Neste dia, há 60 anos, ocorria o atentado no Aeroporto dos Guararapes
Na manhã de 25 de julho de 1966, uma mala-bomba explodiu no Aeroporto dos Guararapes, onde Costa e Silva era aguardado por apoiadores

O dia 25 de julho de 1966 ficou marcado na história brasileira em razão de um atentado. Sessenta anos atrás o país vivia uma ditadura e Arthur da Costa e Silva, então marechal do Exército, era o candidato escolhido pelos militares para suceder o presidente Humberto de Alencar Castello Branco, dois anos depois do golpe militar. Embora a eleição presidencial fosse indireta e controlada pelo Congresso Nacional, dominado pela base de apoio ao regime, Costa e Silva frequentemente viajava pelo país em uma espécie de campanha política.
Na manhã de 25 de julho, ele desembarcaria no Aeroporto dos Guararapes, em Recife, para participar de compromissos ligados à Superintendência para o Desenvolvimento do Nordeste (Sudene). A ideia era que o candidato atravessasse o saguão do aeroporto, onde apoiadores aguardavam sua chegada. Mas a comitiva alterou o trajeto pouco antes do desembarque, e, assim, o militar não passou pelo local.
Enquanto os presentes deixavam o saguão, um objeto chamou a atenção do guarda civil Sebastião Tomaz de Aquino. Parecia uma simples mala abandonada e o profissional, acreditando que o item pudesse ter sido esquecido por algum passageiro, decidiu carregá-lo para outro ponto do aeroporto. Nesse momento, a bomba explodiu.
Episódio matou duas pessoas
Infelizmente, o atentado fez duas vítimas: o jornalista Edson Régis de Carvalho e o vice-almirante reformado Nelson Gomes Fernandes. Também houve feridos, 14 no total, entre elas o próprio Sebastião Aquino, que sofreu graves lesões e acabou perdendo uma das pernas. Costa e Silva, que havia mudado seu percurso minutos antes, escapou ileso.
Na época, diz o portal UOL, as autoridades militares afirmaram que o atentado tinha como objetivo assassinar Costa e Silva e que teria sido promovido por grupos de esquerda contrários ao regime. Nos anos seguintes, à medida que a ditadura endurecia — especialmente após a decretação do Ato Institucional nº 5 (AI-5), em 1968, que suspendeu direitos fundamentais — organizações armadas de esquerda, como a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), a Ação Libertadora Nacional (ALN) e o Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), passaram a intensificar ações de guerrilha, assaltos, sequestros e ataques contra o governo, enquanto o regime respondia com ainda mais repressão, utilizando-se de serviços de inteligência e promovendo prisões e torturas.

Inconsistências
Por muitos anos, o atentado dos Guararapes foi considerado o marco inicial dessa escalada de violência política. Mas então historiadores se propuseram a analisar diversos aspectos da investigação conduzida pelos militares e notaram inconsistências na versão oficial. Como destaca Marcília Gama, da Universidade Federal de Pernambuco, o próprio inquérito militar continha elementos que colocavam em dúvida a tese de que o alvo era efetivamente Costa e Silva. Por isso, pesquisadores defendem a hipótese de que o episódio teria sido utilizado para reforçar o discurso do regime e, assim, conseguir apoio popular às medidas repressivas.
Mas não foi só isso. As investigações também geraram controvérsias sobre a autoria do atentado. Inicialmente, o ex-deputado Ricardo Zarattini e o professor Edinaldo Miranda foram acusados, presos e submetidos à tortura. O último, inclusive, chegou a ser condenado pela Justiça Militar.
Décadas depois, em 2013, a Comissão da Memória e Verdade Dom Helder Câmara, de Pernambuco, apresentou documentos produzidos pelas próprias Forças Armadas em 1970 que demonstravam que o governo militar já sabia que Zarattini e Miranda não eram os responsáveis pelo incidente. Conforme uma matéria publicada na época pela Folha de S.Paulo, segundo esses registros confidenciais, o verdadeiro autor do atentado seria Raimundo Gonçalves de Figueiredo, identificado como militante da chamada Ala Vermelha do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), que teria agido de forma isolada.
A comissão, no entanto, foi enfática ao dizer que sua investigação não buscava determinar quem foi de fato o autor do atentado, mas sim comprovar que os dois homens acusados pelo regime eram inocentes e haviam sido vítimas de graves violações de direitos humanos.
Poucos meses depois do atentado, em outubro de 1966, Costa e Silva foi eleito presidente pelo Congresso Nacional. Ele assumiria o cargo em março de 1967 e permaneceria na presidência até agosto de 1969.