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Estudo explica como ratos sobrevivem em vulcões congelados a quase 7 mil metros nos Andes

Nova pesquisa identifica adaptações biológicas que permitem aos ratos-de-orelhas-folha andinos viverem a 7 mil metros em vulcões congelados nos Andes

Registro de um rato-de-orelhas-folha andino / Crédito: Divulgação/Marcial Quiroga-Carmona

Cientistas identificaram como ratos conseguem sobreviver em condições extremas nos cumes de vulcões adormecidos e cobertos de gelo na Cordilheira dos Andes, onde vivem em altitudes superiores às consideradas possíveis para mamíferos. O estudo, publicado em 9 de julho na revista Science, revela uma série de adaptações biológicas que permitem aos animais enfrentar baixas temperaturas, escassez de oxigênio e falta de alimentos em uma das regiões mais inóspitas do planeta.

Os pesquisadores concentraram as investigações na região da Puna de Atacama, no Chile, onde vivem exemplares do rato-de-orelhas-folha-andino (Phyllotis vaccarum). A espécie ocupa uma faixa que se estende por mais de 1,6 quilômetro acima do assentamento humano mais elevado do mundo, em um ambiente marcado pelo ar rarefeito, temperaturas extremamente baixas e vegetação escassa.

“Como alpinista no cume desses picos, a ideia de que possa haver animais vivendo nesses ambientes áridos e inóspitos é realmente impressionante”, afirmou Jay Storz, professor de ciências biológicas da Universidade de Nebraska-Lincoln, ao Live Science.

Descoberta inesperada

Em 2020, Storz liderou uma equipe de cientistas especializados em montanhismo que registrou a presença desses roedores a 6.739 metros de altitude, no cume do Llullaillaco, considerado o vulcão historicamente ativo mais alto do mundo, atualmente adormecido, localizado na fronteira entre Chile e Argentina.

Até então, a comunidade científica acreditava que mamíferos não conseguiam sobreviver acima de aproximadamente 5.500 metros sobre o nível do mar. A descoberta alterou esse entendimento, demonstrando que a espécie não apenas alcança essas altitudes, mas também vive em regiões mais baixas.

“Uma das características realmente notáveis dessa espécie em particular é a sua ampla distribuição altitudinal, desde o nível do mar ao longo da costa desértica do norte do Chile até os cumes de alguns dos picos mais altos dos Andes”, explicou Storz.

Para compreender os mecanismos que permitem essa sobrevivência, a equipe estudou exemplares capturados em diferentes altitudes entre 2020 e 2023. As expedições combinaram técnicas de montanhismo e pesquisa de campo, com armadilhas instaladas em diversos pontos das montanhas para registrar e capturar os animais.

Segundo Storz, mesmo alpinistas experientes enfrentam riscos severos durante esse tipo de trabalho. Embora pessoas bem aclimatadas consigam permanecer nessas altitudes por um curto período, ele ressaltou que as condições “não são remotamente compatíveis com a sobrevivência humana a longo prazo”.

Desafios e detalhes

Os desafios também atingiram os integrantes da pesquisa. Em uma expedição realizada no Peru, um dos colegas de Storz precisou ser evacuado após desenvolver edema pulmonar de altitude, uma forma grave de mal da altitude caracterizada pelo acúmulo de líquido nos pulmões.

Após a coleta, parte dos ratos foi encaminhada para laboratórios no Chile, onde os pesquisadores avaliaram seu comportamento em câmaras capazes de simular frio intenso e baixa disponibilidade de oxigênio. Paralelamente, o genoma da espécie foi sequenciado para identificar diferenças entre indivíduos de baixas, médias e elevadas altitudes.

Os resultados mostraram que os animais que vivem nos pontos mais altos apresentam maior eficiência para manter a temperatura corporal e os níveis de oxigênio do organismo em comparação aos indivíduos encontrados em regiões menos elevadas.

As análises genéticas também revelaram outra adaptação importante. Os ratos desenvolveram alterações em genes relacionados à digestão e à desintoxicação de plantas normalmente tóxicas, característica que amplia as opções alimentares em uma região onde a vegetação é extremamente limitada, segundo comunicado divulgado pela Universidade McMaster, no Canadá.

Outro comportamento observado pelos pesquisadores foi a maior atividade dos ratos de alta altitude durante o dia. Segundo a equipe, isso pode estar relacionado tanto às temperaturas mais amenas nesse período quanto à reduzida presença de predadores nesses ambientes.

Apesar dessas adaptações específicas, os cientistas verificaram que as populações distribuídas ao longo da ampla faixa altitudinal permanecem geneticamente muito semelhantes. A constante interação entre indivíduos de diferentes altitudes impede que os grupos das regiões mais elevadas se tornem isolados ou apresentem diferenças genéticas mais marcantes.

Para aprofundar as análises, parte dos animais foi sacrificada de forma humanitária, permitindo o estudo detalhado de seus tecidos. Além disso, a equipe preservou exemplares como registros biológicos permanentes em coleções de museus, onde poderão servir de referência para pesquisas futuras.

Storz destacou que esses espécimes representam um importante patrimônio científico e afirmou que a coleta não compromete a viabilidade das populações naturais da espécie.

Para Graham Scott, professor de biologia da Universidade McMaster, no Canadá, e coautor do estudo, a principal conclusão da pesquisa está na capacidade da evolução de produzir soluções para condições consideradas extremas.

Isso apenas demonstra as maneiras complexas pelas quais a evolução fez desses animais os reis das montanhas”, afirmou Scott.

Segundo o pesquisador, viver em altitudes tão elevadas também pode trazer vantagens. A menor competição por recursos e a escassez de predadores tornam esses ambientes potencialmente favoráveis para os ratos, apesar das condições severas.

Scott observou ainda que aves podem atingir altitudes superiores durante o voo, mas ressaltou que, entre os animais que efetivamente habitam esses ambientes, o rato-de-orelhas-folha-andino ocupa o maior registro conhecido.

“É sempre um pouco difícil precisar a altitude das aves porque, claro, elas podem voar e certamente existem registros de aves voando em altitudes maiores do que essa”, disse Scott. “Mas acreditamos que este seja provavelmente o animal que habita a maior altitude já registrado.”

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.