Matérias / A Guerra de Todos

Como diplomatas brasileiros salvaram judeus do Holocausto?

Luiz Martins de Souza Dantas e Aracy de Carvalho utilizaram seus cargos no serviço diplomático para facilitar a entrada de judeus no Brasil

Holocausto capa
Campo de concentração de Auschwitz - Crédito: Getty Images

Embora o governo brasileiro tenha restringido oficialmente a concessão de vistos a judeus durante parte do Estado Novo (1937-1945), integrantes do serviço diplomático do país atuaram de forma independente para facilitar a fuga de perseguidos pelo regime nazista. Entre os casos mais conhecidos estão os de Luiz Martins de Souza Dantas, embaixador do Brasil na França, e Aracy de Carvalho, funcionária do consulado brasileiro em Hamburgo, na Alemanha.

Souza Dantas construiu uma longa carreira diplomática e permaneceu por cerca de 25 anos como embaixador brasileiro na França. Com a ocupação alemã em 1940, transferiu a representação diplomática de Paris para Vichy, cidade que passou a sediar o governo colaboracionista francês após o armistício com a Alemanha nazista.

Antes da mudança, o diplomata intensificou a emissão de vistos para judeus que buscavam deixar a França. Muitos desses documentos foram concedidos em passaportes emitidos pela Liga das Nações para refugiados apátridas, conhecidos como Passaportes Nansen. As autorizações permitiram que centenas de famílias embarcassem rumo ao Brasil em um período de crescente perseguição na Europa.

As concessões contrariavam diretamente a Circular Secreta nº 1.127, expedida em 1937 pelo governo de Getúlio Vargas. O documento orientava consulados e embaixadas brasileiras a restringirem a entrada de judeus e de outros grupos classificados como “indesejáveis”. A política só começou a ser flexibilizada em 1940, quando pressões diplomáticas internacionais levaram o governo brasileiro a rever parte dessas restrições.

Relatos sobre a atuação de Souza Dantas afirmam que o embaixador assinava vistos de maneira acelerada para atender ao maior número possível de refugiados antes que eles fossem alcançados pelas autoridades alemãs. A atividade chamou a atenção da Gestapo, que realizou buscas na embaixada brasileira e na residência oficial do diplomata, desrespeitando a imunidade diplomática prevista pelas convenções internacionais.

O embaixador acabou sendo detido durante a guerra. Há versões divergentes sobre as circunstâncias da prisão. Uma delas afirma que ele permaneceu cerca de 14 meses sob custódia das autoridades alemãs até ser libertado em uma troca de prisioneiros. Outra sustenta que o governo brasileiro abriu um processo administrativo contra o diplomata por desobedecer às orientações do Itamaraty, hipótese debatida por pesquisadores da área.

Salvamento dos judeus

Após sua morte, em 1954, Souza Dantas recebeu reconhecimento internacional por sua atuação humanitária. Seu nome foi incluído no Jardim dos Justos entre as Nações, memorial mantido pelo Yad Vashem, em Israel, dedicado a pessoas que arriscaram suas vidas para salvar judeus durante o Holocausto.

Outra brasileira homenageada pela mesma instituição foi Aracy de Carvalho, conhecida como “Anjo de Hamburgo”. Fluente em alemão desde a infância, ela ingressou no serviço do consulado brasileiro em Hamburgo e, em 1938, passou a chefiar a Seção de Passaportes da representação diplomática.

Na função, Aracy era responsável por preparar a documentação encaminhada ao cônsul-geral para assinatura. As normas vigentes determinavam que pedidos apresentados por judeus fossem identificados com a letra “J”, informação que praticamente inviabilizava a concessão do visto de entrada no Brasil.

Segundo diversos relatos históricos, Aracy simplesmente deixava de registrar essa identificação em parte da documentação, permitindo que inúmeros pedidos fossem aprovados. A estratégia possibilitou que refugiados escapassem da perseguição nazista e emigrassem para o Brasil, contrariando as determinações oficiais do governo brasileiro.

Foi em Hamburgo que Aracy conheceu o então diplomata João Guimarães Rosa. Os dois trabalharam juntos entre 1938 e 1942 e iniciaram um relacionamento que culminaria em casamento. Embora não tivesse autoridade para conceder vistos, Rosa colaborava com a esposa ao auxiliar refugiados e evitar que as irregularidades fossem descobertas pelas autoridades diplomáticas.

Pesquisadores também atribuem ao escritor outras ações de apoio aos judeus perseguidos. Entre elas estão o transporte de pertences para evitar confisco, a guarda temporária de objetos de valor, a elaboração de informações falsas para proteger famílias e o auxílio na organização da saída de refugiados da Alemanha.

Em 1942, após o rompimento das relações diplomáticas entre Brasil e Alemanha, Aracy e Guimarães Rosa permaneceram retidos por cerca de quatro meses até serem autorizados a deixar o país em uma operação de troca de diplomatas entre os dois governos. O casal oficializou a união durante a viagem de retorno à América Latina.

Depois da guerra, Aracy continuou atuando em causas humanitárias e, durante a ditadura militar brasileira, também prestou auxílio a intelectuais perseguidos pelo regime. Em reconhecimento à sua atuação durante o Holocausto, tornou-se a única mulher brasileira homenageada como Justa entre as Nações pelo Yad Vashem. Sua trajetória inspirou a minissérie Passaporte para Liberdade, enquanto a atuação conjunta de Aracy, Guimarães Rosa e Luiz Martins de Souza Dantas permanece como um dos principais exemplos da participação brasileira no resgate de vítimas da perseguição nazista.


++ Saiba mais detalhes deste período histórico na coleção apresentada por Aventuras na História: “A Guerra de Todos”. Dividida em oito livros escritos pelo jornalista Edgardo Martolio, a coletânea ajuda a entender a magnitude do conflito e também conta tudo aquilo que ainda pouco conhecemos da Segunda Guerra Mundial.
O segundo livro da coleção “A Guerra de Todos”, com o título “Os Aliados: Libertadores e Renunciantes à Neutralidade” já está à venda. Mais detalhes clicando aqui! 
Para ver todos os livros escritos por Edgardo Martolio, clique aqui!