam dinossauros — ou até celulares — em obras antigas: nossa tendência de interpretar o passado a partir das referências do presente. É o mesmo mecanismo que faz algumas pessoas acreditarem que a jovem retratada na pintura “A Espera”, de Ferdinand Georg Waldmüller, estaria olhando para um smartphone, quando, na verdade, segura apenas um pequeno livro de orações. No caso de “O Suicídio de Saul”, esse olhar anacrônico faz com que transformemos camelos em gigantescos saurópodes.