Antigas princesas egípcias usavam armas? Acadêmicos debatem
Restos de antigas princesas egípcias de quase 4.000 anos têm desgaste muscular no corpo; especialistas debatem relevância da descoberta

Por muito tempo, arqueólogos encontraram arcos, flechas, espadas, adagas e demais tipos de armas em túmulos das antigas princesas egípcias. Acontece que a dúvida sobre o quão significativos eram os itens sempre pairou nas interpretações sobre a história. Afinal, elas usavam ou não usavam essas armas? A resposta pode ser mais complexa do que se espera.
É amplamente conhecido que muitas vezes nos ritos funerários itens simbólicos vão junto à tumba, mas que eles não necessariamente têm ligação com o cotidiano do falecido, sejam os vasos, as balanças ou até mesmo os animais que eram enterrados juntos de muitos nobres egípcios. Mas um novo estudo lançado 17 de julho na Frontiers in Environmental Archaeology diz que pode ser que as princesas realmente utilizassem as armas com quais foram enterradas.
Conforme os estudiosos, um estudo complexo de análise dos locais de fixação muscular nos ossos indicam alto desgaste nos membros superiores das antigas princesas egípcias, assim, aumentando as chances de terem treinado com as armas que foram enterradas juntas, como o arco e flecha. O primeiro autor, Zeinab Hashesh, da Universidade Beni-Suef, no Egito, disse em uma declaração:
Os membros da família real, especialmente as mulheres, eram participantes ativos em atividades habilidosas e fisicamente exigentes, como arco e flecha e caça“.
Mas estudiosos não envolvidos no estudo dizem que as alterações esqueléticas não são confiáveis para indicar uma única atividade específica. Entenda o debate:
As antigas princesas egípcias
Utilizando varreduras de raios X e espectroscopia especializada em infravermelho, que pode ajudar a identificar diferentes materiais, os pesquisadores examinaram os enteses, os locais onde os músculos, tendões e ligamentos se ligam aos ossos das princesas Ita, Khenmet, Itaweret, Noub-Hotep e a não confirmada princesa Sathathormeryt.
Todas essas foram descobertas por Jacques de Morgan no fim do século 19 e creditadas como filhas do faraó Amenemhat II. Nesses corpos, as regiões com maiores músculos são indícios do uso repetido destes, e assim, um indicador do uso das armas.
Por exemplo: a princesa Ita, que morreu por volta dos 31 anos, possuía músculos mais desenvolvidos em partes do ombro, braço e mão direita, o que indica que utilizava e treinava o uso de armas de uma só mão. Surpreendentemente, na sua tumba havia uma adaga ornamentada.
Já a princesa Noub-Hotep, que morreu aos 40 anos, desenvolveu os músculos do antebraço e da mão direita. Quando descoberta, essa princesa foi encontrada com “flechas com suas farpas em um estado surpreendente de preservação”, disse De Morgan.
O debate acadêmico
Contudo, outros especialistas questionam a validade do estudo. Conforme Sônia Zakrzewskium bioarqueóloga da Universidade de Southampton, no Reino Unido, que não estava envolvida na pesquisa, o estudo não deixa claro e não dá provas suficiente de que essa transformação muscular veio especificamente do uso das armas, ou de qualquer outra atividade do cotidiano. Disse:
Certos músculos parecem ter sido usados repetidamente, mas a causa real desse uso é incerta. […] Não podemos dizer, portanto, que essas mudanças esqueléticas estão necessariamente associadas ao uso de armamento“.
Nesse sentido, a especialista argumenta que em um estudo mais profundo e completo, seria necessário a análise de outros grupos de indivíduos. Assim, poderia compreender se esse desgaste pronunciado não é apenas um desgaste comum entre as pessoas, ou realmente o desgaste por atividades repetitivas. Em um e-mail à Live Science, a especialista continuou:
O arco e flecha é uma atividade altamente assimétrica; encontrar robustez generalizada e bilateral em alguns ossos não é um caso particularmente forte para esses indivíduos que praticam arco e flecha […] uma abordagem mais robusta envolveria a comparação desses indivíduos com contemporâneos não elíticos da mesma região e período. Isso ajudaria a determinar se tais mudanças degenerativas eram comuns na população em geral ou verdadeiramente indicativas de comportamentos específicos da elite.”
De qualquer modo, devido à data recente da publicação, ainda não há resposta para a nossa pergunta. Possivelmente o próximo passo dos estudiosos será analisar grupos não nobres e comparar suas musculaturas.
*Sob supervisão de Giovanna Gomes