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Quando arqueólogos fizeram uma múmia como nos tempos do Egito Antigo

Nos anos 1990, uma dupla de cientistas decidiu criar uma múmia moderna a partir das técnicas de embalsamamento utilizadas no Egito Antigo

Imagem ilustrativa de múmia - Crédito: Getty Images

As múmias são talvez o que há de mais fascinante na arqueologia egípcia. No entanto, os egípcios não deixaram muitos indícios acerca de como seria seu processo de embalsamamento. Por isso, no século passado, houve grupos de arqueólogos experimentais que decidiram se aventurar na criação de múmias modernas com a finalidade de entender melhor esse processo. Em muitos dos casos, foram utilizados animais nesses trabalhos. Mas também houve experimentos com corpos humanos. Foi o caso do trabalho desenvolvido por Bob Brier e Ronn Wade no ano de 1994. 

Wade era um anatomista que havia atuado como médico na Guerra do Vietnã e que, eventualmente, tornou-se chefe do conselho estadual de anatomia de Maryland. Já Brier, além de ter formação em anatomia, era também egiptólogo.

A dupla se reuniu em Baltimore para escolher sua múmia entre um grupo de grupo de pessoas que havia doado seus corpos para a ciência. Optaram pelo corpo de um homem caucasiano de setenta e seis anos que havia morrido de ataque cardíaco. Wade o apelidou de E. M. Balm, mas sua verdadeira identidade nunca foi revelada, por uma questão de ética, conforme o portal Live Science.

Materiais utilizados

Os dois utilizaram réplicas de materiais da era faraônica, incluindo tecidos de linho, uma mesa de embalsamamento de madeira, além de lâminas de cobre e obsidiana. Com as ferramentas necessárias deram início à extração do cérebro.

Por causa de algumas poucas referências que sobreviveram ao tempo, Brier sabia que, no Antigo Egito, o cérebro era removido por meio da inserção de uma haste em forma de gancho através das narinas. Mas não havia muitos detalhes sobre o procedimento.

A princípio, Brier e Wade tentaram tirar o órgão com uma vara. Mas não deu certo. A remoção só veio a funcionar depois que a dupla decidiu espirrar água pelo nariz do cadáver antes de remover o cérebro com a vareta. O órgão então foi despejado “como um milkshake”. “Um milkshake de morango”, disse Brier.

Removendo demais órgãos

Retirado o cérebro, era preciso passar para os demais órgãos.

Como os embalsamadores egípcios não sabiam ao certo qual era a função do cérebro, costumavam descartá-lo durante ritual. Já o coração era deixado no lugar original, uma vez que acreditava-se que era dele que vinham todos os pensamentos e emoções. Considerando essas questões, Brier e Wade fizeram uma incisão no abdômen do cadáver e removeram o baço, fígado, vesícula biliar, pulmões e intestinos.

Removidas essas partes, os cientistas limparam o abdômen com vinho de palma e mirra e, em seguida, colocaram incenso no crânio. Este era um passo importante porque, além de preparar o corpo para a vida após a morte, ajudava a matar micróbios e a mascarar maus odores.

Imagem ilustrativa de múmia – Crédito: Getty Images

Desidratando o corpo

Depois a dupla desidratou o corpo usando natron, que é basicamente um mineral que se forma naturalmente em wadis egípcios, ou ravinas secas. A importância desse elemento está no fato dele, como uma esponja, sugar a umidade da carne, de modo a deixá-la seca demais para a sobrevivência de agentes decompositores como bactérias e larvas.

No laboratório, os pesquisadores colocaram o baço, pulmões, fígado e intestinos da múmia em tigelas e, em seguida, cobriram os órgãos com natron. O passo seguinte se constituiu em colocar 29 sacos de linho com a pólvora no corpo. Depois, colocaram o cadáver sobre mais 96 quilos e, por fim, despejaram 264 kg adicionais sobre ele. Eles mantiveram E. M. Balm no antigo escritório de Wade a uma temperatura de 40 graus Celsius e com desumidificadores funcionando dia e noite a fim de simular o ar egípcio.

Depois de cinco semanas, Brier constatou que a múmia “parecia exatamente Ramsés, o Grande“, com pele semelhante a couro, nariz pontudo e pelos finos espetados.

Resultado do experimento

Depois de remover o cadáver do natron, Brier e Wade fizeram uma massagem corporal na múmia com óleos de lótus, cedro e palma, processo que possibilitou que a flexibilidade das articulações fosse restaurada, tornando mais fácil o manuseio da múmia. Com isso, eles envolveram o corpo com bandagens de linho. Depois, deixaram a múmia secar por mais três meses. Nesse período o peso de E. M. Balm foi reduzido para 23 kg. Em seguida, foram adicionadas diversas camadas de bandas, entre as quais foram colocados amuletos mágicos e pedaços de papiro com feitiços.

Ainda hoje, três décadas depois do experimento, a múmia pode ser encontrada em um caixão de metal em Maryland, nos EUA, onde segue armazenada em temperatura ambiente.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.