Matérias / Robin Hood

O mistério por trás do suposto túmulo de Robin Hood na Inglaterra

Epitáfio contestado, relatos medievais e investigações arqueológicas alimentam o mistério sobre o possível local de descanso de Robin Hood

Fotografia do suposto túmulo de Robin Hood em West Yorkshire, na Inglaterra / Crédito: Domínio Público

Entre as muitas histórias que cercam Robin Hood, poucas despertam tanta curiosidade quanto o suposto local onde o lendário fora da lei teria sido enterrado.

Localizado na propriedade de Kirklees Park, em West Yorkshire, na Inglaterra, próximo às ruínas do Priorado de Kirklees, o chamado Túmulo de Robin Hood é apontado pela tradição como o local de descanso final do famoso arqueiro.

Apesar da fama do monumento, sua autenticidade permanece alvo de dúvidas entre historiadores e pesquisadores.

Túmulo de Robin Hood em West Yorkshire, na Inglaterra / Crédito: Getty Images

Lenda do assassinato

A associação entre Robin Hood e Kirklees remonta às antigas baladas dedicadas ao personagem. Em “A Gest of Robyn Hode”, considerada uma das mais antigas narrativas preservadas sobre o herói, é relatado que Robin morreu em “Kyrkesley”, após ser assassinado por uma prioresa não identificada e por Sir Roger de Doncaster. No entanto, essa obra não detalha as circunstâncias de sua morte.

Foi uma balada posterior, conhecida como “A Morte de Robin Hood”, registrada pela primeira vez no século 17, que consolidou a versão mais conhecida da história. Segundo esse relato, Robin Hood, já doente, procurou ajuda de uma parente que ocupava o cargo de prioresa em “Churchlees” ou “Kirkly”. Em vez de tratá-lo, ela o teria enganado, realizando um procedimento para retirar seu sangue e permitindo deliberadamente que ele morresse por hemorragia.

Outra versão da mesma balada, registrada pela primeira vez em 1786, acrescenta um episódio que ajudou a fortalecer a tradição sobre seu sepultamento.

Em seus momentos finais, Robin teria disparado uma flecha pela janela do quarto onde estava e ordenado ao companheiro João Pequeno que o enterrasse no local onde ela caísse. A narrativa afirma ainda que a primeira flecha caiu em água corrente, obrigando o arqueiro a lançar uma segunda, que indicaria o local definitivo de seu túmulo.

É justamente nessa tradição que se baseia o monumento existente em Kirklees Park. O túmulo está situado em uma área de floresta privada, a cerca de 650 metros do portão da antiga Abadia de Kirklees. De acordo com a tradição local, esse portão — ainda preservado — seria o lugar onde Robin Hood permaneceu hospedado antes de morrer.

Inscrição no monumento

Fotografias da inscrição / Crédito: Domínio Público / Licença Creative Commons/Ricardo

No monumento há um epitáfio que identifica o local como sendo a sepultura do lendário arqueiro. A inscrição preservada na pedra diz:

“Ouça debaixo de dis laitl stean
Laz robert conde de Huntingtun
Ne’er arcir ver az hie sa geud
An pipl Kauld im robin heud
Sick utlawz az hi an iz men
Vil inglaterra nivr si agen
Obiit 24 Kal Dekembris 1247”

Segundo a interpretação apresentada pela tradição, o texto corresponderia ao seguinte significado em português, a partir da tradução direta do inglês moderno:

“Aqui, sob esta pequena pedra,
jaz Robert, Conde de Huntingdon.
Nunca houve arqueiro tão bom quanto ele,
e o povo o chamava de Robin Hood.
Foras da lei como ele e seus homens,
a Inglaterra jamais verá novamente.
Falecimento: 24 de dezembro de 1247 d.C.”

