Estudo de DNA antigo revela diversidade genética na Sicília medieval
Estudo de DNA antigo revelou que a Sicília medieval permaneceu um centro populacional diversificado depois de domínios bizantino, islâmico e normando

Um novo estudo de paleogenética revelou que a Sicília manteve sua característica de centro populacional diverso e multicultural durante a Idade Média, resistindo a profundas transformações políticas e religiosas ocorridas na região.
Por meio da análise do material genético de indivíduos que habitaram a ilha entre os séculos 5 e 15 d.C., os cientistas constataram que a dinâmica demográfica local não foi moldada por substituições abruptas de populações, mas sim por uma contínua e gradual integração de diferentes povos ao longo de um milênio.
A investigação consistiu na análise de DNA extraído de 111 esqueletos sepultados em 19 sítios arqueológicos distribuídos pelo território siciliano. O arco temporal das amostras abrange o período romano tardio, a era bizantina, o domínio islâmico, a posterior conquista normanda e os séculos finais do período medieval.
Detalhes do estudo
De acordo com os dados divulgados no periódico científico PLOS One, os especialistas conseguiram mapear com sucesso o DNA mitocondrial de 67 indivíduos e o genoma completo de outras 32 pessoas.
Historicamente reconhecida como um ponto estratégico para as rotas comerciais que interligavam a Europa, o Oriente Próximo e o Norte da África, a Sicília já era habitada por comunidades de origens religiosas distintas, como cristãos, judeus e muçulmanos. Contudo, as evidências genéticas demonstraram que o fluxo migratório e a miscigenação na bacia do Mediterrâneo ocorreram de forma muito mais precoce e complexa do que apontavam os registros históricos tradicionais.
Os testes de DNA revelaram, por exemplo, que parcelas significativas da população local que viveu antes mesmo da conquista islâmica do século 9 já carregavam uma ancestralidade marcadamente norte-africana. Esse indicativo atesta que a movimentação de migrantes através do mar já exercia um papel ativo na composição genética dos sicilianos muito antes da mudança de governantes e de regimes políticos na ilha.
Durante o período de domínio islâmico, entre os séculos 9 e 11, os sepultamentos analisados reforçaram esse cenário de pluralidade. Os perfis genéticos recuperados indicaram origens geográficas difusas e conexões de longa data com populações de diferentes áreas do Mediterrâneo, padrões que se assemelhavam aos encontrados em indivíduos de eras anteriores. Além disso, essa fase evidenciou contatos ainda mais vastos, registrando a presença de pessoas cujas linhagens remontavam ao norte do continente europeu e à África Ocidental.
A transição para o domínio normando e o retorno da hegemonia cristã tampouco promoveram uma ruptura drástica no tecido demográfico da Sicília. O estudo apontou que tanto os cemitérios cristãos quanto os islâmicos da época mantiveram a tendência de abrigar indivíduos com composições genéticas variadas, evidenciando que a filiação religiosa não atuava como uma barreira de segregação biológica e que pessoas de origens distintas compartilhavam os mesmos espaços sociais por sucessivas gerações.
Apenas no encerramento do período medieval é que os marcadores genéticos da ilha começaram a demonstrar uma transição em direção às características observadas nas populações europeias da atualidade. Mesmo assim, os pesquisadores enfatizam que o processo se deu por meio de uma variação lenta e paulatina, e não pelo desaparecimento ou substituição repentina dos habitantes anteriores, de acordo com o Archaeology News.
A análise do DNA antigo consolida a visão de que a história genética das populações locais operava de maneira independente da ascensão e queda dos impérios. O estudo demonstra a relevância da ciência genética para mapear a trajetória de grupos humanos ausentes dos registros documentais, reforçando que o mundo medieval contava com redes de interconexão e fluxos migratórios muito mais dinâmicos do que se supunha.