Notícias / Arqueologia

Túmulo de gêmeos de 1.200 anos é encontrado perto de templo na Turquia

Sepultamento bizantino descoberto próximo ao Templo de Ártemis revelou dois bebês prematuros, um deles com uma rara costela extra

Sepultameto de dois bebês encontrado na Turquia / Crédito: Divulgação/OeAW-OeAI/L. Zabrana

A descoberta de uma tumba com os restos mortais de dois bebês, possivelmente gêmeos prematuros, chamou a atenção de arqueólogos em Éfeso, na atual Turquia. Datado de aproximadamente 1.200 anos, o sepultamento foi localizado nas proximidades do antigo Templo de Ártemis e revelou características consideradas raras pelos pesquisadores, incluindo a presença de uma costela extra em um dos indivíduos.

O estudo sobre o achado foi publicado em 13 de julho na revista Childhood in the Past e reúne análises conduzidas por especialistas da Academia Austríaca de Ciências. Segundo os pesquisadores, embora a sepultura tenha sido encontrada em uma antiga latrina desativada, o contexto indica que o local foi escolhido com a intenção de oferecer proteção aos bebês após a morte.

Descoberta

Os restos foram encontrados dentro de uma cista — estrutura funerária revestida por pedras — instalada em um canal de uma latrina que havia deixado de ser utilizada. A instalação sanitária foi construída entre os séculos 2 e 3 como um acréscimo a um odeão romano erguido no século 1, localizado na área sagrada do célebre Templo de Ártemis, monumento originalmente construído por volta de 550 a.C. e reconhecido como uma das Sete Maravilhas do Mundo Antigo.

Ao abrirem a sepultura, os arqueólogos encontraram dois pequenos esqueletos depositados lado a lado. Com base principalmente nas dimensões dos ossos, os pesquisadores estimaram que ambos pertenciam a bebês que provavelmente nasceram de forma prematura, entre a 33ª e a 34ª semanas de gestação — aproximadamente sete meses e meio de gravidez.

“A hipótese de que eram gêmeos baseia-se no fato de terem idades muito semelhantes na época da morte e terem sido enterrados em contato direto um com o outro”, explicou Caroline Partiot, bioarqueóloga da Academia Austríaca de Ciências e coautora do estudo, ao Live Science. “No entanto, só será possível confirmar se eram realmente gêmeos por meio de futuras análises de DNA.”

Embora não tenham sido identificados sinais de trauma ou doenças nos esqueletos, um dos bebês apresentava uma característica anatômica incomum: uma costela cervical supranumerária, um osso extra localizado na região posterior do pescoço. Essa condição hereditária ocorre em cerca de 1% da população e, normalmente, não provoca complicações.

No entanto, Partiot observou que, em recém-nascidos, a presença dessa estrutura costuma estar associada a alterações nos chamados genes Hox, responsáveis pelo desenvolvimento de diferentes partes do corpo durante a fase embrionária. Essas alterações podem estar relacionadas a natimortos, partos prematuros ou morte súbita infantil.

Segundo os autores, não há registro anterior de gêmeos com essa característica identificados em contexto arqueológico.

Área em que os bebês foram encontrados / Crédito: Divulgação/OeAW-OeAI/L. Zabrana

Mais informações

Além da raridade biológica, os pesquisadores também destacaram o contexto funerário do achado. Diferentemente de outros sepultamentos conhecidos em Éfeso, realizados em cemitérios localizados fora da área do antigo templo, os dois bebês foram enterrados em um espaço considerado incomum.

Os estudiosos sugerem que essa escolha pode estar relacionada ao fato de as crianças terem morrido antes do nascimento completo ou logo após o parto, possivelmente sem terem recebido o batismo. De acordo com essa interpretação, o local de sepultamento representaria uma solução intermediária entre as práticas funerárias cristãs da época e costumes locais ainda preservados.

A equipe também investigou a possibilidade de localizar os restos da mãe dos bebês, mas não encontrou evidências de seu sepultamento nas proximidades nem no cemitério conhecido de Éfeso.

“É possível que ela tenha morrido na mesma época, mas também é possível que não; é difícil dizer”, afirmou Partiot. “Tanto a mortalidade infantil quanto a materna eram muito altas naquela época.”

Apesar do local incomum, a estrutura de pedra utilizada no enterro garantiu a preservação dos esqueletos por mais de um milênio. Para os arqueólogos, esse cuidado demonstra que os bebês receberam um sepultamento respeitoso, repercute o Live Science.

“Indica claramente que se tratava de um enterro respeitoso, e não do descarte de restos mortais”, afirmou Lilli Zabrana, arqueóloga da Academia Austríaca de Ciências e coautora do estudo.

Na avaliação dos pesquisadores, a descoberta evidencia a preocupação da família em oferecer um local adequado para os dois bebês, reconhecendo seu breve lugar dentro da comunidade mesmo diante das elevadas taxas de mortalidade registradas durante o período bizantino.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.