Matérias / Arqueologia

Sono e Morte: a escultura de 2.400 anos que retrata cena da Guerra de Troia

Inspirada na Guerra de Troia, descrita na Ilíada de Homero, a escultura de bronze "Sono e Morte" representa dois deuses carregando o filho de Zeus, Sarpedão

Escultura "Sono e Morte" / Crédito: Getty Images

Uma pequena escultura de bronze criada há cerca de 2.400 anos revela como os poemas épicos atribuídos a Homero influenciaram a produção artística dos etruscos, antigo povo que habitou a região central da Itália. A peça, atualmente preservada na coleção do Museu de Arte de Cleveland, retrata uma das cenas mais marcantes da Guerra de Troia: o momento em que os deuses Hipnos e Tânatos carregam o corpo de Sarpedão após sua morte em combate.

Conhecida como a alça da cista “Sono e Morte“, a obra fazia parte de uma cista — um pequeno recipiente cilíndrico com tampa utilizado para diferentes finalidades no Egito, Grécia, Roma e Etrúria. Em vez de uma simples alça funcional, o objeto recebeu uma elaborada composição escultórica, demonstrando o refinamento artístico alcançado pelos artesãos etruscos.

A estrutura mede aproximadamente 18,5 centímetros de comprimento por 18,3 centímetros de altura e reúne figuras de bronze fundidas para formar a alça decorativa da caixa. No centro da cena está Sarpedão, um dos filhos de Zeus, sustentado pelos irmãos gêmeos Hipnos, deus do sono, e Tânatos, divindade associada à morte não violenta.

Sacrifício de Sarpedão

A representação tem origem no Livro XVI da “Ilíada”. Na narrativa, Sarpedão combate ao lado dos troianos durante a lendária Guerra de Troia. Em determinado momento da batalha, ele enfrenta Pátroclo, companheiro de Aquiles, que havia vestido a armadura do maior guerreiro grego para fazer os inimigos acreditarem que o próprio Aquiles retornara ao campo de batalha.

Mesmo desejando salvar o filho, Zeus não impede seu destino. Mortalmente ferido, Sarpedão tem sua armadura retirada pelos gregos. Em seguida, Zeus ordena que Apolo recupere o corpo e o entregue aos irmãos Hipnos e Tânatos, descritos na epopeia como aqueles “que levam os homens rapidamente para longe”.

Segundo Michael Bennett, ex-curador de arte grega e romana do Museu de Arte de Cleveland, a escultura demonstra grande habilidade artística ao representar esse episódio da literatura clássica. “O escultor da antiguidade desta peça ‘conseguiu capturar brilhantemente o pathos e a emoção de uma cena da ‘Ilíada‘ de Homero'”, afirmou Bennett em um vídeo produzido pelo museu.

Outras representações artísticas de Sarpedão sendo levado por Hipnos e Tânatos / Crédito: Domínio Público / Getty Images

Técnica avançada

Além do valor estético, a peça também chama atenção pela solução técnica adotada pelo artista. De acordo com Bennett, a alça apresenta um nível de detalhamento incomum para objetos etruscos desse tipo. O desenho ainda oferece uma função prática: os cabelos esculpidos de Sarpedão formam um apoio natural para os dedos, conferindo ao objeto um desenho quase ergonômico.

Embora a influência da “Ilíada” sobre essa escultura seja evidente, os estudiosos ainda discutem por que os etruscos recorreram com tanta frequência a episódios da Guerra de Troia em sua produção artística. Pinturas murais, esculturas e objetos de bronze desse povo frequentemente reproduzem personagens e acontecimentos narrados por Homero.

A resposta permanece incerta em grande parte porque a língua etrusca é apenas parcialmente compreendida. Grande parte das informações disponíveis sobre essa civilização foi registrada por autores estrangeiros, entre eles o historiador grego Heródoto, que escreveu séculos depois dos acontecimentos descritos.

Origem etrusca e laços com Troia

Heródoto defendia que os etruscos teriam se originado da Lídia, região da Ásia Menor situada relativamente próxima de Troia. Essa hipótese, combinada com a tradição posterior segundo a qual Eneias — herói troiano que sobreviveu à guerra — teria viajado até a Itália e contribuído para a fundação de Roma, levou alguns especialistas, como o linguista Robert Beekes, a sugerirem que os etruscos poderiam descender dos próprios troianos ou de povos aliados da cidade durante o conflito.

Entretanto, essa interpretação não é consensual. Um estudo genético publicado em 2021 indicou que a população etrusca provavelmente se originou na própria região onde se desenvolveu sua civilização, enfraquecendo a hipótese de uma migração direta ligada aos sobreviventes da Guerra de Troia.

Antiga ilustração de trecho da Ilíada, de Homero, com o Cavalo de Troia / Crédito: Getty Images

Rotas comerciais e releitura do drama homérico

Independentemente de sua origem, existem diferentes explicações para o interesse etrusco pelas histórias homéricas. Uma possibilidade é que esse povo tenha desenvolvido certa identificação com os adversários dos gregos retratados na “Ilíada”, incorporando seus personagens e episódios à própria tradição artística.

Outra interpretação aponta para a intensa circulação de objetos entre o mundo grego e a Etrúria. Durante esse período, cenas da Guerra de Troia eram temas recorrentes na arte produzida pelos gregos. Vasos, recipientes e outros objetos decorados com essas narrativas chegaram aos etruscos por meio das amplas redes comerciais do Mediterrâneo, influenciando diretamente seus artistas, segundo o Live Science.

Ainda assim, os etruscos não apenas reproduziram esses modelos. Segundo a arqueóloga clássica Larissa Bonfante, autora de “Mitos Etruscos”, eles adaptaram essas narrativas às próprias preferências estéticas, dando destaque especial aos momentos de morte, violência e brutalidade presentes na Guerra de Troia. A alça da cista “Sono e Morte”, ao representar o transporte do corpo de Sarpedão após sua queda em batalha, ilustra justamente essa releitura etrusca de um dos episódios mais dramáticos da tradição homérica.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.