Diferentemente do que muitos acreditam, as mulheres da Idade Média tiveram um papel determinante em uma profissão constantemente estudada
Por séculos, a imagem de monges dedicados à cópia de manuscritos dominou a visão popular sobre o trabalho de escriba na Idade Média.
No entanto, um estudo recente publicado na revista Humanities and Social Sciences Communications revelou uma realidade diferente: as mulheres também tiveram um papel significativo nesse ofício.
Pesquisadores da Universidade de Bergen, na Noruega, descobriram que, pelo menos, 1,1% dos manuscritos medievais foram transcritos por escribas mulheres, o que representa, possivelmente, mais de 110.000 livros.
Liderado pelo acadêmico Åslaug Ommundsen, o estudo compreende a primeira análise quantitativa abrangente sobre a participação feminina na produção de manuscritos. Em entrevista ao portal Hyperallergic, Ommundsen destacou: “Nosso estudo fornece suporte estatístico para as contribuições frequentemente esquecidas das escribas mulheres ao longo da história.”
Pesquisas anteriores já haviam identificado casos isolados de mulheres envolvidas na cópia de manuscritos, principalmente em mosteiros, mas nunca houve uma avaliação numérica em larga escala.
Para chegar a essas conclusões, os pesquisadores analisaram 23.774 colofões — registros inseridos no final dos manuscritos contendo informações sobre o escriba, local e data da produção, além de comentários pessoais.
Dentre esses, 254 colofões puderam ser atribuídos com certeza a escribas mulheres, o que corresponde a uma estimativa conservadora de 1,1% de todos os manuscritos produzidos entre os anos 800 e 1626.
Embora a porcentagem possa parecer pequena, representa um número expressivo de manuscritos, dos quais aproximadamente 8.000 ainda existem.
Um dos casos notáveis foi o da freira Birgitta Sigfursdóttir, do mosteiro de Munkeliv, em Bergen. Em um colofão, ela escreveu humildemente:
Eu, filha de Birgitta Sigfurs, freira no mosteiro de Munkeliv em Bergen, escrevi este saltério com iniciais, embora não tão bem quanto deveria. Reze por mim, uma pecadora.”
Outras escribas identificavam-se utilizando os termos scriptrix (escriba) ou soror (irmã).
Os pesquisadores também notaram uma tendência interessante: entre os anos 800 e 1.400, a proporção de mulheres escribas manteve-se relativamente estável. Entretanto, a partir de 1.400, houve um aumento significativo na produção de manuscritos feitos por mulheres.
Esse crescimento coincidiu com a disseminação de textos escritos em línguas vernáculas (não latinas), o que pode indicar que as escribas encontraram mais oportunidades à medida que os livros se tornavam mais acessíveis ao público.
Ainda assim, o verdadeiro alcance da participação feminina na cultura dos manuscritos medievais permanece incerto. Algumas escribas podem ter ocultado seu gênero, assinado discretamente nas margens dos textos ou evitado registrar sua identidade.
Os pesquisadores destacam que esse estudo é apenas o começo para entender o impacto das mulheres na produção de manuscritos. Segundo a equipe, ainda há comunidades de mulheres produtoras de livros não identificadas e, possivelmente, muito mais escribas femininas do que se imaginava.
O próximo passo dos estudiosos será mapear a distribuição geográfica e cronológica dos manuscritos escritos por mulheres, examinar registros históricos sobre redes de produção de livros negligenciadas e analisar os tipos de textos copiados por elas. Como conclui Ommundsen ao portal, “nosso estudo deve ser visto como um primeiro passo, abrindo novas perspectivas.”