Vítor Soares / Curiosidades

Tirania e sangue: a saga brutal dos últimos reis de Roma

Antes da República e do Império de Roma, conspirações, assassinatos e violência mancharam a história dos últimos reis romanos

Antigas representações de Tarquínio, o Velho, Sérvio Túlio e Tarquínio, o Soberbo / Crédito: Domínio Público

Antes de se consolidar como o império mais famoso da Antiguidade ou como uma república influente, Roma foi um reino. Sua fundação lendária é atribuída a Rômulo, o primeiro rex (rei), em 753 a.C.

Ao todo, a tradição aponta que a cidade teve sete monarcas ao longo de mais de 240 anos. Contudo, os três últimos governantes desse período — Tarquínio, o Velho, Sérvio Túlio e Tarquínio, o Soberbo — compartilhavam uma origem etrusca, civilização que prosperou na Itália central entre os séculos 8 e 3 a.C. Com feitos marcantes, condutas controversas e desfechos violentos, esse trio transformou a Cidade Eterna e pavimentou o caminho para o surgimento da República Romana.

Vale mencionar que a reconstituição dessa era enfrenta a escassez de registros contemporâneos precisos. As fontes disponíveis muitas vezes divergem entre si, e as narrativas mais conhecidas, como as produzidas pelo historiador Tito Lívio no século 1 a.C., foram redigidas séculos após os episódios reais, misturando elementos fantásticos ao cotidiano.

A própria fundação mítica de Roma por Rômulo e Remo, tidos como filhos do deus Marte criados por uma loba após serem abandonados, ilustra essa característica.

Os relatos sobre os reis etruscos seguem linha semelhante, repletos de presságios. Lívio relata que, por volta de 625 a.C., Lúcio Tarquínio Prisco, um imigrante abastado da cidade etrusca de Tarquínia, migrou para Roma. Ao cruzar o rio Tibre, uma águia pegou seu chapéu e o devolveu logo em seguida. Sua esposa, Tanaquil, que era vidente, decifrou o evento como um sinal divino de que ele alcançaria a realeza.

Representação do momento que uma águia pousa na cabeça de Tarquínio / Crédito: Domínio Público

Tarquínio, o Velho

Lúcio Prisco conquistou prestígio rapidamente e tornou-se conselheiro do monarca Anco Márcio. Com a morte do governante em 616 a.C., Tarquínio utilizou sua influência e assumiu o trono, iniciando o período da monarquia etrusca, que perduraria por pouco mais de um século.

Conhecido posteriormente como Tarquínio, o Velho, o rei expandiu o número de membros das classes senatorial e equestre, instituiu os Jogos Romanos e planejou defesas urbanas.

A ele é creditada a fundação do Templo de Júpiter Ótimo Máximo, no Monte Capitolino, e a demarcação do Circo Máximo, arena voltada para corridas de bigas. Além disso, iniciou a Cloaca Máxima, um sistema de drenagem essencial que escoava as águas pluviais de áreas pantanosas propensas à malária até o rio Tibre.

O governo de Tarquínio terminou de forma sangrenta em 578 a.C., quando os filhos de Anco Márcio contrataram dois pastores para assassiná-lo com um machado em uma emboscada simulada, repercute o National Geographic.

Sérvio Túlio

Os mentores do crime não assumiram o poder devido à intervenção de Tanaquil. Da janela do palácio, a rainha escondeu o óbito do marido e anunciou que ele havia indicado Sérvio Túlio para governar temporariamente.

Túlio, que de acordo com Lívio contava com “alta estima, não só do rei, mas também do Senado e do povo”, prendeu os conspiradores e assegurou o trono. Também de sangue etrusco, Túlio cresceu como protegido no palácio e casou-se com a filha de Tarquínio.

Seu nome, derivado de servus (escravo), denotava uma origem humilde que incomodava a aristocracia romana. Para legitimar sua posição, lendas passaram a sugerir que sua mãe havia sido engravidada por uma chama divina e que uma coroa de fogo surgiu em sua cabeça na infância, indicando a bênção do deus Vulcano. Outra versão, preservada séculos depois pelo imperador Cláudio com base em fontes etruscas, aponta que Túlio era um mercenário chamado Mastarna, que se estabeleceu no Monte Célio.

