Como eram as sereias originais na mitologia?
Presentes na mitologia grega desde a Odisseia de Homero, as sereias passaram por uma profunda transformação ao longo dos séculos

Poucas criaturas da mitologia grega permaneceram tão vivas no imaginário popular quanto as sereias. Conhecidas por seu canto irresistível, capaz de atrair marinheiros para a morte, elas atravessaram quase três milênios de história transformando não apenas sua aparência, mas também o significado simbólico que carregam. Se atualmente são retratadas como belas mulheres com caudas de peixe, a tradição da Grécia Antiga descrevia seres muito diferentes: mulheres com corpo e asas de ave, intimamente associadas à morte e ao mundo dos mortos.
A primeira aparição conhecida das sereias ocorre na Odisseia, poema atribuído a Homero e composto por volta do século VIII a.C. A obra acompanha o retorno de Odisseu (Ulisses) para Ítaca após a Guerra de Troia, jornada repleta de monstros, deuses e desafios sobrenaturais.
Antes de enfrentar as criaturas, o herói recebe um aviso da feiticeira Circe. Segundo ela, qualquer navegante que escutasse o canto das sereias acabaria condenado, incapaz de retornar para casa. Para escapar da armadilha, Odisseu ordena que seus companheiros tampem os ouvidos com cera de abelha, enquanto ele próprio é amarrado ao mastro da embarcação. Dessa forma, consegue ouvir a melodia hipnotizante sem sucumbir ao desejo de seguir em direção às criaturas.
Na narrativa de Homero, o fascínio exercido pelas sereias vai além da sedução física. Elas prometem conhecimento, glória e revelações sobre feitos heroicos, oferecendo exatamente aquilo que mais desperta a curiosidade humana.
As sereias ao longo da história
Embora a Odisseia seja a obra mais famosa a retratá-las, as sereias também aparecem em diversos outros textos da Antiguidade. Um dos principais é a Argonáutica, poema épico escrito no século III a.C. que narra a viagem de Jasão e dos Argonautas em busca do Velocino de Ouro.
Nessa versão, as criaturas são apresentadas como filhas do deus-rio Aqueloo e da musa Terpsícore. Seus nomes também são revelados: Partênope, Lígia e Leucósia. Durante a travessia dos Argonautas, o músico Orfeu consegue neutralizar o canto das sereias ao tocar sua lira, embora um dos tripulantes ainda se lance ao mar sob o efeito da melodia.
Para estudiosos da Antiguidade, o verdadeiro poder das sirenas sempre esteve em sua voz. Segundo Marie-Claire Beaulieu, professora de Estudos Clássicos da Universidade Tufts, nos Estados Unidos, à NatGeo, o canto das criaturas provoca um estado de hipnose tão intenso que faz suas vítimas esquecerem completamente o mundo ao redor.
“As pessoas ficam tão hipnotizadas que simplesmente esquecem de tudo”, explica a pesquisadora.
Outro aspecto frequentemente ignorado pelas representações modernas é sua aparência original. Na tradição grega, uma sereia era representada como uma mulher com asas e pernas de ave, jamais como uma sereia.
Beaulieu destaca que essa combinação de características reforçava sua condição de criatura liminar — situada entre diferentes mundos. As asas simbolizavam a ligação entre a terra e o céu, enquanto sua associação constante ao mar refletia a percepção dos gregos de que o oceano era um espaço profundamente perigoso e imprevisível.
Essa relação com a morte aparece também na arte funerária da Grécia Antiga. Sereias eram frequentemente esculpidas em estelas funerárias e outros monumentos dedicados aos mortos. Um exemplo preservado no Museu de Belas Artes de Boston mostra uma cena de luto na qual uma dessas criaturas aparece sob o leito onde repousa um corpo.
Algumas tradições também relacionam as sereias ao mito de Perséfone, filha de Deméter e rainha do submundo após ser raptada por Hades. Certos relatos afirmam que elas receberam asas justamente para procurar a deusa depois de seu desaparecimento. Outras versões as apresentam como descendentes de uma das Musas, mas com uma função oposta: em vez de inspirarem a vida e as artes, conduziam os homens à morte por meio do canto.
Mesmo durante o Império Romano, essa representação permaneceu praticamente inalterada. Em sua História Natural, escrita no século I d.C., Plínio, o Velho, descreve as sirenas como aves fabulosas capazes de adormecer viajantes antes de despedaçá-los — embora demonstrasse ceticismo quanto à existência delas.
A mudança no símbolo
Foi apenas na Idade Média que ocorreu a maior transformação da criatura. Aos poucos, as asas deram lugar às caudas de peixe que hoje dominam o imaginário popular. Durante alguns séculos, ambas as versões coexistiram, mas a figura semelhante às sereias acabou prevalecendo.
Segundo Beaulieu, essa mudança pode ser explicada tanto pela influência de divindades marítimas greco-romanas, como Tritão, quanto pela incorporação de tradições do folclore celta. Um exemplo aparece nas narrativas sobre São Brandão, o Navegador, monge irlandês cujas viagens lendárias incluem o encontro com uma sereia de aspecto muito semelhante ao das representações atuais.

A mudança física foi acompanhada por uma transformação simbólica. Na Grécia Antiga, o perigo representado pelas sereias estava ligado ao conhecimento, ao poder e à perda do controle diante do sobrenatural. Já durante a Idade Média cristã, elas passaram a representar sobretudo a tentação sexual e os prazeres considerados pecaminosos.
Essa nova interpretação aparece de forma marcante na Divina Comédia, de Dante Alighieri. Em um sonho do poeta, uma sirena tenta seduzi-lo, mas acaba tendo suas roupas arrancadas por Virgílio, revelando um corpo em decomposição. A cena reforça a ideia medieval de que a beleza e o desejo escondem corrupção moral.
Essa visão influenciou profundamente a arte dos séculos seguintes. No século XIX, pintores pré-rafaelitas produziram inúmeras obras retratando sereias como mulheres de pele clara, longos cabelos e beleza irresistível. Entre os exemplos mais conhecidos está The Siren, de John William Waterhouse, que mostra uma jovem observando um marinheiro simultaneamente fascinado e aterrorizado.
Hoje, as sereias continuam ocupando espaço na cultura popular. Além de inspirarem tendências estéticas, como o chamado sirencore, elas protagonizam livros, séries e filmes que reinterpretam o mito sob novas perspectivas.