Santa Casa do Rio restaura acervo histórico e abrirá patrimônio ao público
Instituição fundada em 1582 revitaliza espaços históricos e prepara abertura de acervo que reúne mais de quatro séculos de história

Fundada em 1582, a Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro iniciou um amplo projeto de restauração de seus espaços históricos e de valorização de um acervo que reúne mais de quatro séculos de história. As obras, iniciadas em março após a posse da nova direção da irmandade, incluem a recuperação de áreas emblemáticas do prédio localizado no Centro da capital fluminense e têm como um dos principais objetivos abrir parte desse patrimônio para visitação pública.
Embora seja amplamente reconhecida pelos serviços médicos prestados ao longo dos séculos, a instituição guarda em seu interior um importante conjunto arquitetônico e histórico. Logo na entrada do edifício, detalhes como colunas de mármore, um lustre dourado e a escultura do padre José de Anchieta, apontado como idealizador da Santa Casa no Brasil, evidenciam parte desse legado preservado.
A abertura do acervo ao público dependerá da conclusão das obras de restauração, financiadas por meio de doações e da participação da instituição em editais de incentivo à cultura.
Capela, salão nobre e museu integram revitalização
Entre os espaços contemplados pelo projeto está a capela histórica da Santa Casa, utilizada quase exclusivamente pela Família Imperial durante o século 19. O ambiente preserva elementos ornamentais dourados, um altar ricamente decorado e uma claraboia esculpida que ilumina naturalmente o espaço.
Segundo o planejamento apresentado pela direção, a intenção é retomar a realização de missas aos domingos na capela. Como o espaço possui apenas 18 lugares, as celebrações deverão ocorrer com público reduzido.
Outro ambiente em processo de revitalização é o salão nobre, localizado no segundo andar do edifício. O piso está sendo restaurado, enquanto permanecem preservados elementos históricos como uma mesa de reuniões com 20 lugares, um pequeno altar com a imagem de Jesus, uma pintura da Santa Ceia e retratos dos 12 apóstolos distribuídos entre as janelas. Nos corredores, também permanecem expostas pinturas de antigos benfeitores que contribuíram financeiramente para a história da irmandade.
Já no térreo, uma antiga farmácia está sendo transformada em um pequeno museu. O espaço passa por um processo de catalogação de frascos, instrumentos e substâncias utilizadas na produção de medicamentos em diferentes épocas. Ao lado dele também será instalada a nova farmácia hospitalar da Santa Casa, destinada exclusivamente ao atendimento dos pacientes da instituição.
Gestão busca recuperar tradição histórica e acadêmica
O plano de revitalização é conduzido por uma equipe de gestores voluntários nomeados em março pelo provedor da irmandade, Francisco Horta. Entre eles está o médico Ricardo Cavalcanti, diretor-geral do Hospital da Santa Casa, acompanhado pelos advogados Mauricio Osthoff e Juliana de Simone.
Segundo Cavalcanti, um dos objetivos é recuperar o prestígio histórico da instituição e modernizar sua estrutura sem comprometer as características do prédio, que é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
A proposta também inclui fortalecer novamente a vocação acadêmica da Santa Casa. Em 1856, o hospital foi sede da Escola de Anatomia, Medicina e Cirurgia, considerada o embrião da atual Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ao longo do século 20, também recebeu atividades das faculdades de Medicina Souza Marques e Gama Filho.
A nova administração pretende ampliar parcerias com universidades para incentivar pesquisas, estágios e atividades de ensino dentro da instituição, retomando uma tradição que marcou sua história.
Modernização da estrutura hospitalar
Além da preservação do patrimônio histórico, a reforma contempla melhorias na infraestrutura do hospital. Entre elas estão a instalação de catracas eletrônicas para reforçar o controle de acesso e a segurança de pacientes, profissionais e visitantes.
Também está prevista a implantação de um novo centro de diagnóstico por imagem, que contará com equipamentos de raios X, ultrassom, mamografia, densitometria óssea, tomografia e ressonância magnética.
Atualmente, a Santa Casa atende cerca de 13 mil pacientes por mês e oferece mais de 30 serviços de saúde. As consultas possuem valores entre R$ 100 e R$ 150. A instituição também mantém programas de especialização em áreas como Cirurgia Plástica, Cirurgia Geral, Clínica Médica, Oftalmologia, Ginecologia e Psicologia Oncológica.
Ao mesmo tempo em que investe na modernização do atendimento, a Santa Casa busca preservar um patrimônio construído ao longo de mais de quatro séculos, reunindo arquitetura, objetos históricos e espaços que ajudam a contar parte da trajetória da medicina e da assistência social no Brasil.
*Sob supervisão de Felipe Sales Gomes