O eco dos esquecidos: O legado sobrenatural e violento da Plantação Myrtles
Conheça os segredos da mansão na Louisiana que, entre lendas de vingança e tragédias reais, ganhou o título de casa mais assombrada dos EUA

No coração de St. Francisville, na Louisiana, uma imponente mansão do século 18 permanece envolta por carvalhos centenários e pelos fios prateados de musgo espanhol, criando uma moldura que oscila entre o pitoresco e o melancólico.
A Plantação Myrtles, construída em 1796, carrega uma reputação secular: a de ser um dos locais mais assombrados do mundo. O que para muitos é um destino turístico charmoso, para os entusiastas do sobrenatural é um epicentro de atividades inexplicáveis, em que o passado parece se recusar a permanecer enterrado.
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O refúgio de um rebelde e o solo sagrado
A história da propriedade começou com uma fuga desesperada: o general David Bradford, um advogado na Pensilvânia, precisou abandonar sua vida após liderar a Rebelião do Whiskey contra as taxas federais impostas pelo governo de George Washington. David Bradford, conhecido na época como “Whiskey Dave”, foi o porta-voz de uma insurgência armada que protestava contra o imposto sobre bebidas destiladas proposto por Alexander Hamilton, chegando a liderar uma turba de sete mil pessoas em Pittsburgh.
Após ser perseguido por tropas federais e evadir a captura, ele buscou refúgio no que era então a Flórida Ocidental Espanhola, onde obteve uma concessão de terra e construiu uma residência modesta chamada originalmente de Laurel Grove.
Entretanto, conforme indicam fontes históricas e registros da organização Legends of America, o terreno escolhido por David Bradford carregava uma bagagem espiritual prévia: acredita-se que a mansão tenha sido erguida sobre um antigo cemitério da tribo nativa Tunica.
Historiadores do sobrenatural frequentemente apontam que a perturbação de solos sagrados é um catalisador para fenômenos inexplicáveis, sugerindo que a fundação da Myrtles já estava comprometida por energias inquietas desde o primeiro tijolo. Esse tipo de sacrilégio, segundo especialistas, cria um ambiente propício para atividades espirituais hostis, uma vez que os mortos não teriam aceitado a violação de seu descanso eterno.