No trono, Túlio instituiu o primeiro censo de Roma e substituiu as três tribos tradicionais por 21 novas divisões baseadas no local de moradia. Ele também reorganizou as forças militares em centúrias (unidades de 100 soldados) ordenadas por faixas de renda — embora a economia ainda não fosse monetizada para cálculos exatos — operando com uma legião de até 5 mil homens. A ele também se atribui a construção da Muralha Serviana original, cujo traçado foi refeito no século 4 a.C. com pedras da pedreira de Grotta Oscura.

Após mais de quarenta anos de um governo popular, Túlio foi traído por sua filha, Túlia Menor. Aliada a seu marido, Lúcio Tarquínio (descendente de Tarquínio, o Velho), ela incentivou o golpe de Estado.

Lúcio Tarquínio discursou no Senado insultando o sogro. Conforme os registros dramáticos de Lívio, quando o idoso monarca compareceu para se defender, Tarquínio “agarrou Sérvio pela cintura e, sendo muito mais jovem e forte, carregou-o para fora do Senado e atirou-o escada abaixo até o Fórum”. Ferido, o rei acabou executado na rua por comparsas.

Ainda segundo a crônica de Lívio, na fuga, “Túlia passou com sua carruagem por cima do cadáver de seu pai e, contaminada e profanada, levou consigo em seu veículo um pouco do sangue de seu pai assassinado”.

Reprsentação de Túlia passando de carruagem por cima do corpo de seu pai / Crédito: Domínio Público

Tarquínio, o Soberbo

Lúcio Tarquínio assumiu o poder como Tarquínio, o Soberbo (ou o Orgulhoso). Ele reduziu o Senado eliminando opositores sem indicar substitutos e assumiu o julgamento de crimes capitais para espalhar o medo. Lívio detalha sua governança autocrática:

“Consciente de que o precedente de obter a coroa por meios ilícitos poderia ser adotado contra ele, cercou-se de homens armados, pois não tinha outro direito ao reino senão pela força, visto que reinava sem a ordem do povo nem a sanção do Senado.”

Em 509 a.C., durante o cerco militar à cidade de Ardea, um crime cometido no círculo familiar do monarca selou o destino do reino. Sexto, filho do rei, desejou Lucrécia, esposa de seu primo Colatino, por sua conduta virtuosa. Sob ameaças de matá-la e forjar um cenário de adultério humilhante com um escravo, Sexto a estuprou.

Lucrécia relatou a violência a seu pai, ao marido e ao aliado Lúcio Júnio Bruto, exigindo punição ao agressor antes de tirar a própria vida com um punhal: “Contudo, apenas meu corpo foi violado; meu coração é inocente, e a morte será minha testemunha. Mas prometam com suas mãos direitas e suas palavras que o adúltero não ficará impune.”

‘Tarquínio e Lucrécia’, por Johann Michael Rottmayr / Crédito: Domínio Público

O despertar da República Romana

A tragédia gerou revolta imediata. Diante do corpo, Bruto pronunciou um juramento solene registrado por Lívio: “Por este sangue, castíssimo até que um príncipe o profanou, eu juro, e tomo vocês, deuses, como testemunhas, que perseguirei Lúcio Tarquínio, o Soberbo, sua esposa perversa e todos os seus filhos, com espada, com fogo, sim, com toda a violência que eu precisar; e que não permitirei que nem eles nem ninguém seja rei em Roma!”

A exposição do cadáver de Lucrécia em Colácia e em Roma iniciou uma rebelião popular generalizada. Tarquínio, o Soberbo, tentou retornar do acampamento militar de Ardea, mas encontrou os portões da cidade fechados e recebeu uma ordem de banimento perpétuo. Apesar de tentar recuperar o trono posteriormente com suporte etrusco, o último monarca nunca mais retornou.

Sob o comando de Bruto e Colatino, escolhidos como os primeiros cônsules, a população jurou rejeitar qualquer liderança real. Esse episódio marcou a transição para a República Romana, regime que vigorou por quase cinco séculos. Séculos mais tarde, quando Augusto César centralizou o poder e fundou o Império, evitou adotar o título de rex, termo que permaneceu associado aos abusos e à violência de Tarquínio, o Soberbo.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.