Foto de Descendente de Thomas Jefferson e o próprio - Créditos: Getty images
Neste sábado, os Estados Unidos da América completa seus 250 anos. A data é um convite ao olhar histórico sobre o passado, seus agentes e figuras controversas que estavam vivendo o momento. Nesse sentido, Shannon LaNier está remontando a contradição fundamental em sua história de origem e na dos EUA.
LaNier é o sexto bisneto de Thomas Jefferson, o pai fundador que redigiu a Declaração de Independência e se tornou o terceiro presidente americano. Embora pregasse uma terra de liberdade, Jefferson também foi responsável por um plantel com mais de 600 escravizados.
Inclusive, uma delas é Sally Hemings, que foi escravizada por Jefferson e gerou vários de seus filhos desde que se conheceram em Paris, quando ela tinha 14 anos. O descendente critica a figura ambígua e controversa que é seu antepassado.
Thomas Jefferson e a escravidão
Enquanto ThomasJefferson escrevia: “que todos os homens são criados iguais” e “Vida, Liberdade e a busca da Felicidade”, também era responsável por administrar suas fazendas com mais de 600 pessoas escravizadas. Diante dessa contradição, LaNier diz:
Gostaria que ele tivesse feito mais para libertar as pessoas escravizadas e praticar o que realmente pregava, […] Eu sei que ele tentou, mas ele era o homem mais poderoso do país e ele poderia ter feito mais e ele estava vivendo uma vida dupla, então é lamentável. Às vezes agradeço o que ele fez por este país e o quanto ele foi um gênio,[…] Outras vezes odeio o que ele fez e que não fez mais, e os aspectos hipócritas, porque poderíamos estar muito mais adiantados como sociedade se ele tivesse feito o que era certo em vez do que era lucrativo.”
Atualmente com 47 anos, o descendente da escravizada Sally Hemings e de Jefferson, LaNier é uma personalidade televisiva, ator, influenciador de mídia social e palestrante público.
A turma começou a rir, e o professor disse para o aluno não “dizer mentiras”. Vale mencionar que LaNier é considerado na sociedade americana um homem negro. Mas a mãe do garoto apareceu na escola no dia seguinte e comprovou a descendência. LaNier complementa:
Isso me ajudou a entender a importância de saber quem sou, ser forte na crença de quem sou e não deixar que os outros me definam.”
Esquecimento histórico
Porém, uma coisa que notou com os enormes monumentos ao pai fundador, foi a falta de sua sexta bisavó na história. Conforme a The Guardian, Hemmings aceitou voltar à escravidão, mesmo estando em território livre para poder libertar os próprios filhos.
Sabemos mais sobre Jefferson mas temos que dar crédito a Sally Hemings. É por ela que sabemos quem somos hoje, que não escondeu a história dos filhos, que pôde negociar para que os filhos tivessem liberdade aos 21 anos, que pôde contar sua história e ter certeza de que pudemos contar nosso nosso histórias.”
Pintura rara de Sally Hemings – Wikimedia Commons
O ator destacou que está ciente das “tentativas da direita de reformular a narrativa americana em torno de heroicos homens cristãos brancos, deixando de lado as diversas realidades das origens da nação”. Mas adiciona que não são só os brancos que construíram o país, e diz:
É importante que as pessoas saibam o quanto as pessoas de cor estavam envolvidas na fundação deste país, que não teríamos um aniversário de 250 anos sem que as pessoas de cor escravizassem e trabalhassem constantemente.”
Ele conclui: “Quem eles acham que construiu a Casa Branca? Quem eles acham que estava ajudando Jefferson com tudo quando ele estava escrevendo a Declaração de Independência? Ele tinha pessoas correndo e controlando sua plantação. Todas essas coisas fazem parte da fundação deste país e ele continua tentando ser caiado de branco ou esquecido.”
*Sob supervisão de Éric Moreira
Historiador em formação que troca qualquer "sextou" por fofocas de época e análise econômica. Traduzo o mundo via cultura, provando que o passado é o melhor spoiler do presente. Quer entender como a engrenagem realmente gira? O convite para a viagem está nos meus artigos: