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Células maternas podem permanecer no cérebro dos filhos até o fim da vida

Novo estudo analisou o fenômeno do microquimerismo, que é quando um indivíduo carrega uma pequena quantidade de células geneticamente distintas das suas

Imagem ilustrativa - Crédito: Getty Images

Pesquisadores que se propuseram a estudar o fenômeno do microquimerismo (quando um indivíduo carrega uma pequena quantidade de células geneticamente distintas das suas) apontaram em novo estudo que, durante a gestação humana, ocorre um intercâmbio de células. Conforme artigo publicado no site bioRxiv, as células da mãe são capazes de atravessar a placenta e se instalar no cérebro do feto, podendo permanecer ali por décadas — talvez até o fim da vida.

Estudos anteriores já haviam apontado que mães podem carregar células de seus filhos mesmo muitos anos após a gravidez. No entanto, ainda não havia evidências de que o oposto também ocorria.

A fim de investigar essa possibilidade, pesquisadores liderados por Sami Kanaan, do Fred Hutchinson Cancer Center, em Seattle (Estados Unidos), promoveram a análise de amostras de tecido cerebral retiradas de 37 crianças submetidas a cirurgias para tratar epilepsia grave. No caso das mães foram analisadas amostras de DNA. No fim foram encontradas células maternas nas células cerebrais de 26 dos 37 pacientes, ou 70%. Essas células, vale mencionar, foram identificadas em diferentes partes do cérebro, como os lobos frontal, temporal e parietal, e mesmo do hipocampo, uma região importante para a formação de memórias. As informações são do portal Galileu.

Sequenciamento de RNA

Os cientistas usaram então a técnica de sequenciamento de RNA de núcleo único para tentar entender a função dessas células, O método em questão, que permite identificar quais genes estão ativos, revelou que elas não ficam “adormecidas”. Na verdade, ao longo do desenvolvimento do cérebro, acabam por diferenciar-se em múltiplos tipos celulares, como neurônios, oligodendrócitos, astrócitos, células da microglia, que atuam na defesa imunológica do órgão, além de células endoteliais, que revestem os vasos sanguíneos.

Por fim, os cientistas decidiram analisar amostras de autópsias cerebrais de 32 indivíduos sem doenças neurodesenvolvimentais conhecidas. Foram analisadas desde células de um feto de 22 semanas de gestação até amostras encontradas em uma pessoa com mais de 90 anos de idade. O que se descobriu foi que células geneticamente diferentes estavam presentes em 25 desses 32 cérebros, ou 78% dos indivíduos. Infelizmente, a equipe não conseguiu confirmar a origem dessas células, já que, nesse caso, o DNA das mães não estava disponível. Apesar disso, os pesquisadores acreditam que todos os casos estejam ligados ao microquimerismo materno.

A conclusão dos cientistas é que essas células podem persistir durante toda a vida. Embora sua quantidade diminua com a idade, elas não desaparecem completamente. Além disso, o estudo também observou que, em cérebros mais jovens, essas células tendiam a se transformar principalmente em neurônios. Já em pessoas mais velhas, predominavam células da microglia, envolvidas na resposta imunológica do sistema nervoso.

Até o momento, não é possível dizer com certeza qual é o papel dessas células no funcionamento do cérebro, mas os cientistas consideram algumas hipóteses. É possível que elas contribuam para o desenvolvimento saudável do órgão ou mesmo que participem da resposta imunológica. Outra possibilidade é que elas influenciem doenças neurológicas. Também é importante ressaltar que a pesquisa não passou por uma revisão por pares e que, por isso, seus resultados devem ser interpretados com cautela.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.