Lula translúcida rara é gravada com ovos pela 1ª vez na Groenlândia
Registro inédito em águas congelantes da Groenlândia revela detalhes sobre a reprodução da lula-de-cauda-curta-ártica; veja vídeo!

Em uma expedição nas águas polares do Atlântico Norte, próximo ao Parque Nacional do Nordeste da Groenlândia, cientistas conseguiram registrar em vídeo, de forma inédita, uma lula-de-cauda-curta-ártica (Rossia moelleri) acompanhada de seus ovos.
O animal observado media aproximadamente 10 centímetros de comprimento e apresentava uma coloração iridescente variando entre os tons de roxo e laranja. A descoberta foi detalhada em um artigo científico publicado em 8 de julho na revista Polar Biology.
O registro audiovisual foi obtido por meio de um veículo subaquático operado remotamente, equipamento controlado à distância que possibilita a exploração de ecossistemas profundos sem a necessidade de mergulhadores. Durante a varredura, os pesquisadores observaram a presença do espécime e identificaram três agrupamentos de ovos situados nas proximidades do cefalópode, reunidos em estruturas que se assemelhavam a cachos de uvas.
“Tanto a lula quanto os seus ovos foram registrados a uma profundidade de 50 metros em água com temperatura em torno de -1,6°C. “Isso destaca a resiliência da vida marinha em um dos ambientes mais extremos da Terra”, aponta Paige Maroni, pesquisadora da Universidade da Austrália Ocidental e autora principal do estudo, em entrevista à revista Discover. Confira o vídeo:
Relevância científica
Pertencentes ao grupo dos cefalópodes — ao lado de polvos e sépias —, as lulas funcionam como indicadores eficientes das dinâmicas do meio ambiente devido à rapidez com que reagem às transformações em seu habitat.
Apesar de a ciência contabilizar cerca de 68 espécies de lulas-de-cauda-curta, grande parte delas permanece pouco documentada, em especial as populações que habitam zonas polares profundas. Dessa forma, a filmagem contribui para preencher lacunas de conhecimento acerca da distribuição geográfica, hábitos comportamentais e processos reprodutivos do grupo.
A observação também fornece dados essenciais para avaliar o impacto das transformações do clima no ecossistema polar, visto que o Ártico figura entre as regiões que enfrentam as maiores taxas de aquecimento no planeta.
“A aquisição de conhecimento sobre a biodiversidade nesta região é crucial para a compreensão do funcionamento e da resiliência dos ecossistemas diante das mudanças climáticas aceleradas”, destaca Maroni. “Este estudo fornece uma nova e valiosa base de referência para o monitoramento das mudanças ecológicas no Ártico, que está aquecendo rapidamente.”
A captação das imagens ocorreu durante uma expedição da missão Polar BLAST, realizada no navio da Secret Atlas Micro Cruise e apoiada pela organização Yachts for Science. A iniciativa viabiliza a utilização de barcos particulares para a execução de projetos científicos em áreas isoladas do globo, repercute a Revista Galileu.
“Nossos resultados mostram que a ciência de baixo impacto e o turismo de expedição podem ajudar a preencher grandes lacunas de biodiversidade em regiões polares remotas”, afirma a especialista. “Em ecossistemas polares pouco estudados, mesmo uma única observação verificada pode fornecer informações importantes sobre a distribuição, reprodução e resiliência das espécies às mudanças climáticas.”
Os responsáveis pela pesquisa ponderam que investigações adicionais serão fundamentais para compreender a ecologia da Rossia moelleri. No entanto, o achado consolida um avanço significativo ao documentar aspectos reprodutivos da espécie em um dos cenários marinhos mais inóspitos da Terra.