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Arqueólogos podem ter desvendado mistério de antiga estátua romana de mármore

Descoberta em 2003, estátua de mármore representa cabeça de mulher não identificada; agora, pesquisadores acreditam ter desvendado sua identidade

Imagens de estátua romana de mármore / Crédito: Divulgação/Heritage Science/AB Biernacki/Klenina et al.

Há mais de duas décadas, arqueólogos que trabalhavam nas escavações no sítio histórico de Chersonesos Taurica, localizado nas proximidades de Sevastopol, na Península da Crimeia, encontraram uma rara estátua em mármore que retrata a cabeça de uma matrona desconhecida. Recentemente, pesquisadores conseguiram desvendar a identidade dessa mulher da Roma Antiga.

Em um artigo publicado no mês passado na revista npj Heritage Science, os autores identificaram a figura como Laodice, uma mulher de elite pertencente a uma das famílias mais influentes de Chersonesos durante o século 2 d.C.

Segundo a UNESCO, Chersonesos foi fundada como uma colônia grega no século 5 a.C. e posteriormente tornou-se um “posto avançado dos Impérios Romano e Bizantino“, atuando como um dos pontos de contato mais remotos entre as civilizações mediterrâneas e as populações “bárbaras” do sudeste europeu.

A expedição arqueológica ucraniano-polonesa liderada por Elena Klenina e Andrzej B. Biernacki — co-autores do estudo — encontrou a estátua de Laodice em 2003. A equipe estava encarregada de escavar uma antiga residência na parte ocidental de Chersonesos, onde também desenterrou uma moeda da cidade, um altar cerâmico com representações dos deuses Ártemis e Apolo, além de diversos artefatos cerâmicos datados até o século 4 a.C.

A descoberta mais intrigante foi a semelhança em mármore da cabeça de uma mulher, que parecia ter sido separada de uma escultura completa. A obra retratava uma mulher mais velha com um rosto ovalado, olhos alongados e um elegante penteado helenístico. Os arqueólogos imediatamente reconheceram a importância da estátua.

Os autores do estudo escreveram no artigo: “O retrato da escultura de mármore em questão foi inicialmente desenterrado em um estado imaculado de preservação, sendo a primeira descoberta desse tipo firmemente inserida em um contexto arqueológico claro.”

Identificando a estátua

Os pesquisadores empregaram uma abordagem interdisciplinar para investigar mais sobre a estátua. Análises de datação por radiocarbono e isótopos revelaram que o mármore proveniente da ilha grega de Paros, enquanto uma análise dos vestígios das ferramentas indicou que o escultor utilizou 11 instrumentos diferentes.

A chave para identificar a mulher foi uma inscrição encontrada em um pedestal, redescoberta nos arquivos do Museu Arqueológico de Odessa, na Ucrânia, conforme relata Richard Whiddington da Artnet. O pedestal apresenta estilo e proveniência compatíveis com a estátua. De acordo com registros históricos, apenas uma estátua foi erguida em Chersonesos em homenagem a uma mulher naquela época, permitindo aos pesquisadores conectar os dois fragmentos em mármore.

A inscrição no pedestal indica que Laodice era filha de Heroxenos e esposa de Titus Flavius Parthenokles, membro de uma das famílias mais poderosas da cidade. Ao longo de sua carreira, Titus Flavius ocupou diversas posições no governo local.

Os pesquisadores acreditam que Laodice pode ter desempenhado um papel importante na conquista do status altamente almejado de eleutheria por Chersonesos por volta de 140 d.C., o que concedeu à antiga cidade a autonomia para administrar seus próprios assuntos, emitir moeda e coletar impostos. Os autores do artigo “assumem cautelosamente” que o papel de Laodice na obtenção do autogoverno inspirou a cidade a erguer uma estátua em sua homenagem com uma inscrição laudatória.

Completamente erguida, a estátua provavelmente alcançava cerca de dois metros de altura, sugerindo que foi criada para celebração e exibição pública, conforme repercute a Smithsonian Magazine.

A descoberta da identidade de Laodice e seu papel na antiga Chersonesos traz implicações significativas para o entendimento dos historiadores sobre essa era do Império Romano. Os autores do estudo concluem: “As descobertas deste estudo demonstraram que as matronas exerceram influência significativa e desempenharam um papel ativo na vida política, tanto dentro dos limites de Roma quanto além de suas fronteiras nos primeiros séculos d.C.”

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.