Casulos de 4 mil anos provam que a seda precedeu a Rota da Seda na Ásia
Estudo no Uzbequistão encontra casulos do bicho-da-seda datados de 1940 a.C., provando que a produção têxtil cruzou fronteiras muito antes do esperado

A história da globalização ganhou um novo capítulo com a descoberta de que a produção de seda na Ásia Central começou milênios antes do previsto. Pesquisadores identificaram três casulos do bicho-da-seda (Bombyx mori) no sítio arqueológico de Sapalli Tepe, no Uzbequistão, datados entre 1940 e 1765 a.C..
O achado sugere que a técnica de criação desses insetos, conhecida como sericicultura, chegou à região quase 2.000 anos antes do florescimento da tradicional Rota da Seda, desafiando a cronologia aceita por historiadores.
Ciência reescreve o passado
De acordo com o periódico Science Advances, a análise utilizou técnicas avançadas de proteômica e datação por radiocarbono para confirmar a espécie e a idade exata dos vestígios. Diferente de outras regiões que utilizavam variedades selvagens, os casulos encontrados pertencem à espécie domesticada, a mesma ainda utilizada na indústria têxtil atual.
Para contextualizar o achado, Sapalli Tepe é um importante assentamento da Idade do Bronze localizado no sul do Uzbequistão, em que as condições climáticas extremamente secas permitiram a preservação desses materiais frágeis por quatro milênios.
Provas escondidas no carvão
Além dos casulos, a equipe liderada por pesquisadores como Xinying Zhou e Hui Shen encontrou fragmentos de carvão vegetal de amoreiras no mesmo local. Conforme o estudo publicado pela Science Advances e difundido pela Archaeology News, as folhas dessa árvore são a fonte obrigatória de alimento do bicho-da-seda domesticado, o que confirma que a criação dos insetos era feita localmente e não se tratava apenas do comércio de tecidos prontos vindos de fora.

Essa evidência é acompanhada pela identificação de ferramentas de tecelagem e restos de milho-miúdo, reforçando a imagem de um centro agrícola e fabril sofisticado na região.
Novas rotas de comércio
A pesquisa levanta a hipótese de que o conhecimento sobre a produção de seda se espalhou da China para a Ásia Central através das encostas sul do Himalaia. Embora a narrativa tradicional ligue o material exclusivamente ao período das dinastias Han e Romana, os novos dados inserem esse produto em redes de troca muito mais antigas.
Para o arqueobotânico do Instituto Max Planck de Geoantropologia, Robert N. Spengler, um dos autores do trabalho, a união de diferentes métodos científicos foi essencial para compreender como ocorreu essa expansão geográfica. O especialista destaca que:
“Esta pesquisa multidisciplinar reescreve a enigmática história da sericicultura primitiva e sua globalização”.
Com isso, as antigas amoreiras encontradas no Uzbequistão tornam-se provas de um intercâmbio cultural profundo que moldou o continente muito antes das famosas caravanas comerciais dominarem os desertos asiáticos.
*Sob supervisão de Éric Moreira