Entenda os vasos de 3.400 anos com traços do Egito, Chipre, Grécia e Oriente Próximo
Vasos de 3.400 anos encontrados em túmulos possuem características de diversos povos do mediterrâneo; cientistas explicam conexões!

Investigando os escombros de sepulturas antigas, arqueólogos encontraram diversos vasos de 3.400 anos diferentes com símbolos culturais de diversas localidades, de gregos a até mesmo egípcios. Ou seja, em um único vaso há sinais das primeiras grandes civilizações do mediterrâneo e da humanidade.
De touros coroados pelo sol a ibexes correndo, símbolos demonstram uma sociedade profundamente conectada. Cerca de 9 vasos foram encontrados perto da antiga cidade portuária de Hala Sultan Tekke. De acordo com o autor do estudo, Peter M. Fischer, professor da Universidade de Gotemburgo, na Suécia, que dirige as escavações:
Você é confrontado com os restos mortais de pessoas que viveram há mais de 3.000 anos, juntamente com objetos que haviam viajado do outro lado do Mediterrâneo oriental—da Grécia, Egito, Anatólia, Levante, Mesopotâmia, Índia, Afeganistão, Báltico e além. […] É um poderoso lembrete de que Hala Sultan Tekke fazia parte de um mundo interligado.”
Um mundo conectado
De acordo com a revista Phys, o estudo publicado na Oxford Journal of Archaeology, os vasos foram feitos há 3.400 anos por ourives cipriotas de maneira que fundiam antigas imagens egípcias, minoicas, do Oriente Próximo e micênicas em um estilo próprio.
A cidade de Hala Tekke floresceu a partir de aproximadamente 1630–1150 a.C., quando o Lago Salgado de Lanarca ainda era uma baía e um porto natural da ilha. Provavelmente, a cidade foi o “o maior centro urbano conhecido da Idade do Bronze em Chipre e um dos maiores de todo o Mediterrâneo Oriental”, disse Fischer.
Fato é que a importância da cidade também se pautava na capacidade comercial da região. Inclusive, a região chegou a fundir cobre, produzir cerâmica e negociar bens de luxo com o Afeganistão, Báltico e com a Índia.
Os vasos de 3.400 anos
E essas conexões culturais aparecem nos vasos encontrados nos túmulos. Na época, era comum enterrar os indivíduos com itens de valor e vasos. Contudo, os túmulos não estavam intactos, na verdade foram justamente os túmulos desabados que conseguiram sobreviver milhares de anos e chegar até os arqueólogos.
Um dos itens mais marcantes é um vaso que funde imagens gregas com egípcias, uma vez que mostra touros corados pelo sol, uma típica imagem egípcia associada ao deus Ápis, rodeada por motivos de palma e roseta, característica grega. Ou seja, mais do que comerciantes, os artesãos do Chipre viviam em uma profunda conexão com diversas culturas.
Não obstante, os vasos mais pesados e densos mostravam sinais de desgaste, o que sugere que eram usados em raras ocasiões especiais. Já os mais leves e finos são mais enigmáticos e provavelmente só tinham finalidades mortuárias. Conforme Fischer:
Não podemos dizer com certeza o que os bocais de ouro foram destinados a representar, mas eles provavelmente fizeram parte do ritual funerário que marca a transição do falecido para a vida após a morte“.
Ainda que o ouro utilizado em muitos desses vasos de 3.400 anos tenha vindo de minas núbias egípcias, da Ada Tepe da Bulgária ou das minas à céu aberto dos Balcãs, provavelmente os itens foram produzidos no próprio Chipre.
Não obstante, os arqueólogos destacam uma características externas dos túmulos, eram simples marcas discretas em um solo argiloso. Fischer destaca:
Estou convencido de que os habitantes já estavam cientes do risco de roubo de túmulos na antiguidade“.
Ou seja, ainda que recheados de riquezas e itens extremamente valiosos, a aparência discreta e a sua auto destruição, depois de milênios, fizeram com que os túmulos sobrevivessem até os dias de hoje.
De qualquer forma, os pesquisadores continuarão a escavar a região e a procurar por mais túmulos escondidos. De acordo com o professor, levará, em média, “pelo menos 630 anos” para que todos os itens sejam recuperados dos túmulos do Chipre.
*Sob supervisão de Giovanna Gomes