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Cidade subaquática com 60 milhões de ninhos surpreende cientistas na Antártida

Descoberta sob o gelo da Antártida revelou a maior colônia reprodutiva de peixes já registrada e pode mudar estratégias de conservação

Peixe-do-gelo (Neopagetopsis ionah) registrado no Mar de Weddell, na Antártida. - imagem: Current Biology

Uma equipe internacional de cientistas encontrou, sob a plataforma de gelo da Antártida, uma gigantesca colônia reprodutiva formada por cerca de 60 milhões de ninhos ativos de peixes-do-gelo (Neopagetopsis ionah). Distribuída por aproximadamente 240 quilômetros quadrados no sul do Mar de Weddell, a descoberta é considerada inédita e foi descrita em um estudo publicado na revista científica Current Biology.

O achado aconteceu por acaso durante uma expedição científica realizada entre fevereiro e abril de 2021 a bordo do quebra-gelo RV Polarstern. Os pesquisadores utilizavam um sistema de câmeras rebocado sobre o fundo do oceano para analisar as características do leito marinho quando encontraram uma paisagem completamente inesperada.

“Esperávamos encontrar o fundo do mar antártico normal… durante as primeiras quatro horas do nosso mergulho, não vimos nada além de ninhos de peixes”, afirmou Autun Purser, pesquisador do Instituto Alfred Wegener, na Alemanha, em entrevista ao The Guardian.

Até então, a maior colônia conhecida reunia apenas cerca de 60 ninhos. No novo local, os pesquisadores estimaram a existência de aproximadamente 60 milhões de ninhos ativos, cuja biomassa total supera 60 mil toneladas.

Milhares de ovos em cada ninho

Os cientistas analisaram mais de 16 mil ninhos fotografados durante a expedição. A maior parte das estruturas era ocupada por um peixe adulto protegendo os ovos.

Cada ninho continha, em média, 1.735 ovos, enquanto cerca de 79% deles estavam em plena atividade reprodutiva. Em formato de tigela, as estruturas mediam aproximadamente 75 centímetros de diâmetro e, nas áreas mais densas, eram separadas por apenas alguns centímetros.

Segundo os pesquisadores, os peixes escavaram cerca de 1,2 milhão de metros cúbicos de sedimentos para formar toda a área de reprodução.

A equipe investigava a região por já conhecer uma ressurgência de água cerca de 2 °C mais quente do que as águas profundas ao redor. Ainda assim, ninguém esperava encontrar um ecossistema dessa dimensão.

“Não esperávamos encontrar qualquer tipo de ecossistema formado por ninhos de peixes. Foi uma surpresa total”, disse Purser em comunicado divulgado pela Cell Press.

Os autores acreditam que essa água relativamente mais quente possa funcionar como um sinal natural que orienta os peixes até a área de reprodução.

Importância para o ecossistema

Peixe-do-gelo (Neopagetopsis ionah) registrado no Mar de Weddell, na Antártida. – Imagem: Alfred Wegener Institute

Além da dimensão da colônia, a pesquisa mostrou que ela desempenha um papel importante na cadeia alimentar da Antártida.

Durante a expedição, os cientistas encontraram peixes mortos dentro e ao redor dos ninhos e compararam essas informações com dados de rastreamento de focas-de-Weddell coletados ao longo de mais de dez anos.

Segundo Purser, muitas dessas focas passam boa parte do tempo próximas à colônia e mergulham até a profundidade dos ninhos, o que indica que podem se alimentar desses peixes.

Para os pesquisadores, a enorme concentração de peixes transforma a região em uma importante fonte de alimento para predadores e influencia o equilíbrio ecológico do Mar de Weddell.

Diante dos resultados, os autores do estudo defendem a criação de uma Área Marinha Protegida na região, sob a Convenção para a Conservação dos Recursos Vivos Marinhos Antárticos (CCAMLR). A equipe também instalou câmeras no fundo do mar para monitorar continuamente os ninhos e acompanhar o comportamento dos peixes ao longo do tempo.


*Sob supervisão de Felipe Sales Gomes