O “Robin Hood dos Mares”: a ascensão e queda de Sam Bellamy
Conhecido por sua liderança democrática e pela fortuna milionária, Bellamy tornou-se uma das figuras mais famosas da Era de Ouro da Pirataria

Ao contrário da imagem tradicional associada aos piratas mais temidos da história, Samuel “Black Sam” Bellamy não ficou conhecido pela crueldade ou pela violência excessiva. Descrito por contemporâneos como um líder justo e generoso, Bellamy conquistou a lealdade de sua tripulação ao adotar práticas incomuns para a época, dividindo riquezas de forma mais igualitária e tratando seus homens com respeito.
Ainda assim, sua reputação não foi construída apenas pela boa convivência a bordo. Em pouco mais de um ano de atividades, Bellamy e sua tripulação capturaram dezenas de embarcações e acumularam uma fortuna estimada em mais de US$ 140 milhões em valores atuais. O feito o transformou em um dos piratas mais ricos da história.
A origem de Bellamy
Nascido por volta de 1689, no oeste da Inglaterra, Bellamy teve uma infância marcada por dificuldades financeiras. Sua mãe morreu quando ele ainda era jovem, e a família enfrentou longos períodos de pobreza. O mar acabou surgindo como uma alternativa para escapar daquela realidade.
Em 1702, ainda adolescente, Bellamy começou a trabalhar como grumete em embarcações navais. Ao longo dos anos, adquiriu experiência como marinheiro e desenvolveu habilidades que mais tarde seriam fundamentais para sua carreira. Por volta de 1714 ou 1715, ele chegou às colônias britânicas na América do Norte.
Segundo uma lenda popular preservada na região de Cape Cod, em Massachusetts, Bellamy teria se envolvido romanticamente com uma jovem chamada Maria Hallett. A relação, porém, teria enfrentado resistência da família da moça, que desaprovava o fato de Bellamy ser um marinheiro pobre e sem perspectivas financeiras. Determinado a mudar sua situação, ele decidiu partir em busca de riqueza.
Inicialmente, Bellamy tentou encontrar tesouros associados a naufrágios espanhóis nas Índias Ocidentais, mas a empreitada fracassou. Sem fortuna e sem perspectivas imediatas de sucesso, acabou aderindo à pirataria, uma decisão que mudaria definitivamente sua trajetória.
A carreira de pirata
Sua entrada nesse universo ocorreu ao lado do capitão Benjamin Hornigold, um famoso corsário que atuava no Caribe. Bellamy integrou a tripulação do navio Mary Anne e, possivelmente, chegou a conviver com Edward Teach, o homem que mais tarde ficaria conhecido mundialmente como o pirata Barba Negra.
A transformação de Bellamy em pirata ocorreu durante um período de tensão dentro da tripulação. Hornigold demonstrava resistência em atacar embarcações britânicas, o que desagradava parte dos marinheiros. O conflito culminou em um motim. Diante da situação, Bellamy apresentou uma escolha aos homens: retornar para casa sem dinheiro ou abraçar definitivamente a vida da pirataria.
A maioria optou pela segunda alternativa. Bellamy foi eleito capitão e passou a liderar seu próprio grupo sob a tradicional bandeira negra decorada com caveira e ossos cruzados.

Além de sua habilidade como comandante, Bellamy chamava atenção pela aparência. Diferentemente de muitos homens influentes da época, ele dispensava as perucas empoadas que estavam na moda. Mantinha os cabelos negros compridos, presos por uma fita de cetim, característica que lhe rendeu o apelido de “Black Sam”.
Um capitão altruísta
Mas foi sua forma de liderar que realmente o destacou entre outros capitães piratas. Bellamy defendia uma estrutura relativamente democrática a bordo e distribuía os lucros obtidos nas capturas entre os integrantes da tripulação. Cerca de um terço de seus homens era formado por negros, muitos deles anteriormente escravizados, que encontravam nos navios piratas oportunidades raras de mobilidade e autonomia.
Essa postura fez com que Bellamy fosse lembrado por alguns de seus contemporâneos como uma espécie de “Robin Hood dos Mares”. O próprio capitão demonstrava desprezo pelas elites econômicas de sua época, argumentando que governos e comerciantes ricos exploravam os pobres sob a proteção da lei, enquanto os piratas simplesmente tomavam riquezas pela força.
O auge de sua carreira ocorreu no início de 1717, quando capturou o Whydah, um navio negreiro que havia acabado de vender sua carga humana na Jamaica. A embarcação transportava toneladas de ouro, prata e outras mercadorias valiosas. Transformado em navio pirata, o Whydah tornou-se a principal embarcação da frota de Bellamy.
Ao longo de aproximadamente um ano, ele e seus homens capturaram mais de 50 navios enquanto navegavam pelo Caribe e pelo Atlântico. A fortuna acumulada durante esse período consolidou Bellamy como um dos piratas mais bem-sucedidos da chamada Era de Ouro da Pirataria.
A queda de Bellamy
Em abril de 1717, porém, o capitão decidiu retornar a Cape Cod. De acordo com relatos posteriores, Bellamy acreditava já ter conquistado riqueza suficiente e desejava voltar para casa. A viagem, entretanto, jamais seria concluída.
No dia 26 de abril daquele ano, uma violenta tempestade atingiu o Whydah próximo à costa de Massachusetts. O navio afundou rapidamente, levando consigo tesouros, armas e praticamente toda a tripulação. Apenas dois homens sobreviveram ao desastre.
Durante mais de dois séculos, os destroços permaneceram escondidos sob as águas. A situação mudou apenas em 1984, quando o explorador subaquático Barry Clifford localizou os restos do Whydah próximo à cidade de Wellfleet.
A descoberta representou um marco para a arqueologia marítima. Até hoje, o Whydah continua sendo o único naufrágio de um navio pirata da Era de Ouro da Pirataria identificado e estudado de forma conclusiva.
Desde então, pesquisadores recuperaram mais de 200 mil artefatos do local, incluindo canhões, milhares de moedas, centenas de joias e diversos objetos pessoais da tripulação. As buscas, contudo, continuam.