A lenda de Chloe e o bolo fatal
Dentre os muitos relatos de aparições que habitam os corredores da Myrtles, nenhum é tão persistente quanto o de Chloe. Segundo a lenda local, Chloe era uma escravizada que trabalhava na casa durante a gestão de Clark Woodruff, genro de David Bradford.
O conto popular narra que ela mantinha um caso com Clark Woodruff, mas temia ser enviada para o trabalho forçado nos campos de algodão caso ele se cansasse dela. Em um episódio tenso, Chloe teria sido flagrada ouvindo conversas privadas atrás das portas; como punição, teve sua orelha cortada, o que a obrigou a usar um turbante verde para esconder a cicatriz.
A tragédia teria se consolidado quando, em uma tentativa aflita de se tornar indispensável como cuidadora, ela teria colocado folhas venenosas de oleandro em um bolo de aniversário para as filhas de Clark Woodruff. O plano era deixar a família doente para que ela pudesse curá-los, garantindo sua gratidão e segurança na casa principal.
No entanto, a dosagem foi fatal, resultando na morte da esposa de Clark Woodruff, Sarah Matilda Woodruff, e de seus filhos. Em retaliação, Chloe teria sido morta pelos próprios companheiros de escravidão, que temiam punições coletivas por parte de Clark Woodruff, e seu corpo jogado nas águas barrentas do rio Mississippi. Até hoje, visitantes afirmam ver uma figura de turbante verde vagando pelos jardins ou aparecendo discretamente em fotografias.
O mito e a dura realidade médica
Embora a história de Chloe seja a mais famosa, pesquisas históricas recentes trazem uma perspectiva diferente sobre as mortes na família de Clark Woodruff. Conforme informações do site oficial The Myrtles, os registros apontam que Sarah Matilda Woodruff e seus filhos, James Woodruff e Cornelia Woodruff, provavelmente não morreram por envenenamento, mas sim vítimas da febre amarela, uma doença devastadora e comum na Louisiana naquela época. No verão, o clima úmido favorecia a proliferação de mosquitos, tornando a morte uma presença constante e inevitável na região.
A presença constante da morte por doenças infecciosas no século 19 criou um ambiente de luto permanente na mansão. Outras crianças, como Kate Winter, também sucumbiram à febre amarela anos depois, em 1861. Uma lenda paralela diz que seu pai, William Winter, teria recorrido a uma servidora chamada Cleo, suposta praticante de vodu, em uma tentativa de salvar a filha; o fracasso da cerimônia teria levado William Winter a enforcar a mulher na propriedade.
Essa realidade trágica alimenta os relatos de quem ouve risadas infantis ou sente puxões nas roupas enquanto caminha pela casa. De acordo com o US Ghost Adventures, o impacto psicológico de tantas perdas em um curto período pode ter deixado o que investigadores paranormais chamam de marcas residuais no ambiente.
O mistério do 17º degrau
Outro capítulo sombrio envolve William Winter, que se casou com Sarah Stirling, filha de Ruffin Stirling, proprietário que rebatizou a mansão em homenagem às murtas que cercavam a casa. Em janeiro de 1871, William Winter foi baleado por um desconhecido enquanto estava na varanda da frente. O relato mais dramático diz que ele cambaleou para dentro da casa e tentou subir as escadas, falecendo nos braços de sua esposa exatamente no 17º degrau.
A morte de William Winter é o único assassinato oficialmente documentado na propriedade, embora existam divergências sobre se ele realmente conseguiu subir a escadaria ou se morreu no próprio batente da porta, como indicavam os jornais da época. Relatos contemporâneos dizem que ele foi chamado à porta às 19h30 por um desconhecido, sendo atingido por um tiro de espingarda. Ainda assim, a lenda persiste, e muitos hóspedes relatam ouvir passos pesados subindo os degraus que cessam abruptamente antes de chegar ao topo, exatamente onde a vida de William Winter teria se esvaído.
Reflexos de outro mundo e o turismo paranormal
Atualmente, a Plantação Myrtles funciona como uma pousada com 21 quartos e um restaurante, mas o mistério continua sendo seu principal atrativo. Um dos pontos que mais intriga os visitantes é o grande espelho localizado no saguão principal, onde marcas de mãos infantis apareceriam na superfície do vidro e não poderiam ser removidas, mesmo com produtos de limpeza profissionais. Alguns acreditam que as impressões pertencem aos espíritos dos filhos de Clark Woodruff que ainda buscam por conforto.

Investigações modernas, como as realizadas por Zak Bagans e as equipes dos programas Ghost Hunters e Ghost Adventures, capturaram evidências de vozes eletrônicas e movimentos inexplicáveis de objetos. A ex-proprietária Frances Kermeen, que administrou o local nos anos 1980 com James Myers e escreveu o livro intitulado The Myrtles Plantation: The True Story of America’s Most Haunted House, descreveu a convivência com as entidades como algo visceral e cotidiano. Em suas memórias, Frances Kermeen registrou:
Fantasmas e avistamentos na Myrtles eram quase uma ocorrência diária”.
Ela detalhou que o inexplicável era a norma, afirmando que “vozes, passos e o perfume de flores eram comuns em toda a casa”. Frances Kermeen também descreveu visões específicas que presenciou, como quando notou que “uma serva carregando uma vela fazia seu caminho de sala em sala” e avistou “duas garotinhas, supostamente envenenadas em 1824, brincando do lado de fora”. Seus relatos incluíam ainda camas que tremiam e lustres que balançavam sem qualquer vento.
A atual proprietária, Teeta Moss, que comprou a casa em 1992 com seu marido John Moss, também relatou ouvir vozes familiares chamando seu nome quando estava sozinha na mansão, além de acreditar que a figura de Chloe protegeu a residência de um incêndio em 2014.
A Plantação Myrtles é um monumento à complexidade da história sulista. A beleza da arquitetura e o peso de um passado marcado pela dor convidam os curiosos a descobrirem se os sussurros nos corredores são apenas o vento ou o eco daqueles que nunca partiram. Como escreveu o visitante Michael S. em um depoimento: “Assombrado ou não, este lugar merece ser o centro de qualquer viagem ao Sul”.
*Sob supervisão de Fabio Previdelli