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Três ‘bebês’ de Auschwitz se reencontram após 65 anos

Trio de filhos de mulheres que esconderam a gravidez em Auschwitz recordam a história de sobrevivência das mães e o fatídico reencontro em 2010

Eva Clarke, Hana Berger-Moran e Mark Olsky em entrevista / Crédito: Reprodução

Três mulheres judias grávidas conseguiram esconder suas gestações dos nazistas em 1944 e sobreviver ao Holocausto ao lado de seus bebês. Oitenta anos depois, seus filhos — Eva Clarke, Hana Berger-Moran e Mark Olsky — relembram as trajetórias das mães e o reencontro que só aconteceria décadas mais tarde.

As três mulheres foram enviadas para o campo de concentração de Auschwitz, na Polônia ocupada, durante a Segunda Guerra Mundial. Na época, a gravidez era considerada crime pelos nazistas e poderia levar à execução imediata. Mesmo assim, elas conseguiram ocultar a condição enquanto enfrentavam fome, trabalho forçado e a ameaça constante das câmaras de gás.

Os três filhos, hoje com 80 anos, estão entre os sobreviventes mais jovens do Holocausto. Eles só descobriram a existência uns dos outros já adultos e se encontraram pela primeira vez em 2010. “Nós nos encontramos”, disse Olsky ao programa 60 Minutes em reportagem exibida no domingo, 15 de fevereiro. “Deveríamos ter estado juntos desde o primeiro dia.”

As mães de Clarke e Berger-Moran, Anka e Priska, eram da Checoslováquia. Já Rachel, mãe de Olsky, era da Polônia. Casadas e recém-grávidas, elas foram transportadas em vagões de carga até Auschwitz; e, no campo, acabaram selecionadas para trabalho escravo, enquanto outros prisioneiros eram enviados para as câmaras de gás, conforme relatado pelo 60 Minutes.

Segundo a autora Wendy Holden, que escreveu o livro ‘Born Survivors’ sobre as três histórias, as mulheres conseguiram esconder as gravidezes porque receberam roupas largas que haviam pertencido a prisioneiros mortos nas câmaras de gás. Elas nunca revelaram que estavam grávidas, repercute a People.

Mais tarde, foram transferidas para um campo de trabalhos forçados em Freiberg, na Alemanha. Clarke relatou o sofrimento da mãe naquele período. “Durante os seis meses em que ela esteve lá”, disse ao 60 Minutes sobre Anka, “ela foi ficando cada vez mais faminta e com a gravidez cada vez mais evidente. Mas, felizmente, nenhum dos alemães percebeu que ela estava grávida, porque, se tivessem percebido, poderiam muito bem tê-la enviado de volta para Auschwitz para ser morta.”

Berger-Moran também recordou o último momento em que seus pais se viram, ainda em Auschwitz. “Ela o viu do outro lado da cerca de arame farpado”, contou à correspondente Lesley Stahl. “E meu pai disse a ela: ‘Tenha cuidado e pense apenas em coisas boas. Pense apenas em coisas boas.’ Ele ficou repetindo essa frase sem parar.”

Em 1945, com o avanço das forças aliadas, os nazistas decidiram transferir prisioneiros para outros campos. Priska entrou em trabalho de parto no chão de uma fábrica. Anos depois, Berger-Moran perguntou à mãe sobre aquele momento: “eu disse: ‘mãe, você ficou constrangida?’ Berger-Moran perguntou mais tarde à mãe sobre o parto. ‘Eu não tive chance de ficar constrangida. Você estava nascendo. Isso era tudo o que importava para mim.’”

Os trabalhadores escravizados foram colocados em um trem rumo a Mauthausen, na Áustria, em uma viagem de 16 dias sem comida ou água. Rachel, mãe de Olsky, deu à luz em 20 de abril dentro de um vagão contaminado, pesando menos de 32 quilos. Poucos dias depois, em 29 de abril, Anka deu à luz Clarke ao chegar ao campo.

“Ela teve que descer do caminhão de carvão sozinha”, disse Clarke. “Ela teve que subir em uma carroça, porque os prisioneiros que não eram fortes o suficiente para subir a ladeira íngreme até o campo, tinham que subir em carroças e eram puxados por outros.”

Resgate dos “bebês”

As três mães e os recém-nascidos chegaram a Mauthausen um dia após o campo ter utilizado as câmaras de gás pela última vez, interrompidas por falta de gás. “Se o trem tivesse chegado no dia 26 ou 27, nenhum de nós teria sobrevivido”, afirmou Clarke ao 60 Minutes.

Dias depois, soldados da 11ª Divisão Blindada do Terceiro Exército dos Estados Unidos libertaram o campo. Os maridos das três mulheres não sobreviveram à guerra.

Décadas depois, Clarke, Olsky e Berger-Moran descobriram as histórias uns dos outros por meio da internet e de um boletim informativo. O reencontro ocorreu em maio de 2010, em Mauthausen, hoje transformado em memorial. “Passamos o sábado inteiro em um café conversando, rindo e chorando, falando sobre nossas mães e comparando e contrastando suas três histórias”, recordou Clarke.

Ainda chamados de “os bebês”, mesmo aos 80 anos, eles não se incomodam com o apelido. “Estamos orgulhosos disso”, disse Clarke ao programa.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.