Matérias / A Odisseia

A Odisseia: quem é Telêmaco, personagem de Tom Holland no novo filme?

Interpretado por Tom Holland em "A Odisseia", Telêmaco é peça-chave na epopeia de Homero e representa o amadurecimento durante a longa ausência de Odisseu

Tom Holland como Telêmaco em "A Odisseia", e pintura representando o personagem / Crédito: Divulgação/Universal Pictures / Getty Images

A estreia de “A Odisseia”, novo filme dirigido por Christopher Nolan, nesta quinta-feira, 16 de julho, leva aos cinemas brasileiros uma adaptação contemporânea do poema épico de Homero, considerado um dos pilares da literatura ocidental.

A trama acompanha a tortuosa e fantástica jornada de Odisseu, o astuto rei de Ítaca que, após lutar por dez anos na Guerra de Troia, enfrenta outros dez anos de provações no mar para conseguir retornar ao seu lar e reencontrar sua esposa, Penélope, e seu filho, Telêmaco.

Antes disso, no caminho de Odisseu, o herói precisa lidar com a ira de deuses implacáveis, criaturas mitológicas aterrorizantes e o teste constante de sua própria sanidade e liderança, em uma trama de sobrevivência, luto e identidade. Confira o trailer:

Embora a narrativa acompanhe a longa jornada de Odisseu, interpretado por Matt Damon, para retornar a Ítaca após a Guerra de Troia, outro personagem desempenha papel fundamental no desenvolvimento da história: Telêmaco, vivido por Tom Holland.

Ausência e crise em Ítaca

Filho de Odisseu e Penélope, interpretada por Anne Hathaway, Telêmaco representa um dos principais eixos dramáticos da obra. Sua trajetória acompanha o processo de amadurecimento de um jovem que precisa assumir responsabilidades políticas e pessoais enquanto cresce sem a presença do pai, desaparecido por duas décadas.

Quando Odisseu parte para lutar na Guerra de Troia, Telêmaco ainda é um bebê. Os dez anos de conflito, somados aos outros dez anos necessários para que o herói tente retornar para casa, fazem com que o herdeiro de Ítaca alcance a vida adulta sem que tivesse qualquer convivência com o pai.

Nesse período, a ausência prolongada do rei desencadeia uma crise no reino. Convencidos de que Odisseu morreu, diversos nobres ocupam o palácio real, consomem os recursos da família e pressionam Penélope a escolher um novo marido, numa tentativa de legitimar o controle sobre o trono. É nesse ambiente de instabilidade que Telêmaco precisa construir sua identidade e assumir o papel de herdeiro.

Cena de “A Odisseia” / Crédito: Divulgação/Universal Pictures

Telemaquia

A importância do personagem é evidenciada já na estrutura original do poema de Homero. Os quatro primeiros cantos de “A Odisseia” são dedicados exclusivamente à trajetória de Telêmaco, antes mesmo do retorno de Odisseu ao centro da narrativa. Essa parte da obra ficou conhecida posteriormente como “Telemaquia” e funciona como uma história de formação dentro do próprio épico.

Sob orientação da deusa Athena, interpretada por Zendaya no longa, Telêmaco decide abandonar a postura passiva diante da ocupação do palácio. Seu primeiro gesto de liderança é convocar uma assembleia dos cidadãos de Ítaca, marcando sua estreia na vida política do reino. Em seguida, parte em uma viagem em busca de informações concretas sobre o paradeiro do pai.

A jornada leva o jovem ao Peloponeso, onde visita antigos aliados de Odisseu, entre eles os reis Nestor, de Pilos, e Menelau, de Esparta. Durante essas visitas, Telêmaco entra em contato com figuras experientes da política e da guerra, aprendendo princípios ligados à diplomacia, à hospitalidade e ao exercício do poder.

Ao mesmo tempo, os relatos sobre as campanhas militares e os feitos de Odisseu permitem que o herdeiro compreenda a dimensão do legado familiar que deverá assumir. A viagem, portanto, desempenha dupla função: fortalece sua formação pessoal e amplia sua percepção sobre a responsabilidade de suceder um dos maiores heróis da tradição grega.

Retorno do rei e aliança

Quando retorna a Ítaca, Telêmaco já não ocupa a posição de um jovem inseguro. Esse amadurecimento se torna decisivo para os acontecimentos finais da história.

Após chegar secretamente ao reino, Odisseu assume um disfarce para observar a situação do palácio e identificar aliados e inimigos. E a primeira pessoa para quem revela sua verdadeira identidade é justamente Telêmaco. O reencontro entre pai e filho representa um dos momentos centrais da narrativa, pois simboliza a transformação do herdeiro em um parceiro capaz de participar ativamente da recuperação do reino.

A partir desse momento, ambos unem forças para planejar a ofensiva contra os pretendentes instalados no palácio. A experiência estratégica de Odisseu se combina ao vigor e à disposição de Telêmaco, consolidando uma parceria que representa tanto a restauração da autoridade real quanto a continuidade da família governante.

‘Odisseu ordenando a Telêmaco que purifique o salão dos mortos’, por Jacques Gamelin / Crédito: Getty Images

Na adaptação dirigida por Christopher Nolan, a escolha de Tom Holland reforça esse percurso de crescimento. Conhecido por interpretar personagens jovens no cinema comercial, incluindo a versão principal do Universo Cinematográfico da Marvel do Homem-Aranha, o ator assume um papel marcado por conflitos internos e pelo peso das expectativas impostas a um herdeiro que precisou aprender a liderar sem a presença do pai.

Segundo a proposta do filme, a trajetória de Telêmaco funciona como contraponto humano às aventuras extraordinárias vividas por Odisseu durante sua longa viagem. Enquanto o protagonista enfrenta criaturas, obstáculos e desafios pelo mar, o filho vivencia uma jornada igualmente transformadora, centrada no amadurecimento político, emocional e familiar.

Além de Matt Damon, Tom Holland, Anne Hathaway e Zendaya, “A Odisseia” reúne um elenco que inclui Robert Pattinson, no papel do pretendente Antínoo, e Lupita Nyong’o, que interpreta as irmãs Clitemnestra e Helena de Troia.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.