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Matérias / Nazismo

O leite como símbolo do neonazismo

Há 100 anos, documentos dos Estados Unidos pontuavam a relação entre o consumo de laticínios e uma suposta inteligência superior

Pamela Malva Publicado em 01/06/2020, às 11h00 - Atualizado em 28/06/2024, às 11h32

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Imagem ilustrativa - Pixabay
Imagem ilustrativa - Pixabay

Leite puro em um copo com canudo e cereais coloridos em uma tigela separada. Não teve quem não prestasse atenção no metódico lanche de Rose Armitage em Corra, filme de Jordan Peele de 2017.

Profundamente crítico ao racismo estrutural, o longa acompanha diversas produções que discutem o tema. Ao lado dele, Bastardos Inglórios, de 2009, também trás um de seus personagens bebendo leite.

No filme dirigido por Quentin Tarantino, é o personagem Hans Landa, soldado da SS, quem consome a bebida láctea. Para diversos teóricos, ambas as cenas mostram o leite através de uma de suas facetas: um símbolo da supremacia branca.

Cena de Rose Armitage em Corra / Crédito: Divulgação

Raízes nem tão antigas

Com o ressurgimento de movimentos supremacistas, como o Ku Klux Klan e o neonazismo, a discussão sobre a simbologia do leite entrou em pauta. Tal significado, no entanto, tem origens um pouco mais antigas, datadas de 100 anos atrás.

Em 1920, um panfleto do Conselho Nacional de Laticínios dos EUA foi bastante categórico ao explicar a situação. Na peça, fica óbvio que pessoas que consomem mais leite “são progressivas na ciência e em todas as atividades do intelecto humano”.

Ainda mais, em 1933, a História da Agricultura do Estado de Nova York declarou que “de todas as raças, os arianos parecem ter sido os bebedores mais pesados ​​de leite e os maiores usuários de manteiga e queijo”. Para o órgão, isso tem ligação direta com o “rápido e alto desenvolvimento dessa divisão de seres humanos”, resgata Andrea Freeman, professora de direito na Faculdade de Direito da Universidade do Havaí, em artigo no The Conversation.

O que a teoria diz

Para Freeman a ligação entre o leite e a simbologia neonazista é indiscutível. “Não é um novo relacionamento”, explica, pontuando o passado histórico no artigo.

Autora de um artigo crítico intitulado A brancura insuportável do leite, Andrea acredita que a ligação entre o leite e a ideia supremacista ainda parte de origens biológicas. Para a estudiosa, a indústria dos EUA se aproveita de diferenças raciais para estimular o consumo de leite nas elites norte-americanas.

“Neste momento”, teoriza Andrea, “tanto os supremacistas brancos quanto a política federal de alimentos nos Estados Unidos estão se oprimindo através do leite”. Segundo ela, a maior parte do mundo não digere o leite de forma confortável, enquanto a população branca, original de países escandinavos, consome a bebida com facilidade.

Hans Landa, personagem de Bastardos Inglórios / Crédito: Divulgação

Telefone sem fio

Os resultados de estudos são constantemente distorcidos por movimentos de extrema-direita. Pesquisas genéticas, por exemplo, são citadas em postagens supremacistas a fim de embasar o racismo na ciência.

Nesse sentido, John Novembre, biólogo evolucionário da Universidade de Chicago, assistiu suas pesquisas sobre seleção natural serem adotadas para fins não-liberais. Os cientistas, contudo, pontuam que não estudam raça, de maneira nenhuma.

“Precisamos tomar muito cuidado na comunicação dos resultados desses estudos para o público em geral”, explicou John, conforme repercutido pelo New York Times. Na opinião do especialista, sempre que um trabalho é publicado, suas conclusões se perdem em traduções tendenciosas.

Influências 

Para David L. Nelson, geneticista da Universidade Baylor de Medicina e presidente da sociedade de genética humana, portanto, “não há evidências genéticas para apoiar nenhuma ideologia racista”, repercute o New York Times. Dessa forma, não há porque pensar que quem consome leite em maior quantidade tem qualquer evolução mais expressiva.

Hoje, contudo, supremacistas brancos colocam ícones de copos de leite em suas redes sociais e apoiadores do movimento tomam galões do líquido branco em protestos neonazistas. Sempre em cenas dramáticas e muito semelhantes às de Rose e Hans.