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A Odisseia: 5 cenas da obra clássica que ficaram fora do filme de Nolan

De deuses olimpianos ao truque do Ciclope, confira passagens do épico de Homero que não entraram no novo filme do cinema

Matt Damon em 'A Odisseia' / Crédito: Divulgação/Universal Pictures

Com a recente estreia do novo filme de Christopher Nolan e com Matt Damon como protagonista — além de adaptar uma das obras mais influentes do mundo ocidental, atribuída a Homero —, “A Odisseia”, o interesse pela mitologia clássica voltou a ficar em alta entre o público geral.

O longa-metragem narra a conturbada jornada de dez anos do rei de Ítaca para retornar ao seu lar após o término da Guerra de Troia. Com um elenco estelar que reúne nomes como Tom Holland no papel do filho Telêmaco, Anne Hathaway como a rainha Penélope, Zendaya interpretando a deusa Atena, Charlize Theron como Calipso e Robert Pattinson no papel do vilão Antínoo, a adaptação buscou sintetizar a obra homérica. Veja o trailer:

Traduzir um poema épico composto por 24 livros e cerca de 12 mil versos para a linguagem cinematográfica exigiu cortes e reestruturações significativas, repercute a People. Embora a essência do mito tenha sido preservada, diversas passagens, dinâmicas de personagens e intervenções divinas presentes no texto original de mais de 3 mil anos não chegaram à versão final exibida nos cinemas.

A seguir, confira cinco das mais marcantes cenas e momentos da Odisseia original que foram alteradas ou removidas na visão de Christopher Nolan:

1. Deuses e o submundo

Zendaya em “A Odisseia” / Crédito: Divulgação/Universal Pictures

No texto clássico de Homero, os deuses da mitologia grega atuam como personagens ativos, interferindo diretamente na sorte dos mortais. O trio de irmãos governantes — Zeus, Poseidon e Hades — desempenha papéis cruciais na trama, além de figuras como Hermes, Hélio e Perséfone. O poema inclui, inclusive, a jornada de Odisseu ao submundo, onde o herói se depara diretamente com a figura de Hades.

Na adaptação cinematográfica, contudo, Nolan optou por limitar a aparição física no Olimpo à deusa Atena. Entidades como Zeus e Poseidon são apenas mencionadas ou sugeridas por meio de fenômenos climáticos e tempestades. A descida ao submundo também não foi reproduzida na íntegra.

Ao comentar a decisão de afastar as divindades da tela, o cineasta explicou a opção estética: “Para mim, ter esses deuses distantes com peças de xadrez ou o que quer que seja, todas aquelas coisas que você já viu no passado, parecia alienante. Não se trata tanto de tentar ser realista; trata-se apenas de tentar enxergar os deuses da maneira como esses personagens os teriam visto.”

2. Truque do “Ninguém”

Cenas de ‘A Odisseia’, novo filme de Christopher Nolan – Crédito: Universal Pictures

Um dos momentos mais célebres do texto antigo e da adaptação para o cinema é o confronto entre a tripulação de Ítaca e o gigante Polifemo, filho de Poseidon, na caverna em que os marinheiros são aprisionados. O plano de cegar o único olho do monstro com uma estaca é mantido no longa, mas um detalhe fundamental da astúcia de Odisseu foi cortado por Nolan: o truque do nome falso.

Na obra original, Odisseu afirma ao Ciclope que seu nome é “Ninguém”. Quando o gigante cego clama por socorro aos seus pares gritando que “Ninguém me enganou, ninguém me arruinou!”, os outros ciclopes presumem que ele não está sob ataque de nenhum mortal, permitindo a fuga dos gregos. O herói, no entanto, acaba revelando sua verdadeira identidade ao escapar, provocando a ira de Poseidon.

A ausência do trocadilho no filme foi justificada pelo próprio diretor, que previu a reação dos fãs do mito clássico. “Eu entendo. É um trocadilho. Trocadilhos na tradução são difíceis. Eu tentei. Não foi possível encaixá-lo”, afirmou Nolan ao abordar os desafios de adaptar a piada linguística do grego antigo para o cinema moderno.

3. Bolsa dos ventos

Entre a fuga da caverna do Ciclope e outros perigos marítimos, o texto de Homero inclui uma parada fundamental na ilha flutuante de Eólia. Na literatura clássica, a tripulação é acolhida pelo rei Éolo por um mês e, na despedida, o governante presenteia o herói com um recurso mágico: uma bolsa de couro onde estavam aprisionados todos os ventos tempestuosos e perigosos do oceano, garantindo um mar calmo até Ítaca.

A tragédia ocorre quando Odisseu, já próximo de sua terra natal, adormece ao leme. Curiosos e desconfiados de que a bolsa continha riquezas ocultas, os marinheiros abrem o recipiente, liberando as tempestades que arremessam a embarcação de volta a Eólia. Desta vez, contudo, o rei recusa apoio, temendo que os homens fossem amaldiçoados pelos deuses. Toda essa sequência foi completamente eliminada da narrativa do filme.

4. Relação com a bruxa Circe

Representação de Odisseu e Circe / Crédito: Getty Images

O encontro com a bruxa Circe, interpretada na adaptação por Samantha Morton, figura entre os pontos centrais da obra. No filme, a personagem envenena os marinheiros e os transforma em porcos, cabendo a Odisseu persuadi-la verbalmente a reverter o feitiço. Logo em seguida, a tripulação parte imediatamente da ilha.

No texto homérico, o desdobramento da cena é substancialmente diferente. O herói conta com a intervenção direta do deus Hermes, que lhe fornece uma erva mágica para imunizá-lo contra as poções da feiticeira, permitindo que ele a force a libertar seus homens. Ademais, em vez de uma fuga rápida, Homero narra que Odisseu e Circe se tornam amantes, com o herói e seus comandados permanecendo hospedados na ilha ao longo de um ano inteiro antes de retomarem a navegação.

5. Ilha de Calipso, flores de lótus e destino de Ítaca

A parte final da jornada do herói sofreu profundas alterações estruturais no cinema, unindo e modificando diferentes passagens da epopeia. No filme, Odisseu encontra-se na ilha de Ogígia sob os cuidados de Calipso, mantido em um estado de confusão mental por alimentar-se de flores de lótus oferecidas pela ninfa ao longo de sete anos. Nolan utiliza esse cenário como um recurso narrativo em que a personagem atua quase como uma terapeuta enquanto o protagonista relembra o passado em flashbacks.

Na obra de Homero, os dois episódios ocorrem de forma separada: o consumo das flores de lótus afeta toda a tripulação em uma ilha distinta no início da viagem, fazendo-os esquecer o lar, enquanto a retenção em Ogígia acontece pela recusa de Calipso em libertar o herói — situação solucionada apenas após a ordem do deus Hermes.

A conclusão da história também difere entre o texto e a tela. No poema original, após derrotar os pretendentes de Penélope e ordenar a execução das servas traidoras por Telêmaco, Odisseu enfrenta a ameaça de invasão das famílias dos mortos. A deusa Atena intervém para impor a paz, permitindo que o herói recupere o trono de Ítaca. Já na visão de Nolan, a cena da invasão é suprimida e o casal protagonista opta pelo exílio voluntário como forma de redenção pelas mortes da guerra, coroando Telêmaco como o novo rei.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.