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Estudo revela que famosa arma pré-histórica surgiu após a cultura Clóvis

Pesquisa desafia a ideia de que caçadores de mamutes usavam o atlatl e aponta que a ferramenta só apareceu nas Américas há cerca de 10 mil anos

Atlatl ornamentado, arma pré-histórica usada para lançar dardos a longas distâncias. Foto: Jennifer R. Trotter/CC BY-SA 4.0.

Durante décadas, a imagem dos primeiros habitantes da América do Norte esteve ligada ao uso do atlatl, um complexo lançador de dardos manual. Acreditava-se que essa ferramenta, que permite disparar flechas com mais força e velocidade do que uma lança arremessada à mão, fosse a principal arma da cultura Clóvis para abater animais gigantes.

Contudo, uma nova pesquisa publicada nos Anais da Academia Nacional de Ciências (PNAS), indica que essa tecnologia pode ser milhares de anos mais recente do que se supunha, surgindo apenas após o declínio das famosas culturas Clóvis e Folsom.

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O legado dos Clóvis

Para compreender a mudança de paradigma, é essencial olhar para a cultura Clóvis, que floresceu entre 13.340 e 12.710 anos atrás. Esse grupo é amplamente conhecido por caçar a megafauna do Pleistoceno, como mamutes, cavalos, camelos e bisontes gigantes. 

Suas pontas de pedra distintas eram frequentemente associadas ao uso do atlatl, sob a premissa de que armas semelhantes existiam na Europa há 30 mil anos e teriam sido trazidas para as Américas pelos primeiros migrantes. Entretanto, o estudo liderado por pesquisadores como Eren, MI, Bebber, MR, Walker, RS, Johnson, CR e Buchanan, B. ressalta que nunca foi encontrado um exemplar de atlatl preservado que pertencesse a esse período em sítios arqueológicos seguros.

Ilustração mostra o funcionamento de um atlatl, arma pré-histórica utilizada para lançar dardos. Ilustração: Sebastião da Silva Vieira/Wikipedia Commons

Dúvidas sobre Folsom

A nova cronologia proposta também impacta a compreensão sobre a cultura Folsom, que viveu entre 10.800 e 10.200 anos atrás. Os Folsom são célebres por suas pontas de pedra extremamente finas e complexas, que muitos especialistas julgavam ser dardos perfeitos para o sistema de alavanca do atlatl. 

A pesquisa revela que, estatisticamente, o atlatl provavelmente surgiu na região oeste da América do Norte há cerca de 9.996 anos, situando-se já no período Holoceno. Isso sugere que tanto os Clóvis quanto os Folsom podem ter dependido de outras estratégias de caça, como lanças de arremesso manuais ou dardos simples, que geravam maior energia de impacto para perfurar presas de grande porte.

Inovação e evolução convergente

A ausência do atlatl nas mãos dos caçadores de mamutes levanta questões sobre como essas comunidades se adaptavam ao ambiente hostil. Segundo os autores do estudo, as evidências apontam para um processo de evolução convergente

Em vez de ser uma tecnologia herdada da Eurásia, o atlatl pode ter sido inventado de forma independente nas Américas durante o início do Holoceno. “As descobertas não provam que o atlatl nunca existiu antes disso”, pondera o relatório, mas ressalta que, sem provas concretas, a ideia de sua antiguidade baseava-se mais na tradição acadêmica do que em fatos.

Novos rumos arqueológicos

A análise baseou-se em 66 datações por radiocarbono de artefatos preservados e utilizou um método estatístico avançado de estimativa linear para prever a primeira aparição da ferramenta. Com os novos dados, a arqueologia é incentivada a repensar as táticas de caça da Era do Gelo. Se os Clóvis e Folsom não utilizavam o lançador, eles precisavam se aproximar muito mais de animais perigosos, o que exigia uma coragem e um planejamento logístico ainda maiores do que se imaginava anteriormente para garantir a alimentação das tribos.

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*Sob supervisão de Felipe Sales Gomes

Meu propósito é dar voz a narrativas.