Farsa histórica: confira 5 curiosidades sobre o Plano Cohen
Há 88 anos, o Brasil era surpreendido por uma fake news que acabaria servindo como argumento decisivo para um golpe de estado

No dia 30 de setembro de 1937, o Brasil foi surpreendido por uma notícia que mudaria para sempre a sua trajetória política. O Exército anunciou ter descoberto um suposto plano comunista para tomar o poder e instaurar uma ditadura no país. Batizado de Plano Cohen, o documento descrevia um complô arquitetado por revolucionários inspirados na União Soviética, com direito a ataques armados, saques e perseguições contra líderes políticos e religiosos. O anúncio, transmitido em rede nacional, deixou a população em pânico e serviu como argumento decisivo para que Getúlio Vargas decretasse, semanas depois, o Estado Novo, regime autoritário que se estenderia até 1945.
O que muitos não sabiam é que esse plano nunca existiu. Tratava-se, na verdade, de uma farsa, elaborada e manipulada para legitimar um golpe de Estado. A seguir, confira cinco curiosidades que ajudam a compreender como o Plano Cohen foi concebido, usado e, por fim, desmascarado.
1- Origem do documento
O autor do Plano Cohen foi o então capitão Olímpio Mourão Filho, integrante da Ação Integralista Brasileira (AIB), movimento de inspiração fascista liderado por Plínio Salgado. O texto não passava de um exercício interno, criado para treinar militantes integralistas sobre como reagir em caso de uma insurreição comunista. Anos mais tarde, o próprio Mourão reconheceria que o documento jamais foi pensado para divulgação pública. O destino, porém, foi outro: o plano caiu nas mãos de setores das Forças Armadas, que enxergaram nele o pretexto perfeito para sustentar as ambições autoritárias de Vargas.

2- Significado do nome
O documento recebeu o nome de “Plano Cohen” em referência a Béla Kun (ou Cohen), revolucionário húngaro de origem judaica que liderou movimentos comunistas na Europa. A escolha do nome não foi inocente: evocava não apenas o temor do comunismo internacional, mas também o antissemitismo latente em certos setores políticos da época. O batismo do plano foi obra do general Góis Monteiro, chefe do Estado-Maior do Exército, que divulgou o conteúdo em cadeia nacional por meio do programa radiofônico Hora do Brasil (atual Voz do Brasil).
No dia seguinte, Vargas pediu ao Congresso Nacional a decretação do Estado de Guerra, o que abriu caminho para uma ampla perseguição a comunistas e demais opositores sob a justificativa de conter a “ameaça vermelha”.
Em 10 de novembro, o Estado Novo foi instaurado. Poucas semanas depois, o Exército fecharia o Congresso e uma nova Constituição, elaborada por Francisco Campos, seria imposta ao país.
3- Contexto de radicalização
O golpe surgiu em um contexto de intensa radicalização política entre grupos nazifascistas e comunistas, cenário semelhante ao vivido na Europa. Com o Estado Novo, Vargas inspirou-se no fascismo italiano e impôs uma nova Constituição, apelidada de “polaca” por se basear no modelo da Polônia. O texto concedia ao Executivo poderes para dissolver o Congresso, retirava a autonomia dos estados, proibia greves e extinguia partidos políticos. Além disso, foi estruturado um forte sistema de repressão policial para sufocar qualquer manifestação de oposição.
Como destaca o portal Guia do Estudante, a figura de Vargas tornou-se o centro de sustentação do regime, sustentada por um aparato político voltado a absorver conflitos e consolidar sua imagem. Nesse processo, destacou-se a criação do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), responsável por enaltecer as ações do governo e exercer rígido controle sobre os meios de comunicação e a produção cultural do país.

4- Nem todos eram de acordo
Embora alguns generais tenham colaborado ativamente com a manobra, não havia unanimidade dentro da cúpula militar. Um exemplo marcante foi o do general Pompeu de Albuquerque Cavalcanti, que enviou uma carta ao então ministro da Guerra, Eurico Gaspar Dutra, expressando sua oposição ao golpe e advertindo para os riscos de se impor um regime à força.
“Contrario por principio aos movimentos subversivos, como revelam os meus antecedentes, e ainda mais, no momento em que as aspirações comunistas e integralistas se viriam misturar com as aspirações democráticas liberais, que ainda dominam a consciência da maioria da Nação, eu não desejo arrastar os meus comandados num movimento em torno do seu chefe”, dizia um trecho da carta. Para a surpresa de Cavalcanti, Dutra reagiu de forma implacável: mandou prender o general, destituiu-o do comando, e o transferiu para a reserva “por conveniência do regime”, como ele próprio relatou em suas memórias e em declaração à revista VEJA em 1972.
5- Descoberta da farsa
Com o tempo, a farsa do Plano Cohen foi desmascarada. Mourão Filho, já general e protagonista de outro golpe em 1964, reconheceu em suas memórias que o documento não passava de um exercício integralista. Ainda assim, a mentira já havia cumprido sua função histórica: garantir a permanência de Vargas no poder e legitimar uma ditadura que duraria até 1945. O episódio é até hoje lembrado como um dos maiores exemplos de manipulação política da história do Brasil.