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Famílias da elite cita passavam o poder de forma hereditária, revela análise de DNA

Estudo analisou o DNA de antigos integrantes da elite cita e concluiu que o poder político entre esses povos era transmitido de forma hereditária

Túmulo "Kurgan Shilikty 16" no Cazaquistão antes das obras de escavação - Crédito: Divulgação/Rinat Zhumatayev

Um estudo publicado recentemente na revista Science Advances analisou o DNA de antigos integrantes da elite cita e concluiu que o poder político entre esses povos da Idade do Ferro era transmitido de forma hereditária, e, portanto, era mantido dentro das mesmas famílias ao longo de várias gerações.

A pesquisa reuniu especialistas em arqueologia, antropologia e genética, que examinaram o DNA genômico de 85 indivíduos sepultados em diferentes regiões da Eurásia Central. Desse total, 38 pertenciam à elite e foram enterrados em grandes montes funerários, enquanto os outros 47 ocupavam túmulos mais simples. De acordo com o portal Archaeology News, o trabalho também produziu os primeiros dados completos do DNA do famoso “Homem de Ouro“, um guerreiro saka encontrado no Cazaquistão.

Os citas e os sakas foram povos que, durante o primeiro milênio a.C., habitaram uma extensa área entre as Montanhas Altai e o Mar Negro. Eles eram conhecidos pela habilidade na equitação, pelo estilo de vida nômade e pelos elaborados rituais funerários destinados aos seus líderes, que ganhavam grandes túmulos repletos de ornamentos de ouro, armas, vestimentas sofisticadas e oferendas de animais. Por outro lado, indivíduos de posição social inferior recebiam sepultamentos mais modestos, com poucos objetos. Há décadas, arqueólogos interpretam essa diferença como um indicativo de desigualdade social, mas ainda restava saber se o status nessa sociedade era herdado ou conquistado ao longo da vida.

A hipótese mais provável

Os resultados do novo estudo apontam para a primeira hipótese. Os pesquisadores descobriram que integrantes da elite compartilhavam laços familiares próximos, mesmo quando estavam sepultados em cemitérios separados por mais de 100 quilômetros. Outra observação interessante é que foram identificados avós e netos enterrados em diferentes locais, além de evidências de casamentos entre parentes próximos. Tudo isso sugere que determinadas famílias conseguiram preservar o poder político durante várias gerações.

O trabalho também investigou como essas famílias estavam organizadas. No fim, os resultados não revelaram evidências de um sistema de residência predominantemente voltado para a família do homem ou da mulher após o casamento, o que indica que os arranjos eram mais flexíveis do que se imaginava.

Outro aspecto que chamou a atenção foi a posição ocupada pelas mulheres. Foi constatado que quase metade dos indivíduos pertencentes à elite era do sexo feminino e que muitas dessas mulheres foram sepultadas com riquezas equivalentes às encontradas em túmulos masculinos. De acordo com os pesquisadores, as análises de DNA reforçam a hipótese de que elas exerciam uma função de destaque dentro daquele contexto.

Os cientistas observaram que as famílias da elite apresentavam menor diversidade genética do que a população em geral, apesar de os citas possuírem origens bastante variadas. Esse padrão reforça as evidências de que os grupos dominantes mantinham uma população reprodutiva relativamente restrita e formada por parentes próximos.

O homem de Ouro

A pesquisa também trouxe novas respostas sobre o chamado “Homem de Ouro”, uma das descobertas arqueológicas mais famosas da Ásia Central. Como explica o Archaeology News, o homem foi encontrado no túmulo de Issyk, no Cazaquistão, cerca de 50 quilômetros a leste de Almaty. Datado entre 400 e 300 a.C., o sepultamento contava com mais de 4 mil ornamentos de ouro, além de armas, um elaborado cocar dourado, obras de arte e uma tigela de prata com uma inscrição que ainda hoje segue indecifrada.

Durante anos, estudiosos discutiram se os restos mortais pertenciam a um homem ou a uma mulher. As novas análises genéticas apontam de forma consistente que o indivíduo era do sexo masculino. Os pesquisadores também constataram que seu perfil de DNA corresponde ao de outros povos saka da Idade do Ferro.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.