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Pequenos caracóis arbóreos fazem retorno histórico após 40 anos

Espécie considerada extinta na natureza volta a se reproduzir em florestas da Polinésia Francesa após décadas de esforços em zoológicos

À direita, um caracol arbóreo Partula tohiveana criado em cativeiro; À esquerda, um juvenil recém-nascido - Foto: ZSL / Programa de Caracóis Partula

Uma vitória sem precedentes para a conservação global foi registrada nas florestas da ilha de Moorea, na Polinésia Francesa. Cientistas confirmaram em 2024 a existência de uma população de caracóis arbóreos da espécie Partula tohiveana nascida totalmente em liberdade. 

O pequeno molusco, do tamanho de um amendoim, havia desaparecido do seu habitat natural na década de 1980, sobrevivendo durante quarenta anos apenas sob cuidados humanos em zoológicos ao redor do mundo. Conforme dados publicados pelo portal Science X, este é o primeiro caso registrado de um invertebrado anteriormente declarado extinto na natureza que consegue ser restabelecido em ambiente aberto.

Gráfico mostra a quantidade de exemplares de Partula tohiveana encontrados na natureza entre 2016 e 2024, incluindo conchas e indivíduos vivos. Crédito: Oryx (2026).

Tragédia ambiental passada

A história do desaparecimento desses animais remete a um dos maiores erros de controle biológico da história. No século passado, o caracol-lobo-rosado foi introduzido na ilha para controlar outra espécie invasora, o caracol-gigante-africano. 

No entanto, o predador passou a caçar os caracóis nativos, levando-os ao colapso total nas décadas seguintes. Os caracóis Partula são fundamentais para o ecossistema local, pois atuam na reciclagem de folhas mortas e são considerados modelos biológicos para o estudo da evolução.

Refúgio em zoológicos distantes

Para evitar a extinção total, biólogos criaram arcas de sobrevivência na década de 1990, transportando os últimos exemplares para zoológicos em Londres, Edimburgo e nos Estados Unidos. O esforço de reintrodução começou efetivamente em 2015, com a soltura de milhares de indivíduos criados em cativeiro

Para monitorar o sucesso, os pesquisadores utilizaram pontos de tinta reflexiva que brilham sob luz ultravioleta durante a noite, facilitando a contagem nas árvores nativas.

Vida nova na floresta

O marco histórico ocorreu em setembro de 2024, quando as equipes de campo encontraram quatro adultos e treze jovens que não possuíam as marcações de cativeiro, provando que a espécie voltou a se reproduzir sozinha. O curador Paul Pearce-Kelly afirmou que este é um momento marcante para a espécie:

“Embora pequenos, esses caracóis têm grande valor cultural, científico e de conservação”, declarou o especialista ao destacar o papel da espécie como modelo para outros animais ameaçados.

Quatro exemplares vivos de Partula tohiveana encontrados na natureza em setembro de 2024: (a) adulto maduro; (b) adulto jovem com o lábio da concha parcialmente desenvolvido; (c) adulto maduro; (d) adulto jovem. Barra de escala: 1 cm. Crédito: Justin Gerlach et al./Oryx (2026).

A descoberta foi tão impactante que motivou a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) a alterar o status da espécie de extinta na natureza para criticamente em perigo em 2025. Segundo o estudo divulgado na revista científica Oryx, o foco agora é observar se a população pode crescer sem ajuda humana constante

O biólogo Justin Gerlach, autor principal do estudo, expressou otimismo com o futuro do projeto: “Esperamos que as demais espécies de Partula extintas na natureza também possam ser reestabelecidas”, concluiu o pesquisador.


*Sob supervisão de Éric Moreira

Meu propósito é dar voz a narrativas.