Chico Science, Ariano Suassuna e o debate sobre como deveria ser a música brasileira

Quando o assunto era música, Ariano Suassuna e Chico Science quase sempre discordavam entre si; mesmo assim desenvolveram uma sólida amizade

Ariano Suassuna e Chico Science - Crédito: Wikimedia Commons/Agência Brasil e Acervo Paulo André

Na década de 1990, surgiram em Recife dois importantes movimentos culturais que ficariam marcados na história brasileira. Um deles, chamado Movimento Armorial, foi idealizado pelo escritor Ariano Suassuna e defendia a preservação das raízes da cultura popular brasileira. Do outro lado, tínhamos o Manguebeat que, coidealizado pelo cantor Chico Science, líder da banda Nação Zumbi, apostava justamente na mistura dessas mesmas tradições com influências vindas do rock, do hip-hop, da música eletrônica e de outros estilos internacionais.

À primeira vista, os dois pareciam ocupar posições irreconciliáveis. Suassuna criticava a cultura de massa, enquanto que Chico acreditava que o diálogo entre o regional e o global poderia fortalecer, e não enfraquecer, a identidade nordestina.

De volta aos holofotes

A discussão voltou a repercutir recentemente nas redes sociais após o perfil Do Meu Brasil, no Instagram, relembrar um episódio curioso envolvendo os dois artistas. Segundo a publicação, que foi repercutida pelo portal Tenho Mais Discos Que Amigos, Ariano costumava brincar que seria melhor o músico trocar o nome artístico de “Chico Science” por “Chico Ciência”, já que não via com bons olhos o uso de palavras em inglês.

A piada refletia uma crítica mais profunda, já que, ao longo da vida, Suassuna combateu aquilo que chamava de excessiva influência da cultura estrangeira sobre a produção artística brasileira. Em diversas entrevistas e palestras, questionava não apenas o uso de termos em inglês, como também a presença de guitarras elétricas, do rock e do hip-hop na sonoridade do Manguebeat.

Em um artigo publicado na Folha de S.Paulo no ano 2000, o escritor fez questão de esclarecer que sua posição não era contrária ao contato entre diferentes culturas. O alvo de suas críticas era, segundo ele, a padronização promovida pela indústria cultural.

Algumas pessoas acham que para preservar uma impossível e indesejável pureza da cultura brasileira eu seria contrário a seu contato com outras culturas. De modo nenhum. Sou contrário somente ao mau gosto da cultura de massas, brasileira ou americana”, escreveu, conforme o Correio Braziliense.

Opinião sobre o rock

Naquele mesmo texto, Suassuna foi ainda mais contundente ao comentar o rock. Para ele, o gênero representava uma descaracterização de manifestações musicais populares afro-americanas, crítica que estendeu inclusive a Elvis Presley.

A imitação seria ainda pior no caso do rock, música na qual os jovens americanos brancos, liderados por um imbecil como Elvis Presley, falsificam uma raiz popular negra, enfraquecendo sua força original e achatando-a de acordo com o gosto médio e o mau gosto dos meios de comunicação de massa”, escreveu, na época, o criador do clássico “O Auto da Compadecida”.

No caso do Manguebeat, sua oposição seguia a mesma lógica. Em certa ocasião, o escritor contou que Chico Science lhe disse que também se considerava “armorial”. Ariano respondeu que simpatizava tanto com o “Chico” quanto com o maracatu presente em sua obra, mas discordava justamente do “Science”.

A visão de Suassuna sobre a globalização era que o fenômeno contribuía para reduzir as diferenças culturais em nome de um padrão estético internacional guiado pelo mercado. Além disso, seu posicionamento aparecia também em críticas a símbolos da cultura de massa. Em entrevistas, classificou a Disneylândia como “o maior monumento à imbecilidade do mundo” e afirmou não suportar a réplica da Estátua da Liberdade instalada no Rio de Janeiro, que via como um exemplo de falta de identidade própria.

Mas, apesar das divergências públicas, a relação entre Ariano Suassuna e Chico Science nunca foi marcada pela rivalidade pessoal. Pelo contrário. Apesar de pensarem a arte de formas diferentes, depois de se conhecerem, desenvolveram uma amizade, e quando Chico Science morreu tragicamente em um acidente de carro, em fevereiro de 1997, Ariano compareceu ao velório e ao enterro do músico. Estava profundamente emocionado.

Semelhanças

Com o passar dos anos, muitos pesquisadores passaram a enxergar que os dois defendiam objetivos muito mais próximos do que parecia. Afinal, ambos desejavam valorizar a cultura nordestina e combater a ideia de que ela deveria ocupar um papel secundário no cenário nacional. A grande diferença, apontam, estava apenas no caminho escolhido para alcançar esse objetivo. Se, por um lado, Suassuna acreditava que era preciso proteger as tradições populares das influências da indústria cultural global, o co-criador do Manguebeat defendia que essas tradições poderiam dialogar com o mundo sem perder sua essência.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.