Moeda de imperador romano separatista é descoberta na Inglaterra
Moeda cunhada em homenagem a Carausios, separatista que governou a Britânia no século 3, foi descoberta durante obras ferroviárias na Inglaterra

Uma moeda de prata cunhada em nome de Carausius, militar romano que se autoproclamou governante da Britânia no século 3 d.C., foi descoberta durante escavações arqueológicas realizadas ao longo do traçado da futura Ferrovia Leste-Oeste, na Inglaterra. O achado foi feito nos condados de Bedfordshire e Cambridgeshire e oferece novas evidências sobre um dos períodos mais conturbados da presença romana na região.
O artefato é um denário datado de 287 d.C. e leva o nome de Carausius, que governou um estado separatista formado pela Britânia e pelo norte da Gália entre 286 e 293. Além da moeda, os arqueólogos localizaram um vaso do final da Idade do Ferro, fragmentos de cerâmica e uma segunda moeda que, segundo a equipe, provavelmente foi cunhada durante os reinados de Antonino Pio (138 – 161) ou Marco Aurélio (161 – 180).
Carausius foi um oficial naval romano encarregado de combater ataques de piratas no Mar do Norte. Em vez de apenas enfrentar os invasores, porém, ele passou a se apropriar dos tesouros obtidos pelos saqueadores, despertando a oposição do coimperador Maximiano. Para escapar da punição, rompeu com Roma e estabeleceu seu próprio governo na Britânia.
Durante os sete anos em que permaneceu no poder, Carausius ordenou a produção de diversas moedas utilizadas como instrumento de propaganda política. Segundo o historiador Adam Rogers, em artigo publicado pelo The Conversation em 2017, essas peças foram cunhadas “para fins de propaganda, enfatizando temas como a agricultura local e a produção de riqueza, que teriam sido essenciais para a sobrevivência da Grã-Bretanha fora do Império Romano”.
Descoberta da moeda
A descoberta ocorreu durante as investigações arqueológicas promovidas pela East West Railway Company antes do início das obras da Ferrovia Leste-Oeste, projeto destinado a conectar as cidades inglesas de Oxford e Cambridge.
“Sabemos, por outros projetos nas proximidades, que esta parte da Grã-Bretanha possui um rico patrimônio arqueológico, e não nos decepcionamos”, afirmou Mike Court, responsável pelo patrimônio histórico da East West Rail, à Fox News Digital. “Ao concluirmos o projeto, esperamos encontrar vestígios arqueológicos da maioria, senão de todos, os períodos da história e pré-história britânicas.”
Antes do início da construção, os arqueólogos abriram cerca de mil trincheiras de teste, áreas utilizadas para avaliar rapidamente a presença de vestígios históricos. A empresa prevê que outras seis mil trincheiras sejam investigadas nos próximos dois anos.
Segundo a East West Rail, o trabalho é realizado em parceria com proprietários rurais e comunidades locais para reduzir os impactos das escavações.
“Estamos trabalhando em estreita colaboração com os proprietários de terras e as comunidades locais durante todo o processo para minimizar os transtornos, manter as pessoas informadas e restaurar as terras o mais próximo possível de sua condição anterior, assim que as obras forem concluídas”, afirmou Jorn Pace, gerente de programa da East West Rail.
As pesquisas realizadas ao longo do traçado ferroviário já revelaram outros achados relevantes, incluindo um cemitério da Idade do Bronze com cerca de quatro mil anos, fósseis dos períodos Jurássico e Cretáceo, além de broches e pulseiras antigas.

Entendendo a história local
De acordo com Court, a moeda de Carausius possui importância especial porque permite datar com precisão o contexto arqueológico do local. Outras evidências encontradas nas proximidades indicam que a área pode ter abrigado um assentamento romano.
Embora os registros sobre Carausius sejam limitados, sua trajetória é conhecida principalmente por fontes escritas, imagens de propaganda e inscrições presentes em moedas e medalhões. Nascido na região correspondente à atual Bélgica, ele ganhou destaque militar ao auxiliar Maximiano no combate a tribos germânicas antes de assumir o comando da Classis Britannica, a frota romana baseada na Britânia.
Segundo o biógrafo Simon Elliott, em entrevista publicada pela Military History Quarterly em 2022, “No entanto, Carausius provou ser tão bem-sucedido que muitos na corte ficaram com inveja e começaram a virar o imperador contra ele”.
Após romper com Roma, Carausius consolidou seu domínio na Britânia e criou casas da moeda em Londres e Colchester. Conforme destaca o Museu de Malton, essas oficinas produziram moedas de ouro e prata de elevada qualidade, contrastando com a cunhagem depreciada dos imperadores Diocleciano e Maximiano.
O domínio de Carausius terminou em 293, quando Constâncio, genro de Maximiano, conquistou o assentamento britânico de Gesóriacum. No mesmo ano, Carausius foi assassinado por Alecto, provavelmente seu ministro das finanças. Alecto assumiu o controle da Britânia, mas permaneceu no poder por pouco tempo, já que Constâncio retomou definitivamente a região em 296, segundo a Smithsonian Magazine.
Para Simon Elliott, a revolta teve consequências duradouras para a história da província romana. “Antes da usurpação de Carausius, o centro imperial estava ficando cansado da problemática Grã-Bretanha, mas, tendo se comprometido a recapturá-la de Carausius e Allectus (para não perder a face), sair não era uma opção a curto prazo”, disse à Military History Quarterly. “A revolta manteve a Grã-Bretanha no mapa imperial por pelo menos mais um século.”