Vítor Soares / Mitologia Grega

O que aconteceu com Odisseu após o fim de ‘A Odisseia’?

Embora Homero encerre A Odisseia com o retorno do herói a Ítaca, outros poemas antigos apresentam um destino muito diferente

Na mitologia grega, o destino de Odisseu após a Odisseia varia conforme diferentes tradições, envolvendo personagens como Penélope, Telêmaco e Circe. - Brandywine River Museum of Art/Museu de Arte Chrysler/Wikimedia Commons

Após duas décadas longe de casa, dez anos lutando na Guerra de Troia e outros dez enfrentando uma longa jornada pelo mar, Odisseu finalmente retorna a Ítaca ao final da Odisseia, poema atribuído a Homero. O herói reencontra a esposa, Penélope, e o filho Telêmaco, derrota os pretendentes que tentavam tomar seu palácio e recupera o trono. A narrativa termina com a intervenção da deusa Atena, que impede um novo conflito e restabelece a paz.

Para muitos leitores, esse representa o encerramento definitivo da história. No entanto, outras epopeias da Grécia Antiga sugerem que o retorno a Ítaca foi apenas mais um capítulo da vida de Odisseu — personagem que é protagonista do filme ‘A Odisseia,’ de Christopher Nolan, que chegou aos cinemas nesta semana.

Esses relatos pertencem ao chamado Ciclo Épico, conjunto de poemas que narravam diferentes episódios relacionados à Guerra de Troia. Embora a maior parte dessas obras tenha se perdido ao longo dos séculos, fragmentos, referências e resumos preservados por autores posteriores permitem reconstruir parte de seu conteúdo.

Entre essas epopeias está a Telegonia, tradicionalmente atribuída a Eugamon de Cirene. Considerada uma continuação direta da Odisseia, a obra acompanha os acontecimentos posteriores ao retorno de Odisseu e apresenta um desfecho bastante diferente daquele conhecido pela maioria dos leitores.

A profecia que indicava novas viagens

Na própria Odisseia, Homero deixa um indício de que a história do herói ainda não havia chegado ao fim.

Durante sua descida ao mundo dos mortos, Odisseu consulta o adivinho Tirésias para descobrir como poderia voltar para casa. O profeta explica que o guerreiro conseguiria retornar a Ítaca, mas afirma que, após eliminar os pretendentes que ocupavam seu palácio, precisaria partir novamente.

Segundo a profecia, Odisseu deveria viajar até uma terra onde as pessoas não conhecessem o mar. Ali, encontraria alguém capaz de confundir um remo com um instrumento usado na agricultura. Esse seria o sinal para realizar um sacrifício em honra a Poseidon, divindade que perseguiu o herói durante praticamente toda sua viagem de volta. Somente depois desse ritual a ira do deus seria finalmente apaziguada.

Mapa do percurso de Odisseu para casa. – Créditos: World History Encyclopedia

Antes mesmo do encerramento da Odisseia, Odisseu compartilha essa revelação com Penélope, preparando o terreno para uma continuação que Homero nunca chegou a narrar. Os acontecimentos seguintes aparecem justamente na Telegonia, considerada pelos estudiosos a sequência da epopeia homérica.

Novas jornadas e o destino final de Odisseu

A Telegonia retoma a narrativa após os acontecimentos de Ítaca. Segundo o resumo preservado da obra, Odisseu deixa novamente sua terra e faz uma breve passagem por Élis antes de seguir para a Tesprócia, região localizada no norte do mundo grego.

Ali, o herói conhece a rainha Calídice e passa a viver ao seu lado. Durante esse período, lidera uma guerra em defesa do reino e tem um filho chamado Polipoetes. Somente depois de o jovem assumir o governo da Tesprócia, Odisseu retorna mais uma vez a Ítaca.

Enquanto isso, outro personagem ganha importância na narrativa: Telégono, filho de Odisseu com a feiticeira Circe. Já adulto, ele parte em busca do pai levando uma lança cuja ponta era feita com o ferrão venenoso de uma arraia, presente recebido de sua mãe.

Cabeça de Odisseu de um grupo escultórico representando Odisseu cegando Polifemo, grego, c. século I d.C. – Fonte: Museo Archeologico Nazionale in Sperlonga.

A viagem, porém, toma um rumo inesperado. Sem saber, Telégono desembarca justamente em Ítaca. Ao chegar à ilha, envolve-se em um confronto com guerreiros locais e, durante o combate, fere mortalmente um homem com sua lança. Somente depois da batalha pai e filho descobrem suas verdadeiras identidades. O guerreiro atingido era Odisseu.

A morte do herói procura dialogar com a profecia feita por Tirésias na Odisseia. Embora o golpe venha da lança de Telégono, a arma possuía um ferrão de arraia, criatura do mar, fazendo com que o destino de Odisseu permanecesse ligado ao oceano.

Após sua morte, Telégono leva Penélope, Telêmaco e o corpo de Odisseu de volta até Circe. O resumo preservado da Telegonia afirma que Penélope se casa com Telégono, enquanto Circe se une a Telêmaco. Por meio dessas uniões, a família de Odisseu alcança a imortalidade, encerrando o ciclo das narrativas relacionadas à Guerra de Troia com um desfecho considerado feliz.

Uma continuação que ainda divide estudiosos

Apesar disso, essa continuação sempre despertou debates entre estudiosos. A narrativa apresenta diferenças marcantes em relação à imagem construída por Homero. O casamento de Odisseu com Calídice, por exemplo, contrasta com o desejo constante do herói de retornar para Penélope ao longo da Odisseia. Da mesma forma, sua morte em combate parece diferente da morte tranquila sugerida por Tirésias.

Mesmo assim, a Telegonia oferece uma perspectiva de como alguns gregos da Antiguidade imaginavam o destino do lendário rei de Ítaca. Em vez de encerrar sua trajetória com o reencontro familiar, a epopeia mostra um herói que continua viajando, enfrentando novos desafios e lidando com as consequências de sua própria história.

Telêmaco retornando a Penélope, por Angelica Kauffmann, 1770-80. – Fonte: Museu de Arte Chrysler, Virgínia.

Embora a obra tenha se perdido quase completamente, seus fragmentos preservam uma tradição que amplia o universo da Odisseia e revela que, para parte da literatura grega antiga, a jornada de Odisseu estava longe de terminar quando ele finalmente voltou para casa.


*Sob supervisão de Fabio Previdelli