Apesar da fama da inscrição, especialistas questionam sua autenticidade. O historiador Maurice Keen classificou o epitáfio como “claramente espúria“, observando que o idioma utilizado não corresponde a nenhuma variedade de inglês efetivamente falada em qualquer período histórico. Ele também destacou que a data registrada, “24 Kal Dekembris”, não existe no calendário.

Um texto praticamente idêntico ao gravado na pedra foi encontrado entre os documentos de Thomas Gale, Deão de York, após sua morte em 1702. Outro epitáfio muito semelhante aparece anexado à balada “The True Tale of Robin Hood”, publicada por Martin Parker em 1632.

Registros antigos

Vista por dentro do suposto túmulo de Robin Hood / Crédito: Licença Creative Commons/Nigel Homer

Embora a inscrição seja considerada provavelmente falsa, isso não significa que jamais tenha existido um marco funerário naquele local. Registros históricos sugerem que uma lápide já poderia estar ali desde o século 16, segundo a BBC.

Na obra ‘Collectanea’, compilada na década de 1530, John Leland já mencionava a tradição de que Robin Hood estaria enterrado nas proximidades do Priorado de Kirklees. A primeira referência mais direta à existência de uma pedra funerária aparece, entretanto, na ‘Chronicle at Large’, de Richard Grafton, publicada em 1569.

Segundo Grafton, após a morte de Robin Hood, a prioresa teria determinado seu enterro à margem da estrada e colocado sobre a sepultura uma pedra ornamentada, gravada com os nomes de Robert Hood, William de Goldesborough e outras pessoas.

O cronista também afirmou que havia cruzes de pedra nas extremidades do túmulo, visíveis em sua época. No entanto, Grafton registrou o nome do priorado como “Bircklies”, provavelmente em razão de uma leitura equivocada, o que levanta dúvidas sobre a precisão de seu relato.

No início do século 17, a tradução inglesa da obra ‘Britannia’, de William Camden, feita por Philemon Holland em 1607, também mencionava, ainda que brevemente, o túmulo de Robin Hood nas proximidades do Priorado de Kirklees.

Degradação e escavações

Fotografia da área em que está o suposto túmulo de Robin Hood / Crédito: Licença Creative Commons/Humphrey Bolton

Ao longo dos séculos seguintes, diversos estudiosos registraram observações sobre o monumento. Um desenho elaborado por Nathaniel Johnston em 1665 mostra uma pedra com a mesma inscrição descrita por Grafton. Já no início do século 18, Ralph Thoresby relatou que conseguiu ver a pedra, embora afirmasse que a inscrição já estivesse quase ilegível.

Em 1786, Richard Gough descreveu o monumento como estando “quebrada e muito desfigurada, a inscrição ilegível”. Segundo ele, um antigo proprietário das terras chegou a escavar o local e concluiu que o solo abaixo da pedra jamais havia sido perturbado, o que colocaria em dúvida a existência de um sepultamento. Gough também observou que a pedra existente em sua época não correspondia exatamente àquela descrita por Grafton.

Atualmente, o monumento encontra-se cercado por um pequeno muro de pedra e uma cerca. A estrutura teria sido instalada no século 19 para impedir que trabalhadores da região retirassem fragmentos da lápide, que acreditavam possuir propriedades capazes de aliviar dores de dente. Ainda assim, existe a possibilidade de que a pedra já estivesse protegida antes desse período.

O interesse pelo suposto túmulo permanece até hoje. Em 2015, a equipe do programa de televisão ‘Expedition Unknown’ realizou uma investigação no local utilizando radar de penetração no solo para tentar verificar a existência de um sepultamento. O exame, contudo, não encontrou sinais de movimentação do terreno que indicassem a presença de um enterro sob o monumento.

Sem evidências arqueológicas conclusivas e diante das inconsistências apontadas por historiadores, o Túmulo de Robin Hood continua cercado de dúvidas. Ainda assim, o monumento permanece como um dos principais símbolos da tradição associada ao lendário arqueiro inglês, preservando um dos maiores mistérios ligados à figura que atravessou séculos entre a história e o folclore.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.