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Marco Aurélio: a única estátua equestre romana que sobreviveu

Escultura em bronze de Marco Aurélio resistiu aos séculos e foi preservada — e restaurada por Michelangelo — por engano, tornando-se uma raridade histórica em Roma

A estátua equestre de Marco Aurélio / Crédito: Getty Images

A estátua equestre do imperador Marco Aurélio é uma das obras mais emblemáticas da Antiguidade romana e, ao mesmo tempo, um caso raro de sobrevivência ao longo dos séculos. Trata-se da única escultura em bronze, em tamanho maior que o natural, de um imperador romano pagão que chegou intacta aos dias atuais — um feito notável, considerando a ampla destruição e reaproveitamento de obras semelhantes ao longo da história.

Produzida no século 2 d.C., a escultura segue uma tradição comum no Império Romano: a representação de líderes a cavalo como símbolo de poder, autoridade e comando militar. Ainda assim, o monumento se destaca por suas particularidades. Com cerca de 4,24 metros de altura, a estátua hoje integra o acervo dos Museus Capitolinos, em Roma, onde permanece preservada, enquanto uma réplica ocupa seu antigo local na Piazza del Campidoglio.

Estátua equestre de Marco Aurélio / Crédito: Getty Images

Imperador Marco Aurélio

Marco Aurélio governou o Império Romano entre 161 e 180 d.C., período que marca o final da Pax Romana, uma era de relativa estabilidade que se estendeu por cerca de dois séculos. Apesar disso, seu reinado foi marcado por conflitos militares nas fronteiras do império e por crises internas, repercute o Live Science. Entre os episódios mais graves está a chamada Peste Antonina, que se espalhou entre 165 e 180 d.C. e teria causado milhões de mortes.

A escultura equestre provavelmente foi erguida em 176 d.C., possivelmente para celebrar as vitórias de Marco Aurélio sobre povos germânicos e sármatas durante as Guerras Marcomanas. Há também a hipótese de que tenha sido inaugurada pouco após sua morte, em 180. Independentemente da data exata, a obra apresenta uma escolha iconográfica incomum para um imperador vitorioso.

Na estátua, Marco Aurélio aparece em pose de “adlocutio”, gesto clássico em que o líder ergue o braço direito como se discursasse para suas tropas. No entanto, diferentemente de outras representações militares, ele não veste armadura nem exibe armas. A imagem sugere mais um governante conciliador do que um comandante em campo de batalha. O cavalo, por sua vez, é montado sem estribos — tecnologia que ainda não havia sido difundida no Ocidente à época.

Essa abordagem reforça a imagem de Marco Aurélio como um governante-filósofo. Conhecido por sua inclinação ao estoicismo, ele é autor da obra ‘Meditações’, um conjunto de reflexões pessoais sobre ética, disciplina e autoconhecimento que continua relevante até hoje. Sua representação com barba cheia também carrega significado simbólico, associando-o à tradição dos filósofos gregos.

Busto e estátua equestre de Marco Aurélio / Crédito: Getty Images

Estátua rara

Apesar de registros históricos indicarem que Roma possuía ao menos duas dezenas de estátuas equestres monumentais — conhecidas como equi magni —, nenhuma outra escultura desse tipo sobreviveu. A maioria foi derretida ao longo do tempo, especialmente durante o declínio do Império Romano e a Idade Média, quando o bronze era reaproveitado para a produção de moedas ou novas obras.

A sobrevivência da estátua de Marco Aurélio é frequentemente atribuída a um equívoco histórico. Acredita-se que, durante séculos, ela tenha sido confundida com a imagem de Constantino, o Grande, o imperador que legalizou o cristianismo no século 4. Por ser uma figura associada à nova religião dominante, sua imagem teria sido preservada, evitando que a escultura fosse destruída como outras representações pagãs.

Os primeiros registros documentais da localização da estátua datam do século 10, quando ela se encontrava no Palácio de Latrão, em Roma — residência papal por muitos séculos. Já no século 16, a obra foi transferida para o Monte Capitolino, onde passou por um processo de restauração conduzido por Michelangelo. O artista renascentista também foi responsável por redesenhar a praça onde a escultura foi instalada, integrando-a a um novo projeto urbano.

Hoje, a estátua original é mantida em ambiente controlado nos Museus Capitolinos, enquanto a réplica colocada na praça garante a preservação do conjunto arquitetônico idealizado por Michelangelo. A obra segue sendo um dos mais importantes testemunhos da arte romana antiga, não apenas por sua qualidade estética, mas também por sua excepcional sobrevivência.

Mais do que um monumento, a estátua equestre de Marco Aurélio oferece um raro vislumbre das formas de representação do poder na Roma antiga e das complexas trajetórias que objetos históricos podem percorrer ao longo dos séculos.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.