Matérias / Mundo

Conheça Centralia, a cidade fantasma que, desde 1962, se encontra em chamas

A pequena cidade de Centralia que, no passado, era conhecida pela atividade mineradora, conta hoje com apenas 6 residências e uns poucos moradores

Incêndio subterrâneo em Centralia, Pensilvânia, está queimando há 60 anos - Crédito: Getty Images

No estado da Pensilvânia, nos EUA, existe uma pequena cidade chamada Centralia onde hoje restam apenas seis casas. No passado, existiu no local uma próspera comunidade mineradora, mas um incêndio subterrâneo que começou há mais de seis décadas — e que continua queimando até hoje —, acabou por obrigar a evacuação da população. Foi assim que Centralia se tornou praticamente uma cidade fantasma.

Fundada sobre uma vasta reserva de carvão, a cidadezinha viveu seu auge nas primeiras décadas do século 20, quando contava com 14 minas em operação e cerca de 2.500 habitantes viviam em seu interior. No entanto, com o passar dos anos, a atividade mineradora entrou em declínio e muitas minas foram desativadas. Conforme informações do portal All That’s Interesting, no início da década de 1960, aproximadamente mil pessoas continuavam vivendo na cidade, sem imaginar que o que estava por vir.

Fogo subterrâneo

Em maio de 1962, autoridades do conselho municipal reuniram-se para discutir como limpar o aterro sanitário local antes das celebrações do Memorial Day. A solução escolhida parecia simples: incendiar o lixo para reduzir seu volume. O Corpo de Bombeiros revestiu a área com material resistente ao fogo e ateou as chamas na noite de 27 de maio. Depois que os resíduos foram consumidos, as brasas foram apagadas com água, e tudo indicava que o problema havia sido resolvido.

Não estava. Poucos dias depois, o fogo voltou a aparecer e os bombeiros tiveram de retornar diversas vezes ao local até notarem que havia um grande buraco escondido sob o lixo. A abertura levava diretamente à extensa rede de túneis escavados durante décadas de mineração. Eles descobriram que as chamas haviam alcançado uma camada de carvão subterrânea e que estavam se alimentando do combustível natural existente no subsolo. Por isso, um forte cheiro invadia casas e estabelecimentos comerciais, enquanto fumaça escapava por rachaduras no solo.

Mais tarde, uma inspeção confirmou que havia níveis elevados de monóxido de carbono na região, o que indicava que um incêndio se espalhava pelas antigas galerias de mineração. Logo, por questões de segurança. as minas da região foram imediatamente fechadas.

O ex-prefeito da cidade Lamar Mervine no ano 2000 – Crédito: Getty Images

Sem sucesso

Ao longo dos anos seguintes, autoridades estaduais tentaram conter o desastre de diversas maneiras. Um dos primeiros projetos previa abrir enormes trincheiras para alcançar as chamas e extingui-las. Porém os engenheiros erraram na hora de calcular o volume de terra que precisaria ser removido e o resultado foi que os recursos acabaram se esgotando antes da conclusão da obra.

Outra tentativa consistiu em bombear uma mistura de pedra triturada e água para preencher os túneis e sufocar o fogo, mas essa plano também fracassou. O que aconteceu foi que, além das baixas temperaturas, que congelavam equipamentos e tubulações, havia dúvidas se a quantidade de material seria suficiente para ocupar todo o labirinto subterrâneo. No fim, as galerias foram preenchidas apenas até a metade, o que permitiu que as chamas continuassem avançando. Com o orçamento estourado, o projeto foi abandonado.

Mesmo convivendo com o incêndio, muitos moradores permaneceram na cidade durante anos. Alguns até viam vantagens curiosas na situação: o calor vindo do subsolo fazia com que tomates crescessem durante o inverno e impedia o acúmulo de neve em algumas calçadas. Para muitos, abandonar a cidade onde nasceram simplesmente não era uma opção.

Entretanto, com o tempo, os efeitos do fogo se tornaram graves. Na década de 1980, moradores passaram a sofrer intoxicação por monóxido de carbono dentro de suas próprias casas. Além disso, árvores morreram, rachaduras surgiram nas ruas, terreno começou a afundar em diferentes pontos e, então, em 14 de fevereiro de 1981, o solo se abriu sob os pés de Todd Domboski, um garoto então com 12 anos. A criança caiu parcialmente em uma enorme cratera, escapando apenas porque conseguiu segurar uma raiz até ser resgatado pelo primo.

Um risco iminente

Após o incidente, ficou claro para as autoridades que manter a população em Centralia representava um grande risco. Assim, em 1983, depois de gastar milhões de dólares em tentativas fracassadas de extinguir o incêndio, o governo federal destinou US$ 42 milhões para comprar as propriedades, demolir os imóveis e transferir os moradores para outras cidades.

No entanto, nem todos aceitaram deixar suas casas. Durante anos, moradores travaram batalhas judiciais contra o Estado e resistiram às desapropriações. Em 1993, o governo recorreu ao instrumento de domínio eminente para tomar posse das propriedades restantes, mas, mesmo assim, alguns residentes permaneceram no local. Entre eles estava um ex-prefeito da cidade, Lamar Mervine, que morreu em 2010, aos 93 anos de idade, sem nunca deixar sua propriedade.

O acordo definitivo entre o Estado e a população local viria apenas em 2013, quando os moradores resistentes receberam indenizações de US$ 349 mil cada e conquistaram o direito de permanecer em suas residências até o fim da vida. A decisão estabelece que, após a morte dos proprietários, os imóveis passarão definitivamente para o Estado. Estima-se que menos de 5 pessoas ainda vivam no local.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.